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Cinema

Por trás da cortina de fumaça

‘Legalize Já – A Amizade Nunca Morre’ narra o encontro de Marcelo D2 e Skunk, criadores da banda Planet Hemp

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Dupla da pesada. Renato Góes e Ícaro Silva interpretam Marcelo D2 e Skunk na cinebiografia que fala dos primórdios do Planet Hemp
PUBLICADO EM 18/10/18 - 03h00

Apesar de marcado por violência mais social do que policial, o encontro entre os vendedores ambulantes Marcelo e Skunk, no início da década de 90, não poderia ser mais iluminado. Nas ruas do Rio de Janeiro, o primeiro foge de uma batida policial que lhe custou sua mercadoria: camisetas de bandas como Sepultura, Dead Kennedys, AC/DC e Beastie Boys. Já o segundo corre da polícia após sofrer preconceito racial e ser acusado falsamente de traficar drogas. A única mercadoria que tem em posse, no entanto, é uma coletânea de fitas cassete que grava e vende aos seus clientes. Tem trilha sonora para todas as ocasiões, de balada a romance, mas sempre com uma pegada de rock, de rap, de hip-hop.

O sonho de ambos é sair da miséria sem se entregar ao sistema, que escraviza. A forma de protesto de Marcelo é sua caneta e seu caderno. Skunk, por sua vez, acredita que a música é o caminho da conscientização social. E foi o sonho e a música que uniram os dois, até então desconhecidos, em uma jornada de amizade e também de decepções. Dessa união surgiu o Planet Hemp, uma das bandas mais influentes de uma década em que a música brasileira sofria uma estagnação em meio à confusão no cenário político.

“Legalize Já: A Amizade Nunca Morre”, de Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, que estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas, conta a história do encontro desses dois garotos e, antes de qualquer outra coisa, vale dizer que, mesmo que você não seja fã do Planet Hemp, o filme provavelmente vai te conquistar. De cara, um diálogo recheado de palavrões entre um rapaz imaturo e sua namorada desesperada pode assustar o espectador, mas, aos poucos, nas quase duas horas que se seguem, o rapaz vai amadurecendo e a garota suaviza seu tom. A tensão da cena se dissipa com o início da arte e, principalmente, da esperança que cerca os personagens e está escancarada na figura de Skunk, essencial para o surgimento do artista Marcelo D2. O filme é uma homenagem de Marcelo ao amigo que morreu em 1994, em decorrência do vírus da Aids.

O início de tudo

Ao som de Cypress Hill, Dead Kennedys e até de Lionel Richie, sem contar do Planet Hemp (claro!), a trajetória de Marcelo (interpretado por Renato Góes) e Skunk (vivido por Ícaro Silva) alterna momentos de tensão e diversão, amor e desilusão. Enquanto Marcelo lida com a falta de dinheiro aliada à gravidez da namorada, Sônia (Marina Provenzzano), e à pressão do pai (Stepan Nercessian) para sair de casa, Skunk enfrenta as consequências da decisão de não tomar seus remédios para controle do HIV. No esbarrão que marca o encontro dos dois, Skunk encontra os cadernos com os escritos de Marcelo e percebe que aquilo é música. Inspirado nos rappers norte-americanos, Skunk insiste para que o novo amigo cante suas letras. Em um quarto com equipamento de som improvisado, Skunk faz seus arranjos, e Marcelo libera a energia de uma voz recém-descoberta.

É Skunk quem batalha para colocar a banda para tocar na rádio Fluminense e em palcos como do Garage, importantes no cenário underground carioca. É ele também quem renova sempre as esperanças de Marcelo, que, na ânsia por conseguir dinheiro para sustentar um bebê, rende-se por vezes ao sistema em detrimento do sonho.

Embora tenha temática pesada, o filme traz momentos de descontração e, em muitos deles, é impossível segurar o riso. O argentino Ernesto Alterio, na pele de Brennand, o amigo de Skunk que o ajuda nos momentos mais difíceis de sua vida, dá graça à trama, com monólogos de “guru”, e exerce a função de pai dos dois jovens carentes. Há piadas em relação ao momento musical do país, pois enquanto vivíamos a era Collor, com a economia frágil e a desigualdade social subindo a largos passos, o que se ouvia no rádio e se via na TV eram músicas como “Na Boquinha da Garrafa” e “Pimpolho”. Boa é a cena em que Marcelo, numa loja de eletrodomésticos, reflete sobre sua vida enquanto vê na tela de um televisor uma dançarina descendo na boquinha da garrafa.

“Legalize Já: A Amizade Nunca Morre” é um filme que retrata a realidade brasileira e, apesar de ambientado nos anos 90, não poderia ser mais atual. Ele leva o espectador à reflexão, mas o impede de abandonar a esperança de construir um futuro melhor. Como diria Skunk, o caminho é a música. E a trilha sonora do filme é de arrasar!

 

Hits da banda ganham a voz dos atores

Indispensável a muitos filmes ambientados no Rio, aquela vista aérea do mar com o Corcovado não chega nem perto de “Legalize Já”, que mostra o concreto do centro da cidade, à noite, sem o glamour da boemia. Nesse ambiente, a música não poderia deixar de ser um grito de protesto. Ao som de “Insane in the Brain”, de Cypress Hill, ou de “Holiday in Cambodia”, dos Dead Kennedys, o jovem Marcelo escrevia palavras em seu caderno que se tornariam hinos entoados em uníssono pelos jovens de uma geração que cresceu ao som de “Usuário”, primeiro álbum do Planet Hemp, lançado em 1995, seis meses depois da morte de Skunk.

O filme traz músicas do álbum cantadas pelos atores Renato Góes e Ícaro Silva, como “Legalize Já”, “Mantenha o Respeito” e “Phunky Buddha”. Para se preparar, Renato Góes montou uma banda e ensaiou as músicas do Planet Hemp por oito meses antes de começar as filmagens. Além da voz, o ator também emagreceu dez quilos e trabalhou como vendedor ambulante para compor melhor seu personagem.

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