Prêmio Jabuti

A resistência da esperança em páginas artesanais

Obra independente feita por autor do interior do Ceará vence nas categorias livro do ano e poesia

Por Raphael Vidigal
Publicado em 10 de novembro de 2018 | 03:00
 
 
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Imagine a cena: uma reunião entre intelectuais e escritores onde estão Jô Soares, Fabrício Carpinejar, Fernando Gabeira e, como se trata de literatura, até o saudoso Rubem Braga (1913-1990). De repente aparece um cirurgião-dentista do Ceará, de uma cidade chamada Varjota, com pouco mais de 18 mil habitantes, e que se descreve humildemente nas redes sociais como “o filho do seu Rodrigues e pai do Fernando”. E ele desbanca a todos com a sua poesia independente.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu na cerimônia de anteontem do prestigiado Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do país. Mailson Furtado Viana, com seus 27 anos e a obra “à cidade” (grafado em minúsculas) venceu nas categorias livro do ano e poesia. Feito à mão e com recursos próprios do autor, o livro teve até o desenho da capa criado por Viana. “Para mim, foi um grande choque, não esperava ser indicado, muito menos ganhar, minha vida virou do avesso, não consegui dormir nem comer direito”, confessa o autor.

A partir de elementos geográficos, históricos, sociológicos, políticos e folclóricos, a publicação traz um único poema que se estende por mais de 60 páginas. É o quarto livro de Viana e o terceiro de poesias; o outro traz contos. Entre os nomes que influenciaram Viana estão Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, ambos nordestinos. “Por alguns pontos, considero esse o meu primeiro livro, ou talvez eu nunca vá escrever outro igual, porque a produção foi muito distinta dos anteriores”, conta.

Durante 20 dias, em novembro de 2015, Viana se sentiu impelido a dar vazão aos versos que formariam a obra. “O poema pedia para ser construído, foi uma experiência muito visceral, na época sofri uma sensação psicológica diferente e estranha”, diz. Ciente de que o momento de glória tornou a sua história diferenciada, Viana fez questão de ressaltar o fato de a sua trajetória ser parecida com a de muitos autores que conhece. “Todos os meus amigos pagam para se publicar. Esse prêmio é nosso”, agradeceu.

Resistência. Coordenadora-geral do Fórum das Letras e diretora do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), a professora e escritora Guiomar de Grammont assistiu à premiação em São Paulo. Segundo ela, um dos momentos de maior vigor foi a homenagem ao poeta amazonense Thiago de Mello, 92, autor dos versos “faz escuro, mas eu canto/ o amanhã vai chegar”, repetidos diversas vezes durante a noite da celebração.

“Foi um tributo providencial ao Thiago de Mello, porque antes mesmo da posse dessa gente que vai chegar ao poder, já está havendo o genocídio de índios, com extermínios no Sul do Mato Grosso e até bebês sendo feridos com balas de borracha”, lamentou Guiomar.

Para ela, no entanto, o recado do prêmio foi de resistência. “O fato do livro do ano ter sido de um autor do interior do Ceará, feito artesanalmente, foi uma mensagem de esperança, de valorização dos autores que estão fora dos grandes centros”.

Mineiro vence em categoria polêmica

O ano de 2018 certamente não foi dos mais fáceis para o prêmio Jabuti, pelo contrário. Cercado por polêmicas, ele conviveu com o descontentamento nos meios literários após mudanças aprovadas para esta edição, que, aliás, dada a gritaria em torno do tema, já estão em risco para 2019.

As mais reclamadas foram a junção das categorias infantil e juvenil e a perda de status da ilustração, que passou a ser entendida como categoria técnica, em vez de uma linguagem em si mesma. O caso culminou com o pedido de demissão do curador Luiz Armando Bagolin, após se envolver em discussão com o crítico Volnei Canônica, em que foi acusado de homofobia.

Pois foi justamente pelas ilustrações de “Os Trabalhos da Mão”, com texto de Alfredo Bosi, que o mineiro Nelson Cruz, 61, venceu o Jabuti na última quinta. “Sinceramente eu não esperava o prêmio, principalmente com as mudanças no regulamento, porque misturaram ilustração infantil com as demais, e ficou mais difícil ganhar”, afirma Cruz.

O trabalho traz uma perspectiva histórica sobre as funções da mão. “Esse livro me proporcionou colocar em prática uma ideia na ilustração que é a de trazer a arte da pintura enquanto narrativa. Sei que alguns pintores e artistas plásticos torcem o nariz para isso, mas eu não”, sublinha ele, que ainda destaca a atualidade da mensagem. “Numa época em que se propõe que as mãos segurem armas, aniquilem e oprimam, protestamos com as mãos que beneficiam a humanidade”.

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