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O crítico que se inventou romancista

CosacNaify relança “Três Mulheres de Três PPPês”, único romance do crítico Paulo Emílio Sales Gomes, que terá toda sua obra publicada pela editora.

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O crítico que se inventou romancista
CosacNaify relança “Três Mulheres de Três PPPês”, único romance do crítico Paulo Emílio Sales Gomes, que terá toda sua obra publicada pela editora.
PUBLICADO EM 18/03/07 - 00h01

Com "Três Mulheres de Três PPPês", a editora CosacNaify inicia a publicação de toda a obra do crítico de cinema e intelectual Paulo Emílio Sales Gomes*. Lançado pela primeira vez há 30 anos " em abril de 1977 ", o livro é considerado por parte da crítica literária brasileira um dos mais importantes romances escritos no país depois dos de Guimarães Rosa.

Com organização do professor Carlos Augusto Calil, a nova edição resgata o texto original da obra, que sofreu distorções na segunda edição da editora Nova Fronteira, em 1982.

O volume traz ainda uma fortuna crítica com ensaios de Zulmira Ribeiro Tavares, J.G. Nogueira Moutinho, Celso Luft, O.C. Louzada Filho, Modesto Carone, Alexandre Eulálio e Roberto Schwarz.

Publicado seis meses antes da morte de Paulo Emílio, o livro causou surpresa até mesmo nos amigos mais próximos do crítico. Dono de grande erudição, teórico internacionalmente respeitado, ninguém poderia imaginar nele a faceta de romancista.

Os anos de academia não desensinaram Paulo a escrever bem. Pelo contrário. Sem se contaminar com certa deformação linguística, frequente no meio universitário brasileiro acostumado a escrever só para si mesmo, Paulo constrói um grande livro.

Nas três histórias que compõem o volume " "Duas vezes com Helena", "Ermengarda com H" e "Duas vezes Ela" -, o escritor ironiza o universo da elite paulistana, com linguagem cristalina e direta.

Ambientados da década de 1940 aos anos de repressão política pós-1964, Paulo cria um narrador bem de vida, morador do bairro paulistano do Alto de Pinheiros. "Três contos longos que tratam de relações amorosas complicadas, com rara liberdade de escrita e concepção", escreveu o crítico Antonio Candido sobre o livro.

"A sua modernidade serena e corrosiva se exprime numa prosa quase clássica. Translúcida e irônica, com certa libertinagem de tom que faz pensar em ficcionistas franceses do século XVIII", completa o autor de "Formação da Literatura Brasileira".

Ojeriza
De ascendência baiana, pernambucana, gaúcha e inglesa, Paulo Emílio nunca perderia a chance de reafirmar não ter nenhuma gota de sangue paulista. "Ele se comportava como um menino malcriado na presença de gente da burguesia", conta o professor Carlos Augusto Calil, organizador do relançamento de toda a obra.

Ex-aluno do crítico, ele relembra que Paulo Emílio adorava encher o peito para dizer que achava a burguesia uma besteira. "Ele adorava fazer isso. E sempre de uma forma teatral. Mesmo fazendo na frente apenas dos amigos, às vezes criava alguns constrangimentos", revela Calil.

Essa ojeriza está refletida em "Três Mulheres de Três PPPês" (CosacNaify, 197 págs, R$ 45) que, segundo o professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Alcir Pécora, tem um narrador "com uma urbanidade de "nível paulista", o que, no registro irônico do livro, equivale a dizer insossa, impostada e provinciana, conquanto esta elite se gabe de esclarecida e internacional".

A verdadeira aversão à burguesia paulista levaria Paulo Emílio a viver grande parte de sua vida fora do país.

"Na França, ele morou cerca de dois anos (1937- 39) e outros oito (1946-54): o que é um bom tempo para quem morreu aos 61 anos", afirma José Inacio de Melo Souza, autor de "Paulo Emílio no Paraíso" (Editora Record), a mais completa biografia sobre o crítico. Inacio conta que as duas vezes que Paulo Emílio morou na França foram situações bem distintas.

"Na primeira, porque não tinha muito o que fazer no Brasil: fugido da prisão, mas ainda sem julgamento definido no processo do Tribunal de Segurança Nacional por agitação comunista, ele não tinha muito o que fazer senão curtir uma Europa. Filho de uma família de posses como a dele, não podia fazer faculdade aqui com o processo em andamento. Acabou então se exilando na França".

Já na segunda vez em que deixou o país, Paulo Emílio já estava envolvido com o cinema. Sua pretensão era fazer um aprimoramento nesse campo, que a eclosão da Segunda Guerra tinha impedido.

"As pesquisas sobre Jean Vigo, o pai e o filho " que agora, pela Cosac, vão sair juntos, e não separados, como estão publicados " demandou muito tempo. Além do mais, ele se casou com uma moça rica " Sonia Veloso Borges -, que tinha muito mais interesse em permanecer na França do que no Rio de Janeiro. Tanto que, quando voltaram, o casamento acabou".

Cinemateca
De volta ao Brasil, no final dos anos 50, Paulo Emílio seria um dos maiores agitadores do cinema nacional, ajudando na fundação da Cinemateca Brasileira. Sua vocação para o romance teria que esperar um pouco mais.

O casamento com a escritora Lygia Fagundes Telles foi um passo importante no sentido de aproximar Paulo Emílio do universo da criação literária. Dividindo um modesto apartamento em São Paulo, os dois trabalhariam juntos durante muitos anos: ele escrevendo à mão, ela, na sua velha máquina.

Ao se recordar desse período, anos mais tarde no ensaio biográfico "Um Retrato", Lygia revelaria a grande paixão de Paulo Emílio pelo novo ofício: "Por que não me avisou que escrever ficção é essa coisa maravilhosa"", perguntou ele a Lygia, certa vez. "Agora só quero inventar", completou.

* No registro de nascimento, o nome completo de Paulo Emílio é grafado como "Paulo Emílio Salles Gomes". Porém, segundo o professor Carlos Augusto Calil, responsável pela organização dos escritos do crítico, Paulo não gostava do "L" duplo de "Salles" e sempre assinava com apenas um. A CosacNaify decidiu respeitar a vontade do próprio autor e manter a grafia errônea, mantida também nesta matéria publicada hoje.

Ironia do destino

A forte militância de Paulo Emílio Sales Gomes em organizações de esquerda durante sua juventude acabaria levando o crítico ao exílio em 1937. Talvez influenciado por Oswald de Andrade " também ele um escritor engajado ", Paulo Emílio pagaria um preço alto por se interessar pelo mundo da política.

Avesso ao convívio com a nata paulistana, não deixa de ser ironia do destino que o intelectual tenha começado sua militância já nos anos do Liceu Rio Branco, tradicional colégio da burguesia paulista da primeira metade do século passado.

"Só soube recentemente que o rapaz que o levou para a Juventude Comunista (JC) " e que morreu assassinado na praça da Sé durante o enfrentamento entre comunistas e integralistas em 1935, Décio Pinto de Oliveira, " tinha sido seu colega no Liceu Rio Branco", conta o biógrafo José Inacio.

"Isso quer dizer que ele deve ter sido aliciado para a JC na própria escola: uma escola particular de elite".

Caio Prado e o buraco
José Inacio conta ainda que com as comemorações dos cem anos do historiador Caio Prado Jr. uma outra história veio à tona: a participação dos comunistas na fuga da prisão de Paulo Emílio, em 1937.

"Para valorizar o pai e os comunistas, a filha Danda Prado está pondo a mulher do Caio na organização logística do túnel e o pai na construção. Caio só não teria fugido porque ficou doente", afirma José Inacio.

Paulo Emílio fugiu do presídio Paraíso, na capital paulista, através de um túnel de nove metros de comprimento. "Agora sabemos que o túnel era supra-partidário, com comunistas, aliancistas e rebeldes", brinca José Inacio. (JPB)

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