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Um corpo político e musical 

Com suingue, voz potente e discurso afiado, cantor e compositor Liniker Barros, 20, conquista o Brasil

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Liniker
Liniker já prepara seu primeiro álbum cheio, "Remonta", que tem lançamento previsto para 2016
PUBLICADO EM 09/12/15 - 04h00

“Cara, estou fascinado com a sua voz, com a sua presença. Você vai longe, tenho certeza. É só o começo!”, ouço uma voz dizer ao telefone, enquanto espero o entrevistado se dirigir a mim. “Desculpa”, responde Liniker, logo depois de agradecer seu interlocutor. “Fãs?”, pergunto. “Sim. Agora, quando estou em São Paulo, tem sido sempre assim. Ainda bem”, diverte-se o cantor e compositor, de apenas 20 anos.

Natural de Araraquara, Liniker Barros estourou ao soltar, no YouTube, em outubro, vídeos das três canções de seu primeiro EP, “Cru”. Ora rouca e grave, ora limpa e aguda, a potente voz do artista formata uma black music contemporânea e brasileira, recheada de elementos pop. Mais que isso, as canções “Zero”, “Louise du Brésil” e “Caeu” – que, juntas, já somam quase um milhão de visualizações – explanam a singularidade estética de Liniker, capaz de hipnotizar o espectador.

É que, além da potência vocal, salta aos olhos o visual de Liniker. Nos vídeos de “Cru”, o artista aparece de turbante, batom, brincos, saia e bigode – levantando o debate sobre a identidade de gênero. “Aquele é o jeito que eu me visto, como eu ando nas ruas. Estou me colocando da forma como me sinto à vontade, e a sociedade precisa respeitar isso”, afirma.

O artista afirma que o visual andrógino faz parte de suas descobertas. “De dois anos para cá, tenho me questionado muito. Ainda não sei se sou a Liniker ou o Liniker. Não sei se sou homem, mulher, trans, não binário. E acho importante me colocar nesse debate sobre gênero assim, sem saber o que sou. Sei que sou um corpo livre, que pode ser empoderado e trazer suas questões para o trabalho artístico. Se nós não entendermos a força que temos, não tem como potencializar esses debates tão urgentes”, crava.

Além de um “corpo livre”, Liniker sempre reitera que, também, é um “corpo político”. “Falo isso pois não sou só um artista que canta. Meu trabalho vai além disso. Sou um corpo que se coloca por inteiro, não apenas musicalmente”, afirma. “Sou Liniker, negro, pobre e gay, tenho 20 anos e vou contar a história da minha família, das minhas raízes e da minha ancestralidade. Não é por isso que não posso me colocar enquanto artista, pelo contrário. Tenho potência e muita força para me movimentar”, completa.

O artista afirma que o discurso de representatividade é importante em tempos de manifestações de ódio. “Vejo essas bancadas conservadoras e fico tão chateado. Mano, o que te faz diferenciar uma pessoa gay de uma evangélica? Porque a gente não se une e faz uma potência única para lutar por um mundo melhor? Ao invés disso, preferem ficar tentando definir o que é a real família brasileira. Não me conformo que, em 2015, ainda precisamos passar por isso para ser alguém”, critica.

“Aí, entra mais uma vez o corpo político. Serve para verem que sou gay, negro e estou trabalhando. Que sou artista e me coloco como igual, sem me inferiorizar”, assinala.

Liniker vem de uma família de músicos. “Nasci em meio ao fazer artístico e comecei a cantar e a compor aos 15 anos, por influência dos meus tios, que são sambistas e compositores”, conta o artista, que tem na mãe, Ângela Barros, uma de suas principais referências. “Minha mãe é uma pessoa incrível. Mãe solteira, com dois filhos. Criou a gente de forma muito humilde, mas com muita riqueza enquanto essência e conteúdo cultural. Ela é dançarina, foi professora de samba rock. É da escola de samba de Araraquara e sempre participou do Baile do Carmo, feito pela comunidade negra da cidade”, afirma o artista, primogênito da família.

Liniker ressalta que, além da influência artística, sua mãe sempre foi o grande apoio de sua carreira. “Conviver com a minha mãe é como mergulhar num poço de sabedoria, sabe? Ela é uma referência muito viva para mim, das pessoas que mais me inspiram. Sempre me apoiou, me disse para não ficar na barra da saia dela, para acreditar e correr atrás dos meus sonhos”, pontua.

E onde Liniker quer chegar? “Quero continuar fazendo música, mobilizando as pessoas, trazendo gente para perto de mim. Pegar essa oportunidade que estou recebendo e trabalhar e trabalhar”, diz o artista.

"Está vindo como um chute no peito"

Liniker Barros, 20, acredita que ser de uma família de músicos e ter uma mãe que é, ao mesmo, uma musa inspiradora e um porto seguro para suas expressões artísticas, foram fundamentais para sua formação. Mas ele também dá crédito a sua cidade natal. “Araraquara é a ‘morada do sol’, como dizem. Tem uma energia muito vibrante, de muito movimento”, afirma ele, lembrando que Araraquara já deu ao país um dos nomes mais importantes e transgressores da cultura brasileira, Zé Celso Martinez Corrêa, fundador do teatro Oficina, e de seu irmão, o também ator, diretor e cenógrafo Luiz Antonio Martinez Corrêa (1950-1987).

“Araraquara é um solo muito fértil, de gente interessada em fazer arte, em se apropriar da cultura local”, afirma Liniker. Atualmente, o artista vive em Santo André, na região metropolitana de São Paulo, para onde se mudou em 2014 para cursar a Escola Livre de Teatro.

Antes de estourar com as canções de “Cru” – cujas três músicas, “Louise de Brésil”, “Zero” e “Caeu”, postadas no YouTube já contabilizam cerca de um milhão de visualizações –, Liniker já havia publicado vídeos de alguns covers, em voz e violão, no You Tube. “Minha primeira imersão artística foi com essas versões. A maioria era em inglês, músicas de cantoras como Alicia Keys e Adele, que eu ouvia muito na época. Mas, agora, com minhas próprias composições, me sinto mais próximo da música”, sublinha Liniker – nome inspirado em Gary Lineker, o jogador de futebol britânico que brilhou na Copa do Mundo de 1994.

O artista foi embalado, desde cedo, pela música negra. “Minha família sempre ouviu black music e samba rock. Eram os sons que, quando tocavam, eu começava a requebrar como uma louca no quintal. Me levam para um estado de movimento e alegria muito intenso, e quis trazer essas raízes para o meu trabalho”, diz o artista. Suas maiores referências passam por Paula Lima, Clube do Balanço, Etta James, Nina Simone e Earth, Wind & Fire. “Também escuto muito rap e pop nacional, e curto bastante a nova cena musical brasileira”, completa, citando a banda paulistana Aláfia.

Liniker Barros se diz entusiasmado pelo sucesso do EP “Cru” – um aperitivo para seu primeiro disco cheio, “Remonta”, previsto para o primeiro semestre do ano que vem. “Lançamos o EP em outubro e a resposta foi imediata. Eu não tinha dimensão da potência da internet”, afirma. “Muita gente se sentiu tocada pelo projeto, e eu acho incrível quando vêm me dar esse retorno. Acredito muito no artista que não se torna intocável. Tento ser o mais próximo possível, para receber todo esse carinho. É assim que a gente percebe que as pessoas estão gostando, que está dando certo. E isso é muito emocionante”, diz, aguçando a expectativa dos fãs quanto ao disco.

“Ele está vindo super pesado, como um chute no peito. Fala de uma forma rasgada de relações de amor viscerais e intensas. De relações que tive e que precisava botar para fora”. Uma turnê pelo Brasil – e dizem até para o exterior – já estaria nos planos do artista. E Belo Horizonte estaria na rota. “Não vejo a hora de botar vocês para dançar”, finaliza.

 

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