representatividade

Competitiva de curtas na Mostra de Tiradentes tem 70% de realizadores negros

Força e presença foram sentidos na abertura da mostra “A imaginação como potência, quando, das quatro produções, três eram protagonizadas por negros

Por Alex Bessas*
Publicado em 26 de janeiro de 2020 | 14:32
 
 
 
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Tiradentes, MG. Um dos homenageados da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o ator Antônio Pitanga rememorou, na cerimônia em que recebeu o troféu Barroco, o 16 de abril de 1964, quando partiu para um autoexílio voluntário no continente africano. Nas palavras de Pitanga, a travessia do Atlântico foi motivada por querer saber de que África ele vinha.

A fala reverberou em uma plateia constituída, em grande parte, por pessoas negras. Neste ano, elas representam 70% dos realizadores da mostra Foco, a competitiva de curtas. Entre os 81 selecionados, 29 têm pessoas autodeclaradas negras ou pardas na direção ou codireção. Em 2019, eram 18.

Segundo Tatiana Carvalho, uma das curadoras, nenhum outro festival brasileiro não segmentado reúne números tão representativos. “É algo que diz de uma postura dos curadores, mas, sobretudo, dos filmes, da potência dessa produção, que é, hoje, o que existe de mais interessante no cinema brasileiro. Não que seja algo organizado, mas há uma onda de pessoas LGBTs e negras tencionando coisas mais canônicas”, avalia.

Força e presença se fizeram perceber na abertura da mostra “A imaginação como potência”, nesse sábado (25), quando, das quatro produções, três eram protagonizados por negros – e uma por um ameríndio. Em dois curtas, relações homoafetivas também estiveram no foco. Caso de “A Felicidade Delas”, dirigido por Carol Rodrigues, em que viaturas policiais assombram duas mulheres negras. “Nos meus filmes, busco formas de existência que deixem de ser periféricas e à margem e tornem-se centro”, comenta Carol. “A gente brinca que está vivendo uma primavera do cinema negro”, completa.

Na tarde deste domingo, na mostra "Panorama", o tema permanece, como em "Looping", curta filmado em Betim, no ano passado, e em que é flagrante a opção por uma linguagem que converse com o meio virtual, uma estética contemporânea e futurista. A produção de Maick Hannder reimagina seu próprio passado e mira outro possível à construção das masculinidades negras. “Eu tenho 24 anos. Há uma década era difícil imaginar um romance assim. Então, é algo que vem muito dessas utopias que eu tinha”, comenta. “Ao mesmo tempo, é uma maneira de dizer do amanhã que eu desejo”, completa, sem deixar de sublinhar tratar-se de uma vontade que parte de uma perspectiva coletiva.

Neste domingo, também entre os longas, o tema continua com “Um Dia com Jerusa”, que traz no elenco Lea Garcia. “Essa presença do negro, dentro do audiovisual, é uma conquista nossa”, diz. Ela lembra que o filme foi produzido com uma equipe formada, em grande maioria, por mulheres – incluindo Viviane Ferreira, segunda mulher negra a dirigir um longa no Brasil. 

Até o dia 1 de fevereiro, serão exibidos 113 filmes brasileiros  (alguns em pré-estreias nacionais e mundiais) produzidos em 17 Estados, e divididos em 53 sessões na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes. A expectativa de público, em nove dias, é de 35 mil pessoas - ou seja, cinco vezes a população local.

*O repórter viajou a convite da organização do evento

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