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Música

Tomando as rédeas da MPB

O ano de 1979 foi marcado pela ascensão de cantoras que também compunham, como Joyce, Marina e Angela Ro Ro

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Angela Ro Ro
Angela Ro Ro lançou o primeiro LP em 1979, com músicas que se tornaram clássicas como "Amor, Meu Grande Amor" e "Gota de Sangue"
PUBLICADO EM 04/02/19 - 14h40

Não é exagero dizer que 1979 talvez tenha sido o ano mais feminino (e feminista) da música brasileira. A afirmação se comprova em números: Angela Ro Ro, Marina Lima, Fátima Guedes, Joanna e Rosa Passos estrearam em disco. Para completar, o ano marcou a consagração de Joyce Moreno que, apesar de já terdebutado no mercado fonográfico, teve lançadas duas de suas mais emblemáticas canções por uma dupla de colocar inveja em cem entre cem compositores: Elis Regina (“Essa Mulher”) e Maria Bethânia (“Da Cor Brasileira”). 

O que deixa claro que, para além da questão matemática, um fator ainda mais importante se colocava: a qualidade musical. “É uma feliz coincidência que todas essas cantoras tenham tido destaque ao mesmo tempo, mas é também sintomático, porque estava dentro de um processo de afirmação das mulheres que lutavam por seus direitos e passaram a ter mais visibilidade”, analisa o crítico musical Antônio Carlos Miguel. 

Aliás, o discurso era o que mais chamava a atenção, afinal de contas nenhuma delas se limitava ao papel de intérprete. Todas também compunham, algumas vezes em parceria com outras mulheres, como no caso de Ana Terra, que assinava “Da Cor Brasileira” com Joyce e, com Angela, o hit insuperável de sua carreira, “Amor, Meu Grande Amor”. 

“Essa música tem 40 anos de sucesso, é impressionante. Sempre falo para a Ana (Terra) que a culpa é dela; ela ri e diz que é minha. Outro dia tocaram ela sem letra, no Faustão, para os convidados adivinharem, e com menos de dois segundos todo mundo bateu a campainha porque já sabia qual era a música”, confirma Angela. Por sinal, a cantora pôde sentir essa perenidade na própria pele quando, no ano passado, estreou o show “Pilotando o Piano”, basicamente dedicado a seu primeiro disco. 

O formato deu tão certo que passou por Rio, São Paulo, Belo Horizonte e deve continuar em 2019, já que há uma geração ávida em assistir ao vivo a autora de “Cheirando a Amor”, “Gota de Sangue”, “Não Há Cabeça”, “Tola Foi Você”, “Agito e Uso”, “Mares da Espanha” e “Balada da Arrasada” executando esse impressionante número de clássicos no instrumento onde foram criados. “A música não me pertence, eu que pertenço a ela. Não sou de ficar elaborando, o meu processo é visceral”, define Angela, que coloca na conta da identificação a força das canções.

“É uma coisa meio absurda, porque as pessoas morrem de rir quando eu conto que fui traída por uma namorada, e então elas entendem que aqueles versos são literais, foram vividos, e isso mexe com a cabeça delas”, completa a entrevistada. Definida por Carlos Miguel como “herdeira de Maysa e tutora de Cazuza”, para ele a cantora deixou sua marca no cancioneiro nacional ao “fazer uma fusão orgânica do blues e da música pop com a brasileira”. 

“Ela adorava Janis Joplin, Billie Holliday e antecipou o que o Cazuza ia fazer em termos de poética, com aquela dor de cotovelo rascante e rasgada”, avalia o crítico, que aproveita para lembrar um episódio curioso. “Na década de 80 tentaram fazer um filme com a Ro Ro interpretando a Maysa, porém a família da homenageada não autorizou”, revela. “Os paralelos são sempre reducionistas, mas bote uma Maysa ainda mais doidona e você vai ter a Ro Ro”, afirma Carlos Miguel.

Femininas. Fátima Guedes também teve em Elis Regina um apoio fundamental. Foi a “Pimentinha” quem primeiro gravou “Meninas da Cidade”, preciosidade do disco de estreia de Fátima. Elis ainda registrou “Onze Fitas”, faixa de abertura daquele trabalho que ganhou uma nova versão de Fátima em seu mais recente álbum, “Transparente” (2015). “A Fátima é dona de um dos repertórios mais fortes que temos, e está produzindo até hoje, mesmo sem um grande sucesso popular”, sustenta Carlos Miguel. 

Naquele mesmo ano de 1979, Simone lançou “Condenados” (“ah, meu amor, estamos condenados/nós já podemos dizer que somos um”). “Toda a síntese da minha obra está nessa canção”, observa Fátima, apontada como uma das precursoras na presença de um ponto de vista feminino em canções amorosas (são dela os versos: “e então tá aí uma canção na qual você se reconhece”, de “Madame”). “Tudo é o jeito de falar, a embocadura, as palavras certas. Sendo assim você pode ter até a boa pornografia”, acrescenta Fátima, que aproveita para falar sobre sua relação com Elis. “Na presença dela eu ficava super quietinha, só babando, eu a respeitava muito, mais ainda por ser uma pessoa temperamental”, informa. 

Surgida quase dez anos antes, Joyce construiu sua carreira exatamente sobre essa perspectiva que insurgia. “A linguagem feminina é o que prevalece na minha obra e, como você pode ver, o ponto de vista da mulher é cada dia mais importante. Mas não tive essa influência de ninguém, quando surgi nós éramos poucas”, diz. No entanto, Carlos Miguel ressalta que “Dolores Duran, Maysa e Dona Ivone Lara foram fundamentais para pavimentar esse caminho”. 

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