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Música

Os pecados de fazer sucesso

Arranjador e produtor de canções consagradas por Gal Costa e Rita Lee, o carioca Lincoln Olivetti é tema de filmes

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Lincoln Olivetti
Sucesso de público e combatido pela crítica, Lincoln Olivetti fez os arranjos de “Baila Comigo”, “Acenda o Farol” e “Palco”
PUBLICADO EM 03/02/19 - 03h00

Tudo começou com uma briga homérica. Tim Maia (1942-1998) se desentendeu com o maestro Miguel Cidras (1938-2008) por conta do arranjo de cordas para a música “Pais e Filhos” (de Renato Piau e Arnaud Rodrigues) e, como não era de se deixar contrariar, despediu o músico com seus modos bem particulares. Para o lugar de Cidras, foi chamado o jovem Lincoln Olivetti (1954-2015), que teve no álbum “Tim Maia Disco Club” (1978) o seu primeiro grande desafio.

Estava dado o pontapé inicial na carreira do arranjador, tecladista, compositor e produtor musical que, em 2019, será tema de um filme e uma série produzidos pela Malagueta Cinema. Intitulado “Lincoln Olivetti: A Música Não Pode Parar”, o documentário pretende ouvir artistas que trabalharam com o arranjador. E não foram poucos.

O curioso é que a despeito de ter escrito os arranjos para clássicos do porte de “Lança Perfume” (de Rita Lee), “Festa do Interior” (com Gal Costa), “Palco” (de Gilberto Gil) e “Banho de Cheiro” (com Elba Ramalho), Olivetti jamais deixou de despertar polêmicas. “Ele era acusado de ter pasteurizado a MPB”, informa o jornalista e crítico musical André Barcinski.

A seu favor, Olivetti trazia no currículo tanto números quanto nomes expressivos. No ano de 1982, ele foi o responsável por nada menos que 360 arranjos. Maria Bethânia, Caetano Veloso, Jorge Benjor, Roberto Carlos, Vanusa, Fagner, Angela Ro Ro, Zizi Possi, Lulu Santos, Ed Motta e As Frenéticas foram alguns dos que passaram por suas mãos.

“A gente vivia um país polarizado, e o trabalho dele era visto pela crítica como uma coisa ruim, de baixa sofisticação, para o povão”, analisa Barcinski. A avaliação maniqueísta que opunha êxito comercial a qualidade artística, no entanto, não se restringia aos críticos. “Mesmo no meio artístico, ele não era unanimidade. A crítica espelhava o que a galera de uma MPB mais intelectualizada pensava”, diz.

Com o distanciamento do “contexto social e político”, Barcinski acredita que o tempo tratou de dar o devido aval à obra de Olivetti. “Ele trouxe uma música muito moderna, antenada e pop e cometeu o ‘pecado’ de fazer muito sucesso, o que causou ciumeiras”, finaliza.

Compositor. Lincoln Olivetti também é o autor de músicas que foram gravadas por Xuxa, Roberto Carlos, Fafá de Belém, Sandra de Sá e Chitãozinho & Xororó.

Músico não dava entrevistas

Autor de “Pavões Misteriosos: a Explosão da Música Pop no Brasil (1974-1983)”, André Barcinski foi um dos poucos jornalistas que conseguiu a proeza de entrevistar Lincoln Olivetti. “Ele sempre teve uma relação péssima com a imprensa. Era muito arredio, acredito que pelas pancadas que tomou e que, em determinado momento, além de injustas se tornaram rancorosas”, avalia o jornalista.

Depois de 14 meses, Barcinski convenceu Olivetti a falar com ele, mas sob duas condições: por telefone e durante no máximo 15 minutos. “Ele foi o cara mais recluso que eu já entrevistei no Brasil”, admite. Conhecido por suas excentricidades, o músico só gravava de madrugada e, mesmo dentro do estúdio, não largava os óculos escuros. A mania rendeu a Olivetti o apelido de “morcegão”.

Com os parceiros, justificava: “Quanto mais se vê, menos se ouve”. Essa visão privilegiada sobre o ofício foi o que encantou músicos de uma nova geração, como Kassin e Donatinho. “Impossível ouvir uma canção que tenha a produção e os arranjos do Lincoln e não identificá-lo na hora. Ele criou uma estética que se tornou uma assinatura”, exalta Donatinho, que acompanhou Olivetti em alguns shows.

“Sempre fui muito fã da sonoridade dele”, completa o herdeiro de João Donato. Barcinski é outro admirador confesso. “Acho que a forma como ele usava os metais e a pressão que isso imprimia nos arranjos é o que trazia essa sonoridade única, que tinha a ver com uma influência funk-pop do final dos anos 70 e começo dos 80”, observa o crítico musical.

Em 1973, Olivetti viajou para os Estados Unidos, onde adquiriu teclados e sintetizadores que só existiam no exterior. De volta ao Brasil, gravou em 1982 seu único disco na condição de protagonista. Ainda assim, dividia o trabalho com o amigo e parceiro Robson Jorge. “Esse é um LP de jazz e soul brasileiro que é moderno até hoje, com músicas excelentes”, diz Barcinski.

Top 5 de Lincoln Olivetti, pelo jornalista André Barcinski

Em 1978, o músico foi chamado a assumir os arranjos do álbum, logo após Tim Maia discutir com o uruguaio Miguel Cidras



Além de arranjar o LP lançado por Rita Lee em 1980, que trazia “Lança Perfume” e “Baila Comigo”, Olivetti tocou piano e teclados



“Fantasia”, lançado por Gal Costa em 1981, trazia “Festa do Interior” e “Meu Bem, Meu Mal”, com os arranjos e teclados de Olivetti



Com o amigo Robson Jorge, Olivetti lançou o único disco de sua carreira, compondo e tocando, no ano de 1982



“Estou Livre”, composta por Olivetti, Robson Jorge e Tony Bizarro deu nome ao LP do cantor de soul, lançado em 1983

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