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Toque feminino no humor

A comediante Cida Mendes protagoniza os monólogos "Concessa Tecendo Prosa" e "Concessa Pendura e Cai", na 34ª Campanha de Popularização

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Cida Mendes: 'Acho que o sexo feminino tem mais dificuldade em se colocar numa situação ridícula'
A comediante Cida Mendes protagoniza os monólogos "Concessa Tecendo Prosa" e "Concessa Pendura e Cai", na 34ª Campanha de Popularização
PUBLICADO EM 06/01/08 - 16h10

Muitas são as atrizes que têm em sua trajetória belas participações em montagens cômicas produzidas em Minas Gerais. Mas além de Gorete Milagres, já há alguns anos distante dos palcos locais, somente Cida Mendes é reconhecida pela alcunha de comediante. A atriz, criadora e protagonista da personagem Concessa, pode ser vista em cartaz nas peças "Concessa Tecendo Prosa" e "Concessa Pendura e Cai", pela programação da 34ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Personagem que recupera a memória das mulheres do interior, com toda sua sabedoria e capacidade de distribuir afeto, Concessa completa dez anos de existência, fato comemorado pela atriz que, em entrevista ao Magazine, afirma que criar comédias vai muito além de apenas fazer as pessoas rirem.

O TEMPO - Em Belo Horizonte, temos muitas atrizes que fazem comédia, mas apenas você é reconhecida pela alcunha de comediante. Por que razão você acha que isso acontece?

Cida Mendes - Talvez pelo fato de eu ser também a autora da minha personagem. As outras atrizes que fazem comédia na cidade, que aliás são muito boas, como a Andréa Garavello, às vezes são dirigidas demais, entram apenas com o trabalho de ator e não de criador. E o ofício do comediante no meu entendimento é mais amplo. O que eu tento fazer e que acaba me levando a essa alcunha de comediante é a autoria, o fato de eu estar fazendo sempre uma leitura da atualidade através da personagem que eu mesma criei. A Concessa já falou até de caos aéreo.

Como você foi fisgada pelo mundo da comédia?

Depois que você descobre essa capacidade, só se for muito besta de não aprofundar. É um dom, mas que dá trabalho. Tudo começou mesmo com o Prêmio Multishow do Bom Humor Brasileiro, um concurso nacional realizado em 1997, com 186 comediantes inscritos. E eu acabei ganhando na final, o que virou uma espécie de chancela para o meu trabalho. Neste prêmio já começou essa história de eu ser uma das poucas mulheres comediantes e isso já me rendeu um olhar específico.

O Brasil é um país de grandes comediantes homens: Oscarito, Grande Otelo, Mazzaropi. São raros os nomes de mulheres no universo da comédia. Nesse sentido, quem te inspira?

Na minha infância foi o Mazzaropi. Eu estava em Pará de Minas, onde nasci, e aguardava ansiosamente os filmes chegarem. Já na minha adolescência, quando comecei a soltar minhas próprias palhaçadas e mostrar minha veia cômica, quem me chamava atenção era a Regina Casé, no "TV Pirata". E olha que ela seguiu por trilhas muito diferentes do meu caminho, ela não cria personagens-tipo. Ela é apenas ela mesma, mas faz um humor muito útil e acho muito legal não desperdiçar esse talento da comédia para humilhar os outros, reforçar estereótipos. Se for fazer comédia dessa forma, é melhor não fazer.

Você já parou para pensar por que tão poucas mulheres são referência quando o assunto é comédia?

Não tenho uma única resposta. Mas tem essa coisa de que mulher tem medo de ficar feia. O homem engraçado é interessante, conquista qualquer mulher. Agora vai tentar o contrário, uma mulher feia não conquista ninguém só pelo seu bom humor. Acho que o sexo feminino tem mais dificuldade em se colocar numa situação ridícula.

São quase dez anos na pele da Concessa. Como você lida com a necessidade de renovar a personagem e com os estigmas que podem existir pelo fato de fazer o mesmo tipo há tantos anos?

Já ouvi muitas vezes dizerem ‘você só faz a Concessa’ e eu ficava bastante incomodada com isso, me cobrando. Mas depois eu mesma pensava que Chaplin, por exemplo, fez o mesmo personagem o tempo inteiro; Mazzaropi também. E cheguei à conclusão que posso fazer a Concessa a vida inteira desde que eu consiga falar o que eu preciso através dela, afinal, o que a gente quer é um canal de comunicação com o público e, se o meu for ela, para mim está ótimo. O que eu acho ruim disso é que para os outros a sensação que passa é que talvez eu não seja capaz de fazer outros trabalhos, mas eu não estou engessada.

As pessoas têm o hábito de ligar o trabalho do comediante mais à intuição do que à técnica: a idéia de que o humorista já é engraçado por natureza. Como esses dois elementos convivem no seu trabalho?

É a técnica que segura o trabalho quando eu não estou bem, por exemplo. Talvez, pelo meu trabalho ser um monólogo, presto muita atenção na platéia, que é com quem divido a cena. Tenho que estar muito presente, concentrada, ouvindo o comentário do público, e isso requer técnica. Eu também não gosto de ficar fazendo um monte de coisas entes de entrar em cena e estou ficando, com o passar do tempo, mais aborrecida e exigente comigo mesma. E também, por fazer um solo, não tenho com quem dividir o camarim, já me acostumei a ficar sozinha, faço minhas orações na hora de entrar e não desvio em nada minha atenção.

Como você dialoga com a cena mineira, com os outros atores e diretores?

Pelo fato do trabalho da Concessa me absorver muito, inclusive com viagens, eu não circulo muito pela cena mineira, fico com os parceiros atuais, a Iolene de Freitas vem e dirige, o John Ulhôa faz a trilha e, na hora que a peça cai no palco, sou eu e Consuelo, minha produtora. Para se ter uma idéia, conheço os meninos do Galpão de encontrar nos festivais. Mas lido com isso de forma tranqüila, até porque não vou me aposentar tão cedo e vou ter, se Deus quiser, mais 50 anos pela frente e poderei ter muitos encontros.

Como nasceu a personagem Concessa?

De onde veio a inspiração? Acho que a minha primeira matriz é minha mãe, uma Concessinha que já morreu há mais de 20 anos. E ela tinha as amigas dela, as Marias, que eu, filha caçula, sempre acompanhei de perto. Eu chegava em casa imitando as pessoas, falava que uma andava assim, a outra falava de um jeito. Mãe morria de rir do fato de eu chegar da reza imitando as amigas dela. Anos depois, montei um restaurante em Pará de Minas e comecei a fazer teatro lá, para brincar um pouco porque a minha vida estava muito séria atrás do balcão. E o primeiro esquete que eu fiz foi a vovó da Chapeuzinho Vermelho meio às avessas. Já usei esses elementos das amigas da minha mãe para essa vovozinha, essa coisa de gostar de um biscoitinho e ser muito afetiva. E quando percebi que eu queria fazer um texto mesmo, fui atrás dessas mulheres que poderiam ser minha fonte. E alguém me indicou uma mulher que criava frango no quintal de casa, de nome Concessa, fui conhecê- la e somos amigas até hoje. Eu não queria essa coisa de ficar representando uma caipira besta, eu estava atrás mesmo é das espertas, das mulheres que fazem muito com pouco, que dão conta de um fardo, geralmente, com pouco dinheiro e muita sabedoria.

Criar um tipo não é tarefa fácil, devido ao fato da facilidade de cair em um estereótipo. Como você lidou com isso?

Adoram representar as mulheres na comédia ou como tontas ou frustradas. E o que me deixa triste é que, muitas vezes, as peças são escritas por mulheres. Esses programas de humor que estão há anos na TV têm as gostosas, que ficam exibindo o corpo, e os diretores colocam as comediantes como mulheres feias, traídas e frustradas, que não podem ser felizes. Para que fazer humor desse jeito? Acho que é por isso que o povo é tão afetivo com a Concessa. Eu fiz dois anos de "Escolinha do Barulho", na Record, e isso era ponto de discussão nos textos. Uma vez eles queriam que eu abrisse a cena com o olho roxo, e o personagem do Tom Cavalcante ia me perguntar o que era aquilo e eu teria que dizer que o Vicente (marido da Concessa) tinha me dado um murro. E eu me recusei a gravar, podia ser a maior piada do mundo, mas que não cabia na relação que o Vicente tem com a Concessa.

Para você, o que faz com que uma comédia seja boa, além do fato de fazer as pessoas rirem?

Emoção, sobretudo. E isso quer dizer um tanto de coisa. Fazer rir é o óbvio, mas tem coisa mais emocionante que um trabalho de clown no qual ninguém fala nada e a gente sai completamente tocado? As comédias, em sua maioria, se contentam com o mínimo, que é fazer rir. E tem muita coisa ali atrás das montanhas do riso. Mas, na Campanha de Popularização, por exemplo, acho que o público tem que saber escolher. Acho que é igual Hollywood: tem aquela quantidade de filmes, muita porcaria, mas, de vez em quando, a gente consegue assistir os "Crash" da vida.

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