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Música

O legado de Redson à tona

Prestes a completar 40 anos de estrada, banda de punk rock Cólera solta primeiro disco com Wendel Barros nos vocais

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Cólera
Novo álbum do Cólera aborda temas da coletividade, numa tentativa de alertar a sociedade sobre o que a cerca
PUBLICADO EM 08/05/18 - 03h00

Em abril de 2011, Edson “Redson” Pozzi, vocalista, guitarrista e principal compositor da banda paulista de punk rock Cólera, convidava Wendel Barros, então roadie da banda, para cantar a música “Histeria”, num show no Hangar 110 – o último do líder do grupo naquele local – e registrado no DVD “Punhos & Vozes: Rasgando no Ar!” (2014). Ninguém poderia imaginar o que aconteceria cinco meses depois e o quanto aquela imagem se tornaria emblemática: nos dias de hoje, ela alude a um pai que passa seu legado ao filho, evidenciado no disco “Acorde! Acorde! Acorde!”, lançado recentemente.

Em setembro daquele mesmo ano, Redson faleceu, aos 49 anos, devido a uma hemorragia interna, resultado de complicações ocasionadas por uma úlcera. O luto veio acompanhado de uma missão: o baterista Pierre e o baixista Val precisaram juntar os cacos para continuar a proliferar os ideais de seu mentor. Em 2012, os dois outorgaram a Wendel o papel – e o dever – de colocar em prática os ensinamentos de seu “mestre” e assumir a função de aedo – enquanto a guitarra mudou de dono algumas vezes até cair de vez nas mãos de Fábio Belluci.

Sete primaveras se passaram desde a morte de Redson, e, às vésperas de completar 40 anos de banda – o que acontecerá em 2019 –, o Cólera lançou “Acorde! Acorde! Acorde!”, seu primeiro disco de inéditas em 14 anos – sucessor de “Primeiros Sintomas” (2006) e concebido a partir de rascunhos de composições do saudoso vocalista e guitarrista. E foi aí que a relação “pai e filho” emergiu de forma crucial para transformar esboços em um registro de 13 canções.

“Tive certa facilidade em compor em cima daquilo que o Redson deixou bem encaminhado. Além de ele ter me chamado para ser roadie da banda em 2008, convivemos juntos por três anos, morando junto, numa relação próxima a de um pai e um filho. Isso me ajudou a entender o que ele tinha em mente quando compunha para o novo disco. Essa convivência facilitou para eu completar o que ele deixou inacabado e também escrever algumas letras. Sentamos o Fábio e eu com o Val e o Pierre para terminar de montar o quebra-cabeças”, relata Wendel, atualmente com 32 anos.

A relação próxima também influenciou o “discípulo” em sua forma de cantar. “A gente tinha uma amizade muito legal. E vejo que tenho um pouco parecido o timbre de voz. Ele me deu aula de canto durante dois anos, eu o acompanhava de cima pra baixo nas produções musicais também e viajávamos o país inteiro com a banda. E o Redson produziu o Sociedade Sem Hino, do qual eu era vocalista. Acho que tudo isso me influenciou”, afirma o atual cantor do Cólera, que reverencia o saudoso músico também pelo conteúdo lírico presente no álbum mais recente.

“O disco fala muito do despertar da mente, da alta conscientização das pessoas em querer saber mais das coisas, saber o porquê das coisas acontecerem, pesquisar, saber por que o mundo está assim com tantos problemas. E do poder que cada um tem em tentar modificar o que está de ruim ao seu redor e dentro de si mesmo e da sociedade. Um disco bem interessante, que aborda temas de alta conscientização”, ressalta.

UMA ÓPERA-PUNK AO ESTILO “CÓLERA”

Assim como está inserido na discografia do Cólera, letras de cunho político também não faltam. Como se vê na “Ópera do Caos”, criada por Redson e dividida em cinco canções do álbum: “Mr. Gamble”, “Mezza Mezza”, “Fá Dó Lá”, “O Caos” e “Hino”.

“É uma ideia bem original que surgiu quando ele (Redson) começou a compor em 2006. O Mr. Gamble representa a figura de um ditador, um autoritário. Nas próprias letras dá para entender melhor o conceito das cinco faixas. Mas o Cólera sempre teve uma mensagem de contestação, de uma luta por sociedade igualitária, do ‘faça você mesmo’, de não ficar sentado numa cadeira. A situação política no Brasil não mudou nada, e a tendência é piorar. As letras do Cólera retratam a auto conscientização de você lutar por algo melhor, por uma vida mais justa”, destaca Wendel, que acredita que o Brasil está infestado de “Mr. Gambles”.

“Infelizmente há pessoas que possuem uma coisa meio fascista dentro de si, algo mascarado. Pode ser um padre, um político... Há alguns personagens que estão na massa e que aparentam ser bonzinhos, andam de terno e gravata, mas que estão destruindo vidas”, opina.

PUNK SEM FRONTEIRAS

Apesar do espírito dos “três acordes” e do “faça você mesmo”, termos que fazem parte da filosofia do punk, o Cólera não colocou fronteiras em seu mapa musical. Prova disso são as inclusões do trompete de Felippe Pipeta, do trombone de Victor Fão e do sax de Bio Bonato, convidados especiais, em vários momentos do disco. Novamente, uma herança de Redson.

“Foi superinteressante ter essa ideia de colocar uns metais. O Redson pesquisava muito, escutava muitos sons diferentes, sons regionais e maracatus. Ele estudava um pouco de cada música e até aplicou isso dentro do Cólera anteriormente. No “Acorde! Acorde! Acorde!”, quisemos utilizar os metais. Os ‘três acordes’ são a essência do punk, mas colocar esses instrumentos deram algo diferente, e a galera tem gostado, pelo que venho notado”, comenta o vocalista Wendel.

Para o vocalista, o punk rock sempre será algo inovador e contestador, não importa a fórmula utilizada.

“Musicalmente o punk será eterno, desde o surgimento em 74 nos Estados Unidos, em 75 na Inglaterra e em 78 no Brasil. O punk está vivo, existe, resiste e se renova a cada dia. Bandas sempre vão existir em todo canto do Brasil, sempre se renovando e se modificando. O punk nunca vai morrer. Aquela vontade de buscar autoconhecimento, de contestação, é importante para quem quer algo de diferente para sua vida”, salienta.

“O punk brasileiro sempre teve grandes nomes como Ratos de Porão, Invasores de Cérebros, Lixomania, Inocentes, AI-5. E o Cólera está junto nessa. Uma felicidade para mm tocar com esses tiozinhos aí, aprendendo bastante e fazendo punk rock”, completa, em meio a risos.

CRONOLOGIA DO CÓLERA

Confira alguns momentos importantes dos quase 40 anos de história da banda paulista de punk rock

1979
Nasce o Cólera.

1982
A banda participa da compilação “Grito Suburbano” com as bandas Inocentes e Olho Seco e participa das compilações internacionais em K7 “Punk Is...” e “Hardcore or What?”.

1983
Redson cria o selo Estúdios Vermelhos e lança a compilação SUB, que conta com Cólera, Ratos de Porão, Psykóze e Fogo Cruzado.

1984
Lançamento da demo-tape “1.9.9.2.”.

1985
Sai o primeiro álbum do Cólera, “Tente Mudar o Amanhã”.

1986
A banda solta no mercado seu segundo disco, “Pela Paz em Todo Mundo”, e o EP “Dê o Fora”.

1987
O conjunto lança o EP “É Natal!!?” e se torna a primeira banda de punk rock do Brasil a excursionar pela Europa, num circuito alternativo.

1989
Lançamento do álbum ao vivo “European Tour '87” e o terceiro disco de estúdio, “Verde, Não Devaste!”.

1992
Lançamento do play “Mundo Mecânico, Mundo Eletrônico”.

1998
“Caos Mental Geral”, quinto disco de estúdio, chega ao mercado.

2004
Sai o disco “Deixe a Terra em Paz!”.

2006
Lançamento do álbum “Primeiros Sintomas”; o baixista Fábio sai da banda, sendo substituído pelo antigo baixista Val.

2009
Início da turnê “30 Anos Sem Parar!”.

2011
Morre o vocalista, guitarrista e principal compositor do grupo Redson

2012
A banda retorna com Wendel Barros.

2018
Sai o disco “Acorde! Acorde! Acorde”, que possui, em suas três faixas bônus, gravações demo ainda com Redson.

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