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Literatura

Os mares revoltos de Ana Margarida de Carvalho

Escritora portuguesa debate no Sempre um Papo seus dois romances premiados

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Os dois romances da escritora venceram prêmios em seu país de origem
PUBLICADO EM 08/11/18 - 04h00

Os olhos de um gato. A fúria do mar. É com imagens dessa estirpe, poderosas, precisas e prenhes de poesia, que Ana Margarida de Carvalho batiza seus livros. A força parece se estender para as páginas da narrativa, tanto que os dois já lançados, “Que Importa a Fúria do Mar” (2013) e “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato” (2016), venceram o Grande Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, o mais importante do país de origem de Ana Margarida, nascida em Lisboa.

Nesta quinta (8), ela conversa com o público mineiro no Sempre um Papo, a partir das 19h30, na livraria Ouvidor (rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi). A entrada é franca. Abaixo, a autora antecipa alguns dos tópicos de sua participação em entrevista a O TEMPO.

Como surgiu a inspiração para este novo romance, “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato”?

Eu tinha em mente explorar essa incapacidade que o humano tem de se colocar dentro da pele do outro. Arranjei um grupo de personagens, todas elas antagônicas entre si, que são forçadas a se confrontar umas com as outras e a interagir, se quiserem sobreviver. Todas são náufragos, pouco após a abolição do tráfico de escravos, mas quando ele ainda era praticado clandestinamente. Os náufragos vão dar a uma praia brasileira intermitente, que desaparece na maré cheia, cercada pela falésia, e terão de se confinar a uma pequena reentrância na rocha, até ficarem todos nus, literal e metaforicamente, porque despidos das suas peles sociais e dos preconceitos que envergaram a vida inteira, todos com a mesma cor e o mesmo cheiro.

O que o título do livro revela sobre a história?

O título vem de um verso de “Poema do Desamor”, do poeta surrealista Alexandre O’Neill. E tem, quanto a mim, a ver com a incapacidade de determos o nosso olhar de reparar no outro, para além da sua pele, da superfície, do visível, como se as pessoas fossem planas, só tivessem fora e não tivessem dentro.

De que maneira esse romance se liga aos dias atuais e o que ele tem a dizer de mais forte sobre o atual momento que atravessa o mundo?

Tem tudo a ver com os dias de hoje, apesar de se passar em finais do século XIX. Procura resgatar os bocados de passado que sobrevivem no nosso presente. Infelizmente, o passado insiste em voltar como se fosse uma mancha de óleo que se espalha de forma muito inquietante, submergindo, se for preciso, conquistas fundamentais dos direitos humanos. Nunca pensei que um discurso tão antigo, tão retrógrado, tão de antigamente e de tempos de má memória, de apelo ao ódio e de intolerância, pudesse ser tão mobilizador no mundo atual.

Quais são as principais referências na escrita literária da senhora?

Há exatamente 20 anos, José Saramago foi o primeiro e único escritor português e de língua portuguesa que conquistou o Nobel da Literatura. Penso que é sempre muito enriquecedor voltar a ele. Não só pela pujança da sua escrita e pelo poder das suas narrativas, como também pelos valores cívicos pelos quais ele sempre se bateu, e nunca silenciou, e que são indissociáveis da sua obra.

O que há em comum e de diferente do segundo para seu primeiro romance?

São temáticas muito diferentes. O primeiro romance é um conjunto de fúrias. As fúrias coletivas de operários e marinheiros que foram arrasados pela ditadura portuguesa, nos anos 30. Muitos deles, por apenas reivindicarem um pouco mais de dignidade, perderam a vida e foram torturados, vieram a inaugurar o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Tudo isto em confronto com as nossas pequenas fúrias individuais, cotidianas, laborais, conjugais, ridículas se comparadas com a coragem daqueles homens do tempo em que resistir podia custar a vida. A única coisa que aproximará os dois romances é o mar, que ao mesmo tempo é evasão e reclusão. E, muitas vezes, são as personagens que se encontram presas dentro delas.

Como é sua relação com o Brasil?

Eu encaro a minha ligação com o Brasil como uma relação de amor não correspondida. Adoro a vossa expressividade, o vosso jeito de falarem e de sempre incorporarem novas palavras, e entendo muito bem o vosso sotaque. O contrário não acontece. Mas nem é pela língua ou pela história que partilhamos, para o bem e para o mal, é pela vossa literatura. Porque cresci a ler Machado de Assis, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, a ouvir Chico Buarque e Caetano Veloso…

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