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Longa francês

Quase propaganda católica

'A Prece', em cartaz na cidade, foi o vencedor do Urso de Prata no recente Festival de Berlim

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Anthony Bajon é um viciado em drogas que busca a reabilitação
PUBLICADO EM 09/11/18 - 04h00

São Paulo. “A Prece” começa com um rapaz de olhar tenso a caminho de um lugar aonde provavelmente não gostaria de ter de ir. Ele é Thomas, viciado em drogas prestes a se internar em um centro católico de reabilitação na zona rural.

O local é pacífico, os internos são gentis, mas a rotina tem regras. Thomas demora, mas consegue se adaptar. Um dia, salva-se por milagre de um acidente em uma montanha; tem ali a epifania de que deve se tornar um padre.

O espectador verá, no fim, que “A Prece” não é exatamente uma obra sobre a fé cristã enquanto salvação. É, antes de mais nada, um filme sobre busca, uma procura pessoal por uma motivação ou um norte que leve alguém a se encontrar no mundo.

No entanto, em grande parte do longa, a impressão que se tem é que o cineasta Cédric Kahn defende que a crença religiosa é a única redenção em casos de pessoas que perderam o controle sobre si. O filme é quase uma peça de propaganda católica, ainda que involuntária.

O problema está no procedimento: Kahn pretendia um olhar neutro para compreender melhor como os métodos e as interações pessoais em um internato religioso incidem sobre a mente dos pacientes, a ponto de não só curá-los do vício mas também de gerar neles certa dependência emocional. Afinal, alguns adictos já estão há anos longe das drogas, mas se sentem incapazes de deixar o local e de enfrentar o mundo novamente.

Mas nessa opção respeitosa por reencenar ritos católicos e testemunhos de internos e observá-los de forma quase documental, de repente a neutralidade do olhar cede espaço a um encantamento que o próprio cineasta talvez não esperasse.

É até compreensível a inclusão de depoimentos de ex-viciados salvos pela fé: por menos novidades que tragam, são um material humano tocante. Mas que tipo de fascínio o diretor tanto vê nas tediosas cantorias de louvação cristã dos internos, a ponto de mostrá-las tão longamente? Kahn deve ter encontrado alguma beleza recôndita naquilo que, para um não convertido, é de uma chatice singular. Ao que parece, deixou-se doutrinar pelo objeto de sua investigação.

Mas ao menos sua câmera também reserva um olhar fascinado ao protagonista, Anthony Bajon. O rapaz exala fúria primal nos instantes de crise, mas é cativantemente terno quando se apaixona. Sua atuação, sim, merece ser louvada com fervor.

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