Negócios da fumaça

Headshops de BH vendem de tudo para fumar maconha, menos a erva

Além de vender dichavadores, seda e outros acessórios, lojistas se consideram ativistas pela descriminalização da planta

Por Gabriel Rodrigues
Publicado em 03 de maio de 2024 | 06:00
 
 
 

Dependendo do ponto de vista de quem fala, a maconha simboliza lazer, saúde ou perigo. Ela também é um sinônimo de dinheiro — concentrado nas mãos do tráfico, enquanto permanece criminalizada, mas também em um mercado legal de acessórios para usar a erva. Eles são encontrados em lojas espalhadas por todas as regiões de Belo Horizonte, conhecidas como headshops. Por ora, limitadas a vender bongs, seda e outros itens para os usuários, elas sonham com a descriminalização e, mais distante no horizonte, com a legalização da planta, a fim de ampliar a participação em um mercado que pode chegar a US$ 90 bilhões até 2030.

O valor é calculado pela empresa de inteligência de mercado internacional Grand View Research e inclui, além do Brasil, países onde o uso recreativo da maconha é legalizado, como algumas partes dos EUA. No Brasil, as empresas vivem a expectativa de uma ampliação do mercado, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) avance na pauta de descriminalização, ao mesmo tempo em que a Proposta de Emenda à Constituição 45 (PEC 45/2023) busca reforçar a proibição do uso.

“Vamos até a fronteira. Vendemos tudo que hoje se apresenta como o mercado da Cannabis no Brasil”, introduz uma das sócias da De Ponta, headshop que funciona na Vila Paris, na região Centro-Sul de BH, Carol Nïka. Nas prateleira coloridas da loja com ares modernos — fruto de um investimento de R$ 250 mil —, o cliente encontra itens básicos do setor, como seda para enrolar cigarro, dichavador para triturar a erva, potinhos para guardá-la, e produtos exclusivos, como uma cerveja com aroma e sabor de maconha desenvolvida com a cervejaria belo-horizontina São Sebastião, a 24k.

“A cultura da Cannabis no Brasil é forte, presente. Minas tem muitos usuários, e as pessoas pessoas pararam de usar os acessórios como algo apenas funcional. Querem ter um diferencial. Um dichavador de material mais ecológico, por exemplo, coisas de maior qualidade. Além disso, o mercado feminino é muito mal-atendido, e as mulheres fumam tanto quanto os caras. Elas querem um acessório bonito e funcional”, descreve Nïka.

Fundadores da headshop De Ponta, Mateus Amaral, Carol Nika e Lucas de Olivera (esq. para dir.)
Fundadores da headshop De Ponta, Mateus Amaral, Carol Nika e Lucas de Olivera (esq. para dir.) (Crédito: Daniel de Cerqueira/O TEMPO)

Hoje, a loja fatura, em média, R$ 20 mil mensais. O sonho de Nïka é assistir à legalização da venda e do uso de maconha no Brasil, a exemplo do que ocorre no Canadá, no Uruguai e, mais recentemente, na Alemanha. “Abri a loja com a intenção de, no futuro, assim que for permitido e caminhando com a legislação, torná-la um dispensário [loja que vende Cannabis]. Estou me preparando. No dia em que for liberado no Brasil, vai haver fila na minha loja”, diz a empreendedora.

Um levantamento da empresa de pesquisa de mercado canábico Kaya Mind projeta que a legalização da Cannabis poderia atingir R$ 26 bilhões no Brasil no quarto ano após a regulamentação, com recolhimento de R$ 8 bilhões em impostos. Ainda de acordo com a empresa, só o mercado legal de maconha medicinal no país movimentou R$ 700 milhões no último ano, e pode chegar a R$ 1 bilhão em 2024.

Além das headshops, o mercado movimenta fornecedores de acessórios. A Capitão Green, por exemplo, produz sedas personalizadas para outras marcas e eventos de Minas e mais Estados. “Importamos a seda da Espanha e fazemos a embalagem. Atendo todo tipo de público. Atendo muito o pessoal da música eletrônica, mas já fiz personalizações para aniversário, casamento e de um corretor de imóveis ”, diz o fundador da marca, Gabriel Freitas. “Fora do Brasil, vemos que o mercado mudou muito depois da legalização da maconha. Aqui, é difícil, acho que ficaremos mais cinco, dez anos nessa batalha”, pondera.

‘Tem erva na loja?’

“Todo dia vem gente e pergunta se sabemos onde vende maconha. Somos bem secos na resposta para a pessoa entender que não é assim”, diz o dono de outra headshop de BH, a Garden, no Dona Clara, na Pampulha, Vitor de Castro. No perfil da loja no Instagram, os seguidores encontram um post fixado que diz que “tabacaria não é lugar de perguntar sobre corre” (“corre” é o nome popular para a compra da droga). “Por favor, não insista! Não compramos, não vendemos e não sabemos quem tem! Vamos evitar esse tipo de situação muito deselegante para ambas as partes!”, continua a legenda.

Vitor de Castro, um dos fundadores da Garden Headshop
Vitor de Castro, um dos fundadores da Garden Headshop (Crédito: Fred Magno)

A Garden começou com um investimento de R$ 30 mil em 2018, e teve um boom na pandemia, quando focou no delivery. Ampla, a loja também vende pães de queijo recheados com linguiça e monta mesinhas na entrada. “Ela é bem bonita, e isso quebra um pouco o olhar de preconceito, mas muita gente com certeza deixa de entrar por ser uma tabacaria”, pontua Castro.

Garden Headshop aposta em lanches, além dos utensílios canábicos
Fachada da Garden Headshop, no Dona Clara (Crédito: Fred Magno)

Ativismo x preconceito nas headshops

O foco nos negócios confunde-se com ativismo nas headshops — muitas delas apoiam diretamente a Marcha da Maconha, movimento que sai às ruas pela descriminalização da erva. Fundador da Pito do Pango, no Castelo, na Pampulha, Eduardo Rocha Fonseca reforça esse caráter do setor. “A região tem bastante usuário e é conservadora. A gente precisava existir aqui. Exige mais luta, mas é onde a gente deve estar”, sublinha. Ele diz flagrar olhares tortos de quem passa na rua para sua loja e ter enfrentado preconceito de lojistas vizinhos. O empresário calcula ter investido R$ 80 mil na abertura da loja.

Para ele, o ativismo canábico — como ele chama o movimento pela descriminalização — envolve outras lutas também, especialmente o antirracismo. A Lei de Drogas é a que mais encarcera pessoas no Brasil, e a maior parte das prisões é de pessoas negras, segundo estudo da Universidade de São Paulo (USP). A lei não descreve qual quantidade de droga precisa ser encontrada com a pessoa para enquadrá-la como traficante, assim a definição fica a cargo da polícia e da Justiça.

Bongs são alguns dos utensílios mais habituais à venda nas headshops
Bongs são alguns dos utensílios mais comuns vendidos nas headshops (Crédito: Fred Magno/O TEMPO)

A história da maconha no Brasil começou com a escravidão, pois as sementes foram trazidas por africanos escravizados. Já no século 19, havia movimentos de repressão contra o fumo no Brasil. A Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por exemplo, penalizava o chamado “pito de pango”. Pessoas livres flagradas fumando maconha eram punidas com uma multa. Já a população escravizada, com a prisão. “O racismo vem desde o início e até hoje se mantém”, enfatiza Fonseca.  

“A descriminalização discutida no STF seria extremamente benéfica para a loja. O motivo de as pessoas ainda esconderem que fumam é por ser considerado crime. Descriminalizando o usuário, ele não terá muita dificuldade em frequentar os ambientes de cultura canábica”, conclui o empreendedor, esperançoso sobre os possíveis rumos desse mercado no Brasil.

É permitido vender acessórios para fumar maconha?

A maior parte dos acessórios utilizados por usuários de maconha também serve para um mercado totalmente legal no Brasil, o do tabaco, portanto a fabricação e venda deles é permitida no país. “A comercialização é legal e aprovada. Se fosse uma forma de apologia ao uso de drogas, jamais teria essa aprovação”, argumenta o advogado criminalista Marcel Abdou.

Ele destaca que explicar qual é o uso dos utensílios não é um delito, mas que existe uma linha tênue nesse caso, pois o incentivo ao uso de uma substância ilegal pode ser considerado apologia ao crime. “É muito subjetivo, depende da autoridade policial que receber essa ocorrência ou mesmo do juiz que julgará o caso”, conclui.

E o que o nome significa?

Uma tradução literal de headshop seria algo como “loja cabeça”. Há diferentes explicações para a origem dele. Uma das mais comuns é que seria uma referência a como se chamava usuários de drogas no século 20, “heads”. Ainda hoje, em inglês utiliza-se o termo “pothead” para designar usuários de maconha.

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