Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Música

Obra de um sambista surreal

Cantor Luiz Carlos da Vila tem o perfil traçado no livro 'Princípio do Infinito', de Luiz Antonio Simas e Diogo Cunha

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
Capturar.JPG
Capa. Livro tem ilustração feita pelo artista plástico Mello Menezes, que foi amigo do compositor e o desenhou num formato de coração
PUBLICADO EM 10/02/19 - 03h00

“Trinco de estranha fechadura”; “Cinco que não cabe na mão”; “Do arco-íris a oitava cor”; e finalmente em “Carvão e Giz”, a união do carnal com o inefável: “Fizeram amor num banco de jardim/ foi um chafariz de amor no centro/ a água fora e o bronze dentro”. Todas essas metáforas foram utilizadas pelo cantor e compositor carioca Luiz Carlos da Vila (1949-2008) na tentativa de expressar, dentre todos os sentimentos, aquele que é o mais popular: o amor. A forma não ficava atrás no quesito popularidade, já que essas poesias eram transmitidas por meio de letras de samba.

“Ele era um letrista extremamente original, sofisticado e rebuscado”, define Luiz Antonio Simas, autor – ao lado de Diogo Cunha –, de “Princípio do Infinito: Um Perfil de Luiz Carlos da Vila” (Numa Editora). O estilo rendeu ao compositor, leitor ávido de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), o epíteto de “Salvador Dalí do Samba”. Com humildade, ele dizia que “apenas traduzia as imagens para o papel”.

Embora fosse também melodista, Simas aponta que a maior contribuição de Luiz Carlos foi mesmo na questão do discurso. Paradoxalmente, esse fator novidade interferiu negativamente no reconhecimento da obra. “Ele viveu uma situação curiosa, porque para a turma mais tradicional do samba, o Luiz Carlos era muito MPB; e para a galera mais clássica da MPB, ele era muito sambista”, observa Simas, que diz considerar “essa divisão ultrapassada e absurda”.

Foi para colocar o músico no “lugar de centralidade na produção do samba do Rio que ele tem e merece”, que a dupla de autores tirou da gaveta o projeto do livro, e o levou, literalmente, para a rua. “A trajetória do Luiz Carlos da Vila é indissociável dessa cultura de rua do samba suburbano”, justifica Simas. Por conta disso, ele rejeita o termo “biografia”. “Não nos interessava a vida pessoal”, afirma, embora ela apareça na “simbiose entre homem e cidade”.

Com depoimentos “preciosos da família”, como dona Esmerilda, mãe de Luiz Carlos, que atualmente está com 90 anos, e do irmão Betinho, os autores optaram por um método diferente na hora de retirar confissões de amigos próximos, como o compositor Moacyr Luz e a cantora Dorina. “A Jane (viúva de Luiz Carlos) nos recebeu na casa dela, na Vila da Penha, e convidou os amigos para tomar cerveja e comer jiló. O livro tem essa dinâmica de papo de rua”, conta Simas.

Caminhos

A narrativa mistura, cronologicamente, a história dos bairros por onde passou com o crescimento do protagonista. O primeiro capítulo se situa em Ramos, onde Luiz Carlos nasceu. Na sequência, a Vila da Penha, palco da infância do sambista, é estudada. Por fim, a consagração em Vila Isabel, cuja escola de samba se sagrou campeã do Carnaval de 1988 com “Kizomba, a Festa da Raça”, samba de Luiz Carlos em parceria com Rodolpho de Souza e Jonas Rodrigues.

Aliás, a ligação com as duas “vilas” famosas rendeu ao compositor o nome artístico que ele carregaria até morrer, aos 59 anos, vítima de câncer no intestino. Já o batismo da publicação (“Princípio do Infinito”) foi pinçado de um samba feito com Cláudio Jorge e lançado em 2001, dos versos “é o bonde, é o trem, é o zero, é o cem, o silêncio e o grito”.

“O título é compatível com a intenção do livro. É a primeira iniciativa que busca situar a importância dele na historiografia da MPB, mas a obra não para, tem dimensões que não conseguimos alcançar”, sustenta Simas. O entrevistado ainda se refere ao cerne da produção do homenageado. “As letras dele não têm fim, numa primeira leitura você acha uma coisa, depois descobre outros sentidos”, conclui.

 

Desafiando padrões do samba

Acordeonista, jogador de futebol do Flamengo e torcedor da escola de samba Império Serrano. Quem receber essas informações, dificilmente as associará a Luiz Carlos da Vila. O próprio Luiz Antonio Simas, que acaba de lançar um livro sobre o sambista, admite que são “curiosidades pouco conhecidas”.

“Ele tinha uma formação musical que vinha de garoto. O primeiro instrumento que aprendeu a tocar foi o acordeom, com o método Mário Mascarenhas (apostila lançada pelo instrumentista nos anos 40)”, revela Simas. “Luiz Carlos estava longe daquela visão que considero até preconceituosa, do sambista intuitivo”, pontua o escritor e historiador.

As contradições do autor de “O Show Tem que Continuar” (com Arlindo Cruz e Sombrinha), e “Nas Veias do Brasil”, não paravam por aí. Torcedor do Botafogo, integrou o juvenil do Flamengo, e, apesar do “carinho pela Vila Isabel”, nunca deixou de ser “Império Serrano de coração”, informa Simas.

Percurso

Levado ao primeiro samba na Zona da Leopoldina, no Rio, por Carlão Elegante – tido por Simas como “um sambista importante e pouco mencionado” –, o compositor integrou a geração que transformou o Cacique de Ramos no principal espaço de renovação do samba no final da década de 70, ao lado de nomes como Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Almir Guineto.

Outra qualidade que Simas percebe ainda pouco valorizada é a do cantor. “Pouca gente se lembra disso, mas ele foi o melhor intérprete de si mesmo”, avalia. Com 13 discos na carreira, o sambista estreou em 1983, em álbum que trazia apenas o seu nome na capa.

Além disso, foi regravado por nomes referenciais do país. “A Beth Carvalho gravou muitas músicas dele e foi fundamental pela força na indústria fonográfica, mas a melhor intérprete feminina que ele teve, na minha opinião, foi a Dorina”, diz. Para Simas, a história de Luiz Carlos, cuja primeira canção de sucesso foi “O Sonho Não Acabou”, tem a muito a dizer sobre os dias atuais.

“Num momento em que a cultura, as pulsões e a pujança da rua estão sob a ameaça de um discurso moralista, tacanho e normativo no campo da segurança e do fundamentalismo religioso, é essencial redimensionar a herança dos descendentes de pessoas que foram escravizadas”, conclui.

“Luiz Carlos da Vila era fã do Candeia, principalmente pela inserção dele na cultura afro.”

Luiz Antonio Simas

Autor

 

Serviço

“Princípio do Infinito: Um Perfil de Luiz Carlos da Vila”

Autores: Luiz Antonio Simas e Diogo Cunha

Editora: Numa

Páginas: 144

Preço: R$ 30

O que achou deste artigo?
Fechar

Música

Obra de um sambista surreal
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório
Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter