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Diversão

Quando três mulheres desejam

Vencedor do Urso de Prata de melhor atriz em Berlim, e de seis Kikitos em Gramado, longa é ótima estreia do paraguaio Marcelo Martinessi

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Ana Brun venceu o Urso de Prata de melhor atriz, em sua estreia no cinema
PUBLICADO EM 29/08/18 - 15h59

De Hilda Hilst a Beyoncé, muitas mulheres escreveram sobre o desejo sexual feminino não como algo exótico, mas sim natural, sensual e tão poderoso quanto o masculino. E o maior mérito de “As Herdeiras” é que, mesmo escrito por um homem, ele adota essa mesma abordagem. Ainda que leve esse desejo para um lugar incomum, o da terceira idade, o cineasta paraguaio Marcelo Martinessi nunca trata sua história como algo cômico ou excêntrico – mas sim orgânico e realista, e esse é seu maior poder.

O longa, que estreia hoje, começa quando Chiquita (Margarita Irun) é obrigada a deixar sua esposa Chela (Ana Brun) e ir para a prisão por sonegação de impostos. As duas são as herdeiras do título, fósseis vivos de uma oligarquia decadente de Assunção, que nunca trabalharam, às voltas com o fim de seus privilégios. E ao ver sua casa sendo vendida aos poucos para pagar as dívidas, Chela encontra um inesperado bico de motorista – levando e trazendo a vizinha Pituca (María Martins) e suas amigas de seu jogo de baralho.

Nesse serviço de Uber da terceira idade paraguaia, ela conhece Angy (Ana Ivanova), filha de uma das clientes. E o flerte que se estabelece entre elas pode ser mera projeção do desejo de Chela no início, mas serve para trazê-la de volta à vida, resgatando-a da depressão do início do filme.

Em seu primeiro longa de ficção, Martinessi escreve um roteiro de uma simplicidade e uma riqueza humana impecáveis. Não existem heroínas ou vilãs: Chela claramente se ressente e culpa Chiquita (despachada e mandona) por sua derrocada, e seus sentimentos por Angy vão lentamente curar essa amargura mimada da protagonista. Mas isso não quer dizer que ela se jogue de cabeça neles, nem que não pense o tempo todo nos anos de parceria com a esposa.

Os contrapontos criados por esse triângulo são claros – a prisão de Chiquita se torna uma libertação para Chela; e enquanto todos se aproximam da protagonista para tirar algo dela e de sua casa, Angy é a primeira que chega ali para lhe oferecer algo – mas nunca banais. E o cineasta os constrói com imagens muito representativas: a casa que vai se esvaziando, revelando espaços para uma nova existência; a coragem de Chela de assumir o volante e dirigir por estradas que nunca havia tentado; os óculos que permitem a ela enxergar uma nova vida.

A maior prova da competência do diretor, porém, está nas excelentes performances de seu elenco. Advogada e atriz apenas de teatro, Ana Brun expressa a insegurança, a imaturidade e a transformação de Chela com uma naturalidade que lhe rendeu o Urso de Prata em Berlim na sua estreia no cinema. Ana Ivanova confere à sensualidade de Angy uma ambiguidade irresistível; Margarita Irun conta toda a história do casamento com as decisões autoritárias de Chiquita; e María Martins destila o veneno da fofoqueira Pituca de forma deliciosa.

O resultado de tudo isso é a humanidade que “As Herdeiras” confere àquelas mulheres e ao seu universo – tão raramente vistas com tamanha humanidade e dignidade no cinema. Martinessi transforma o triângulo amoroso entre três mulheres acima dos 50 em algo mais instigante e envolvente que qualquer cena de “Cinquenta Tons de Cinza” – e tudo de que ele precisou para isso foi talento e originalidade.

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