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Visões sobre um rapaz latino

Belchior é tema de três documentários com abordagens distintas acerca da vida do cantor e compositor cearense

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Triplo. Antonio Carlos Belchior é alvo de produções carioca, paulista e gaúcha, que desvendam os diferentes caminhos de sua trajetória
PUBLICADO EM 11/02/19 - 03h00

Quando o cantor e compositor Belchior (1946-2017) morreu, no dia 30 de abril de 2017, vários veículos respeitáveis de imprensa cometeram um equívoco imperdoável. A gafe, no entanto, fora provocada pelo próprio artista. Para tirar um sarro com jornalistas, Belchior costumava dizer que se chamava Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, a fim de comprovar que era, de fato, o “maior nome da MPB”.

Na certidão de nascimento, no entanto, ele era apenas Antônio Carlos Belchior, três nomes próprios que, juntos, formavam um só. Ironicamente também é triplo o número de documentários em curso que pretende se debruçar sobre a personalidade múltipla do autor de clássicos do cancioneiro nacional, como “Paralelas” (gravada por Vanusa), “Como Nossos Pais” (eternizada por Elis Regina) e “Mucuripe” (parceria com Fagner).

Mais do que uma personagem famosa e pop, que voltou a ganhar notoriedade nos últimos tempos graças a excêntricos episódios de fugas e desaparecimentos, a quantidade de iniciativas audiovisuais revela a gama de abordagens possíveis acerca da vida e obra de Belchior. “Ele era um artista marcado pela originalidade, que nunca seguiu moda e sempre se reinventou, com letras muito fortes sobre a geração dos anos 70”, destaca Paulo Henrique Fontenelle, diretor de documentários sobre Arnaldo Baptista e Cássia Eller (1962-2001) e que será responsável pelo roteiro da produção carioca “Belchior: Amar e Mudar as Coisas”.

Segundo Fontenelle, a narrativa do longa deve se pautar “pela emoção, no lugar de uma coisa mais clássica”. Ele embasa a escolha em uma experiência vivida na infância, quando escutou, pela primeira vez, a canção “Apenas um Rapaz Latino-americano”. “Eu era muito criança, mas me chamou muita atenção a forma como ele usava a métrica e a melodia, achei estranho na época, e aquilo me ficou na cabeça”, relembra.

O mesmo estranhamento foi provocado em Marcus Fernando, mas com outra canção, no caso “Medo de Avião”, que ele ouviu Belchior cantar pela TV, no programa de Silvio Santos. “Essa música pertence à minha memória afetiva, lembro que achei estranho e originalíssimo o jeito de ele falar sobre uma relação romântica a partir do medo de avião”, observa. Diretor e roteirista de “Torquato Neto: Todas as Horas do Fim”, Fernando resolveu se aventurar em “Belchior: Coração Selvagem”, cujo título permanece provisório.

O convite partiu da estudante mineira Juliana Magalhães Antunes, de apenas 24 anos. Nascida em Pedra Azul e recém-formada em estudos literários pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Juliana logo convenceu o cineasta, que atualmente mora em São Paulo. “Ela me apresentou um argumento, já em formato de roteiro, que tinha uma poética muito forte, mostrando que Belchior continua falando para a geração atual”, sustenta Fernando.

“Belchior foi o primeiro contato com a arte da minha vida. Desde os seis anos eu mergulhei na sua poética e, ainda que não compreendesse tudo, achava aquele trabalho muito visceral”, completa Juliana. A ideia da dupla é dar conta de “uma narrativa abrangente e geral da carreira, mas com foco na poética”, afirma Fernando. “Mais importante do que a minúcia informativa, é a pessoa compreender quem foi Belchior, o que ele pensava e como isso desaguou sobre a obra”, complementa o diretor.

Ciente de que as razões para o exílio do músico no final da carreira continuarão “como um mistério”, ele observa que “entender não significa desvendar” o protagonista. “Vamos oferecer informações para que cada um tire suas próprias conclusões”, destaca Fernando, que pretende ouvir para seu documentário, além de familiares, parceiros importantes, casos de Fausto Nilo, Fagner, Amelinha, Ednardo, Fafá de Belém e Marcus Vinicius, produtor do primeiro LP de Belchior.

Surpresas

A prova de que o compositor cearense, nascido em Sobral, continua surpreendendo está numa recente descoberta de Fontenelle. “Eu achava que ele tinha composto ‘Comentário a Respeito de John’ em homenagem à morte do John Lennon (1940-1980), mas, na verdade, foi quando ele saiu dos Beatles, e o Belchior fez essa música para apoiá-lo”, diz Fontenelle. “Essa é uma canção que talvez traga pistas sobre as vontades que Belchior colocou em prática no fim da vida”, aposta o documentarista. “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida”, dizem os versos.

Foi em Santa Cruz do Sul, cidade gaúcha com 129 mil habitantes, que Belchior passou seus últimos dias. É esse período cercado por especulações que o diretor Diego Tafarel vai tratar em seu filme, ainda sem título definido. “Na década de 80, Belchior começou a vir para cá, trazido pelo MPA (Movimento de Pequenos Agricultores), e ficou muito amigo da Dulce Helfer e do radialista Dogival Duarte”, diz. Ambos serão fontes da empreitada. “O tom do filme vai ser de suspense, revelando os segredos que essas pessoas guardaram”, conclui Tafarel.

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