Em estado permanente de dança
Inês Bogéa, ex-bailarina da companhia mineira, conta como vive da dança mesmo depois de sair dos palcos

Momentaneamente, Inês Bogéa interrompe a viagem que a levava para fora do Brasil. Precisávamos conversar sobre o Grupo Corpo, sobre os 12 anos em que dançou com a família Pederneiras e os movimentos que inventou para si após largar os palcos. Por e-mail, ela não poupou letras para compartilhar suas memórias, histórias e experiências.
Antes do grupo, a capixaba já dançava em outros territórios. “Minha vida de bailarina começa de cabeça para baixo, fazendo estrelas na ginástica olímpica”. Ela foi atleta dos 7 aos 11 anos e chegou a ser campeã brasileira de ginástica olímpica em 1976, mas logo abandonou o esporte para experimentar a luta dançada da capoeira. “Numa das rodas, tomei uma bênção no peito que me deixou desacorçoada, e fui para casa buscar o colo do meu pai. Ele estava assistindo ao balé ‘O Lago dos Cisnes’ na TV. Aquele mundo suave, com as bailarinas flutuando nas pontas dos pés, me encantou e, da capoeira, fui aprender balé, aos 13 anos, com a Dona Lenira Borges, em Vitória, minha cidade natal”, relembra Inês.
Com Dona Lenira, dançou no Grupo Experimental de Dança do Espírito Santo, no qual foi também solista e assistente de direção artística. Ali, emergiu na dança clássica, mas aprendendo com a primeira mestra a versatilidade necessária para os gestos e movimentos. Quando chegou a Belo Horizonte pela primeira vez, passou quatro anos dedicada à Escola de Dança do Palácio das Artes e retornou para Dona Lenira, dessa vez, dando suas primeiras aulas enquanto seguia nos diversos estilos da dança.
Foi o encontro com Bettina Bellomo que a trouxe de volta a Belo Horizonte. “Ela me perguntou se eu não tinha vontade de ser bailarina profissional. Vontade eu tinha”. Afinal, já havia sido tocada pelo desejo de seguir atravessada pelas sensações do estar no palco se expressando por meio do corpo. “Desde minha primeira aula de balé, senti um silêncio por dentro. E quando dancei ainda criança, pela primeira vez no palco, esse mesmo silêncio ecoou lá no fundo. A escuridão da plateia e ao mesmo tempo a sua presença, a alegria e os olhares cruzados com minhas amigas no palco, a sensação muito presente do meu corpo em movimento, flutuando e brincando com a gravidade, me marcaram profundamente. A cada vez que toca o primeiro sinal, anunciando a todos que o espetáculo em breve vai começar, sinto esse silêncio interno que me leva ao encontro de mim mesma e, ao mesmo tempo, me proporciona espaços para dialogar com os outros”, divaga a bailarina.
Na capital mineira, ela entrou para a Cia. de Dança do Palácio das Artes, passou pela Compasso Cia. de Dança e chegou ao Grupo Corpo, onde, de 1989 a 2001, vivenciou os diversos processos que envolvem a manutenção de uma companhia de dança. “Aprendi muito com eles, especialmente o rigor e a entrega a cada detalhe da construção dos trabalhos. O que se vê na cena é resultado de uma decantação de ideias que perpassam todas as áreas do grupo, da produção à criação. Como bailarina, vivenciei muito os processos de criação coreográfica e o encadeamento dos elementos da cena. Por vontade própria, pedi para acompanhar diversas montagens do palco e um pouco do processo de afinação das luzes. Isso me proporcionou uma visão do todo. Sem dúvida, grande parte da minha trajetória artística tem influência direta do tempo que vivi no Grupo Corpo”, afirma.
Nos 12 anos de Corpo, dançou 12 balés e muitos duos principais, alguns idealizados especialmente para ela, como em “A Criação” (1990). “Meu partner foi o Werner Glick e fizemos Adão e Eva. Fazia pouco tempo que eu estava no grupo e, para mim, foi um enorme desafio. Aprendi logo de início a necessidade de uma entrega colaborativa e do entendimento da maneira de se mover junto com partner, encontrando o tempo dos dois para afinar a escuta do corpo e dar vida às ideias do coreógrafo. O Rodrigo Pederneiras (coreógrafo do grupo) estava finalizando uma dança de grupo, da qual eu não participava, e então me chamou para entrar. Como sempre, mostrou o caminho e o movimento. A música seguiu, um adágio lindo de ‘A Criação’, de Joseph Haydn, e lentamente Rodrigo foi esculpindo os movimentos espiralados nos nossos corpos. Meu encantamento era total de descobrir com eles essa dança. Foram dias e mais dias de ensaios, de um refazer constante para que encontrássemos a expressão dessa dança”, conta Inês.
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