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Literatura

O riso e as dores dos loucos 

O escritor mineiro Jacques Fux lança romance sobre a loucura das mentes e vidas de personalidades judias

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Ensaio. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2013, Jacques Fux se debruça sobre a insanidade e extravagância de personagens judeus
PUBLICADO EM 08/11/16 - 03h00

“De longe, parece risível, mas, quando se investiga a loucura e ela entra na sua carne, na sua alma, é muito dolorido”, comenta o escritor mineiro Jacques Fux, sobre o processo de escrita de seu terceiro romance. “Meshugá: Um Romance Sobre a Loucura” será lançado nesta quarta-feira (9), às 19h30, no Café do Centro Cultural Minas Tênis Clube.

No novo trabalho, Fux empreendeu o gesto literário de adentrar as mentes dos “meshugás”, termo em hebraico que se refere aos loucos. Ele se valeu de uma gama de personalidades judias, portadoras de histórias geniais e desnorteadoras, para as transformá-la em personagens. Assim, Fux se deu a liberdade de levar às páginas do livro a própria visão sobre as vidas de figuras como Woody Allen e Sigmund Freud. “Ao longo da minha carreira, que é literária e acadêmica, fui colecionando esses loucos que me acompanharam nesse percurso. Sempre imaginei que um dia eles estariam em um livro. São histórias engraçadas, mas que me chocaram quando as vi de perto, envolvido nelas”, afirma.

Também judeu, Fux concentrou a pesquisa na relação da loucura com o judaísmo, compreendendo os aspectos históricos e sociais que influenciam as questões identitárias. “O meu trabalho parte desse olhar do outro. Eu me concentrei nesse grupo de judeus que, ao longo da história, sempre sofreu bullying, entendendo esse conceito como algo maior, menos pontual entre uma pessoa e outra, mas entre povos e comunidades”, explica o escritor.

“Sendo discriminados a vida inteira, essas pessoas começaram a aceitar a ideia preconceituosa e odiosa do outro sobre si mesmas. Esses personagens, em alguma medida, acabaram enlouquecendo por não aceitarem a si próprios. Todos eles têm uma relação complexa com o judaísmo. Em algum grau, gostavam e detestavam essa origem. Alguns até se suicidaram, e eu quis entender por que se odiavam, por que se matavam”, afirma Fux.

Os estudos do filósofo francês Michel Foucault sobre a loucura também orientaram a escrita do livro, mas, para Fux, o principal era romancear as histórias encontradas. Mesmo com uma pesquisa aprofundada sobre cada uma das biografias, prevalecia o entendimento do próprio autor sobre as mentes que adentrava. “Já conhecendo a história biografada, eu podia ficcionalizá-las. O biógrafo já é um ficcionista, mas eu levei isso ao extremo”, conta.

Incesto. Do imaginário que circula sobre o povo judeu, Fux reflete sobre alguns elementos como, por exemplo, a prática do incesto. “Existia um mito do século XVII de que os judeus eram um povo incestuoso. Era o que o olhar do outro dizia sobre eles”, explica.

O tema foi abordado por meio da história de Woody Allen, que se casou com a filha adotiva da ex-esposa. “Ele é um gênio doido que sabe brincar. Em uma entrevista, perguntaram para ele sobre o casamento, e ele disse que vivia bem com a esposa, que mantinha com ela uma relação paternal. Soa como uma brincadeira, mas é também um assunto sério”, pontua Fux.

Outro personagem é o norte-americano Ron Jeremy, que dedicou seus estudos ao teatro e se transformou no maior ator pornô dos Estados Unidos. “Com ele, estudo também a indústria do cinema norte-americano. Ao mesmo tempo em que ele foi muito cortejado, sempre convidado para as festas, vivia como um abjeto que as pessoas desejam e repelem. O ídolo que transou com diversas mulheres nunca teve uma companheira. É uma história rica e muito triste ao mesmo tempo”, conta. Outras almas atordoadas também foram vasculhadas pelo autor, como a filósofa francesa Sarah Kofman e o campeão mundial de xadrez Bobby Fisher.

Em seus livros anteriores, Fux carrega o tom do divertimento em torno de fatos lúdicos. Ao falar sobre a mente dos loucos, não foi diferente. “A loucura como tema para a criação produz um fascínio pelas muitas possibilidades que oferece. São histórias engraçadas, mas é possível ler também como uma sátira, uma crítica. Foi dolorido escrever porque, embora eu esteja falando sobre histórias específicas, estamos sempre abordando o tema como um todo e nos reconhecemos nesses elementos”, comenta o escritor.

Assim como confessa Fux, também faz o narrador, que, ao se envolver com esses personagens, acabou entendendo que tudo aquilo também fazia parte dele. “A loucura abala nossos pilares. Eu me envolvi com o tema e quero que os leitores se envolvam. Quem já leu ficou um pouco atordoado. Eu enlouqueci com essa escrita, então, agora, posso passar isso para a frente”, brinca.

 
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“Meshugá: Um Romance Sobre a Loucura”. Jacques Fux, José Olympio, 196 páginas, R$ 35

Agenda

O quê. Lançamento do livro “Meshugá: Um Romance Sobre a Loucura”, de Jacques Fux

Quando. Nesta quarta-feira (9), às 19h30

Onde. Café do Centro Cultural Minas Tênis Clube (rua da Bahia, 2.244, Lourdes

Quanto. Entrada gratuita

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