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Trágica exposição do self(ie)

Vencedor de três Kikitos em Gramado, incluindo melhor filme, 'Ferrugem' aborda o cyberbullying entre adolescentes

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Virtual. Giovanni de Lorenzi (esq.) e Tiffany Dopke vivem casal de protagonistas afetados pelo vazamento online de um vídeo íntimo
PUBLICADO EM 30/08/18 - 03h00

Assim como “Para Minha Amada Morta”, longa anterior do diretor baiano Aly Muritiba, “Ferrugem” tem como ponto de partida um vídeo produzido por uma mulher, que é visto por quem não devia. E isso não é coincidência. “Eles fazem parte de uma trilogia, que relaciona o registro em vídeo ao desejo feminino contemporâneo, e como ele está deixando alguns homens completamente fragilizados, sem saber lidar com certas formas de afeto, e que vai terminar com meu próximo longa, ‘Deserto Particular’”, reconhece o cineasta.

É uma pena, porém, que “Ferrugem”, que estreia nesta quinta-feira (30), não elabore esses temas com a mesma desenvoltura de seu antecessor. Vencedora do Kikito de melhor filme em Gramado, a produção toca em várias questões importantes e muito atuais, como o cyberbullying, mas nunca consegue se aprofundar nelas, limitada por um visual e uma mise-en-scène mais engessados que o de “Amada Morta”.

O longa segue os desdobramentos do vazamento de um vídeo íntimo da adolescente Tati (Tiffany Dopke) com o ex-namorado no grupo de WhatsApp do colégio. Dividido em duas partes, “Ferrugem” segue a garota na primeira, e seu novo ficante, Renet (Giovanni de Lorenzi), na segunda.

O filme cria uma identidade visual bem definida para cada uma dessas partes. A primeira é mais online, com cortes na velocidade rápida da internet, e muitos closes fechados, como uma câmera de celular, representando a obsessão da juventude pelas selfies e aumentando a angústia claustrofóbica de Tati. Já a segunda é offline, com planos mais abertos e contemplativos, e o tom reflexivo e lúgubre de uma casa de praia na chuva.

O problema é que essas partes são, respectivamente, sobre vergonha e culpa. E ao reproduzir a incomunicabilidade e a imaturidade emocional adolescente, numa tentativa de se dialogar com esse público, o roteiro nunca destrincha e se aprofunda nesses dois temas, nem na discussão de masculinidade tóxica que propõe – processando os acontecimentos da trama com a mesma complexidade de elaboração de seus jovens protagonistas.

“Ferrugem” é um filme de diálogos que não acontecem e, consequentemente, temas que não se desenvolvem. Muito do sofrimento e do conflito dos dois protagonistas, que sofrem bullying virtual, é internalizado, mas sem muitas formas mais criativas de expressar isso, os jovens Tiffany e Giovanni ficam presos a uma carranca constante e monolítica. E a linguagem da câmera do diretor de fotografia Rui Poças – dura, fixa e pouco fluida – é um reflexo disso.

O elemento em que o longa consegue ir mais além do óbvio é na relação dos protagonistas com os pais. Ao mesmo tempo em que retrata o natural isolamento e incomunicabilidade dos filhos nessa fase da vida, o filme mostra também como nossas maiores falhas – o machismo, a raiva e a insegurança – são quase sempre heranças de criação.

Isso fica muito claro na crise dos pais de Renet – Davi (Enrique Diaz) e Raquel (Clarissa Kiste) –,cujo divórcio contencioso gera a melhor cena do filme, num longo plano-sequência em um carro. E na ausência, literal e fílmica, dos pais de Tati. “A casa dela é toda linda, organizada, clean, mas o quarto é caótico, como se os pais nunca entrassem ali. E para expressar essa ausência, fiz uma escolha simples de tirá-los da tela”, explica Muritiba.

No fim, “Ferrugem” coloca na tela questões necessárias. E mesmo que não se aprofunde, trata o tema e seus personagens com honestidade e realismo. A escolha de focar mais na redenção de culpados que na superação das vítimas é polêmica e pode gerar discussões acaloradas. Mas se gerar essas discussões, já vai ter valido a pena.

Oscar. “Ferrugem” está na disputa pela vaga brasileira no Oscar de filme estrangeiro, ao lado de outras 21 produções.

CineBH. O filme, que entra em circuito nesta quinta-feira, também será exibido na CineBH, no sábado, às 20h30, no MIS Cine Santa Tereza.

Projetos. Aly Muritiba prepara três outros longas, além de “Deserto Particular”: a cinebiografia do rapper Emicida e duas adaptações de obras dos autores Daniel Galera e Lourenço Mutarelli.

 

Filmes nacionais debatem ataques

São Paulo. Quando o assunto é cyberbullying, o Brasil está quase no topo. É o segundo colocado na frequência de agressões pela internet, indica um levantamento recente do instituto Ipsos em 28 países. O assunto, que é debatido no filme “Ferrugem”, também está presente em outro filme nacional que estreia nesta quinta-feira, “Yonlu”, do diretor gaúcho Hique Montanari.

No longa, que também foi exibido no Festival de Gramado, um rapaz de 16 anos sofre de uma depressão severa e decide se matar, sob o incentivo de internautas anônimos que participam de um fórum de discussão formado por potenciais suicidas. O longa é inspirado na história de Vinicius Gageiro Marques, músico de pseudônimo Yonlu no mundo virtual.

O objetivo do diretor é refletir sobre o uso indiscriminado da internet. “As pessoas sabem da responsabilidade em relação ao que estão postando?”, questiona. Para Montanari, “Yonlu” é, sobretudo, um filme sobre a vida. “Catapultamos essa história para valorizar a vida”, finaliza o diretor.

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