Sem amparo legal

Rolezinhos: racismo e segregação em shoppings sob justificativa de 'segurança'

Casos de clara conduta discriminatória do público pelos malls, visto que são barrados especialmente meninos negros, têm se multiplicado em BH e região


Publicado em 23 de janeiro de 2023 | 06:00
 
 
 

Em pleno período de férias, no último dia 12 de janeiro, a reportagem de O TEMPO foi surpreendida ao constatar que o Boulevard Shopping estava barrando a entrada de menores desacompanhados dos pais ou responsáveis. De acordo com a segurança, era uma medida adotada para desmobilizar um encontro de jovens no local, o chamado “rolezinho”. 

Os casos de clara conduta discriminatória do público pelos malls, visto que são barrados especialmente meninas e meninos negros, têm se multiplicado em BH e região. Reportagem de O TEMPO conversou na última quinta-feira, 19/1, com a mãe de três adolescentes – negros – que foram impedidos de entrar no Shopping Del Rey, na região Noroeste da capital. Ela, de origem angolana, contou que o trio foi barrado por seguranças sob a justificativa de que não poderiam entrar desacompanhados de responsáveis. A tia teria ido ao socorro dos sobrinhos e notou que “meninos brancos, loiros, bem vestidos” conseguiram entrar sem ser incomodados. A família registrou uma ocorrência na Delegacia Especializada de Investigação de Crimes de Racismo, Xenofobia, LGBTfobia e Intolerâncias Correlatas (Decrin). A Polícia Civil apura o fato. 

O Shopping Del Rey informou em nota que tem uma liminar concedida pelo Poder Judiciário do Estado de Minas Gerais, que autoriza a restrição de acesso de menores desacompanhados de seus responsáveis legais ao espaço. “A ação tem como objetivo resguardar a segurança e o bem-estar de crianças e adolescentes durante sua permanência no empreendimento”, informou. O mall ainda reiterou que repudia todo e qualquer tipo de discriminação em sua dependências. O Boulevard também esclareceu que está cumprindo a decisão liminar do Tribunal de Justiça de Minas, “em função de acontecimentos recentes em outros estabelecimentos”. 

Diversas lojas foram fechadas após confusão em estabelecimento

No dia 7 de janeiro, lojistas do ItaúPower Shopping baixaram as portas às pressas, e os clientes ficaram atordoados com um boato de que estaria acontecendo um “arrastão”. Se tratava, na verdade, de um rolezinho. No dia da ocorrência, o ItaúPower informou à reportagem de O TEMPO que a Polícia Militar teria sido acionada porque foi observada uma “movimentação de grupo de jovens dentro do mall com intuito de causar tumulto”. Entretanto, nenhuma ocorrência foi relatada pela Polícia Militar. 

O ItaúPower Shopping informou em nota que, como já se aproximava do horário de encerramento das atividades, algumas lojas decidiram fechar as portas mais cedo, contribuindo para desmobilizar a situação. “O ItaúPower Shopping reforça que repudia qualquer tipo de violência, discriminação e zela pela segurança (das pessoas, sanitária e patrimonial) em suas dependências para que todos os frequentadores tenham uma ótima experiência de lazer no mall, aproveitando das variadas opções de diversão, compras e gastronomia”, destacou. 

No dia 3 de janeiro, a Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG) divulgou uma recomendação aos malls, dizendo que esse tipo de ação não tem amparo legal. No documento, o órgão destacou que os adolescentes têm direito ao lazer e à liberdade de reunião pacífica e em público. A Defensoria lembrou que a proibição estaria ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente e que, caso sejam confirmados os relatos, a conduta discriminatória pode resultar em punição dos responsáveis por crime de racismo. (Com José Vitor Camilo)

Notícias exclusivas e ilimitadas

O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo profissional e de qualidade.

Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar. Fique bem informado!