Biblioteca que salvou a vila
A ideia de um arquiteto impulsionou o turismo da cidade chinesa de Jiaojiehe, que estava condenada ao esquecimento

Jiaojiehe, China. Escondida entre castanheiras, nogueiras e pessegueiros em um vale cercado de montanhas altas e irregulares, a aldeia de Jiaojiehe sofre por estar próxima da capital do país. Os jovens seguem em debandada para a cidade grande, deixando os idosos para trás, solitários e pobres.
Na China atual, pequenas cidades como essa geralmente tentam desenvolver uma sensação de bem-estar, abrindo, por exemplo, uma nova clínica médica ou modernizando o abastecimento de água.
Porém, Li Xiaodong, premiado arquiteto que une o tradicional design chinês aos temas ocidentais, tinha uma ideia diferente para Jiaojiehe. Ele ficou fascinado com o potencial dos recursos naturais abundantes da aldeia, os galhos de seus milhares de árvores que os habitantes usam como combustível.
Então, ele construiu uma biblioteca – com um toque diferente. Em sua base, há uma caixa de aço e vidro inspirada no plano aberto de Philip Johnson da década de 50, mas suas paredes externas e o telhado são cobertos com galhos de árvores frutíferas.
As varas finas estão dispostas em fileiras verticais, e suas formas irregulares permitem que a luz natural penetre na sala de leitura da biblioteca, mantendo o edifício fresco no verão e aconchegante no inverno. Elas também agem como uma espécie de camuflagem, deixando a forma retangular da biblioteca quase imperceptível na paisagem para os visitantes que se aproximam da vila pela estrada estreita e sinuosa.
O interior da biblioteca é basicamente uma sala grande, simples, forrada por estantes abertas e uma coleção eclética de obras incluindo “A Audácia da Esperança”, do presidente Barack Obama, “Forrest Gump” e romances tradicionais chineses sobre a dinastia Qing. Não há cadeiras ou mesas, apenas um assoalho de madeira encerada com várias plataformas onde os leitores podem se acomodar com seus livros.
Porém, atender às necessidades de leitura das aproximadamente 50 famílias que permanecem na aldeia é algo secundário. O propósito do edifício é basicamente atrair turistas de Pequim, ansiosos por escapar da poluição e sujeira perpétuas da cidade em busca de um pouco de beleza e tranquilidade.
“A biblioteca é uma ferramenta para atrair as pessoas para a vila”, disse Li, 52, professor da arquitetura da Universidade de Tsinghua, em Pequim.
Quando os visitantes vêm para ver a biblioteca, ele disse, também gastam dinheiro em alguns restaurantes da aldeia, pagam taxas de estacionamento e doam dinheiro para a manutenção do edifício.
“O lugar é especial”, disse Li Wenli, 45, vendedora de seguros de Pequim sentada em um canto da sala de leitura com um livro grande equilibrado sobre os joelhos para que seu filho de 9 anos o lesse junto com ela.
“Na cidade, uma biblioteca parece ser um local estranhamente quieto. Você pensa: ‘Tenho de ficar quieta, porque todo mundo está quieto’. Mas aqui, a paz é natural”, ela disse.
A biblioteca tem presença na mídia social, e muitos visitantes do fim de semana são estudantes universitários ou jovens profissionais. Eles passeiam pela aldeia, fazem selfies e comem a iguaria local, galinha ensopada com castanhas, em um dos restaurantes.
E alguns deles realmente leem. O jornalista Sun Liyang, 27, disse que um amigo de Pequim havia doado alguns livros depois que ouviu falar sobre a biblioteca na internet, e ele decidiu vir conhecê-la.
“Estou aqui lendo ‘As Aventuras de Tintim’. É uma volta à minha infância”, ele disse.
Wang Fuying, 57, que era agricultora da região, agora é a bibliotecária, mesmo quase sem saber ler. “Todos os visitantes da biblioteca são da cidade. Temos até 200 visitantes por dia no fim de semana. Eles vêm para se divertir, dar uma olhada, tirar fotos e fazer um passeio”, disse ela.
Existem alguns problemas. Para preservar o assoalho de madeira, as pessoas precisam tirar os sapatos na porta da frente e, no verão, quando há muitos visitantes, a sala de leitura acaba ficando com o cheiro desagradável das meias, disse Fuying. A lareira à lenha parece um local convidativo para a leitura de inverno, mas foi posta muito perto das janelas, o que a inviabilizou.
Mas essas são coisas pequenas se comparadas aos benefícios que o edifício trouxe para a aldeia. Seus dois pequenos restaurantes “teriam fechado sem os visitantes”, disse Fuying.
Li Xiaodong, o arquiteto, formou-se pela Universidade de Tsinghua em 1984, em uma das primeiras turmas de jovens designers que surgiram após o desastre da Revolução Cultural. Ele foi para a Holanda para estudar a história e a teoria do planejamento urbano, terminou seu doutorado em 1994 e lecionou em Cingapura antes de retornar para se juntar ao animado corpo docente da escola de arquitetura na Tsinghua.
Lá, refina suas ideias que, segundo ele, foram influenciadas por Frank Lloyd Wright e se baseiam no princípio de que os edifícios devem ser parte integrante da paisagem e não objetos colocados nela.
“A arquitetura chinesa é sempre desenhada a partir de uma visão global, não do olhar humano. Sempre vemos a arquitetura como um todo. Não vemos o ser humano isolado do ambiente”, disse ele.






