Recuperar Senha
Fechar
Entrar

7º Olhar de Cinema

Uma resposta ao masculino tóxico

Dobradinha do croata “Homens que Jogam” e do nacional “Sol Alegria” apresenta melhor momento da competitiva até agora

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
Documentário croata “Homens que Jogam”
Documentário croata “Homens que Jogam”
PUBLICADO EM 13/06/18 - 13h37

Mais que selecionar produções, curadores constroem narrativas – uma história – ao montar a programação de um festival. E um dos melhores exemplos disso no 7º Olhar de Cinema de Curitiba aconteceu na noite de domingo, quando a dobradinha do documentário croata “Homens que Jogam”, seguida da ficção paraibana “Sol Alegria”, apresentou os melhores candidatos da competitiva até agora – e criou um interessante diálogo entre os dois.

Dirigido por Matjaz Ivanisin, “Homens que Jogam” retrata uma série de jogos bizarros praticados exclusivamente por homens em diferentes países europeus. Mais do que explicar as regras ou fazer o espectador entender o funcionamento de cada um, porém, o que o filme deseja é revelar de forma cômica e afetuosa esses estranhos “esportes” como exemplos de uma certa masculinidade performativa.

Usando um termo que se popularizou nas redes sociais, o documentário mostra “homi sendo homi”: a cultura tóxica de que, para grande maioria dos homens heterossexuais, ser homem implica necessariamente encenar e afirmar uma ideia de “macheza”. Isso se reflete na luta homoerótica que abre o documentário, na estranha disputa italiana de lançamento de queijo e, especialmente, no hilário jogo em que homens gritam números e insultos uns para os outros.

É na melancolia da sequência em que seu pai descreve ponto a ponto uma partida de tênis, contudo, que o diretor parece se dar conta de quão ultrapassada é essa ideia de masculinidade. Nela, Matjaz admite a própria crise existencial que teve ao fazer o filme – a crise atual da masculinidade tóxica – encaminhando para um final genial que deixa claro como essa necessidade de autoafirmação é a semente dos sentimentos de identidade e nacionalismos exacerbados responsáveis por todas as guerras da história.

E “Sol Alegria”, do paraibano Tavinho Teixeira, é uma espécie de resposta a essa crise. Libelo anarquista pansexual e antifascista, o longa segue uma família brasileira vivendo em um 2018 distópico que, após assassinar um pastor de extrema direita candidato à presidência (ou seja, nada a ver com o Brasil atual), refugia-se num convento de falsas freiras plantadoras de maconha, planejando sua fuga para a utópica aldeia Sol Alegria do título.

Em “Sol”, o cineasta trabalha no mesmo registro anárquico, debochado e recheado de referências de “Batguano”, seu longa anterior, mas consegue construir um todo bem mais coerente e dramaturgicamente potente. O filme começa com uma homenagem clara ao “Querelle” de R.W. Fassbinder, e depois segue para uma trama que mistura ficção científica lo-fi ao cinema marginal dos anos 70, atravessada por um discurso antirreligioso surreal buñueliano, uma sexualidade queer que lembra Pasolini e termina em duas sequências que atualizam “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues, e “Bang Bang”, de Andrea Tonacci, para o Brasil atual – culminando numa performance apoteótica de Ney Matogrosso como um toureiro poeta.

Com a ajuda da ótima direção de arte de Thales Junqueira (“Aquarius”) e da bela fotografia de Ivo Lopes Araújo, a produção referencia todos esses clássicos, porém, com um olhar profundamente contemporâneo. A co-direção da atriz Mariah Teixeira (que, assim como Tavinho, também está no elenco) evita o olhar machista típico desses filmes nos anos 70 e confere uma sensibilidade queer e libertária à sexualidade do longa – reforçada pela morte do Batman e do toureiro, ícones do masculino tóxico, no final.

Mas é no uso de recursos como o back-projection e a quebra metalinguística da quarta parede, em que “Sol Alegria” escancara sua total consciência de ser um filme, que os realizadores parecem deixar claro seu diagnóstico: no atual estado do mundo, a única utopia possível é o cinema.

*O repórter viajou a convite do 7º Olhar de Cinema

O que achou deste artigo?
Fechar

7º Olhar de Cinema

Uma resposta ao masculino tóxico
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório
Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter