Múltiplo

Nei Lopes, um intelectual imerso na afro-brasilidade

Nos altos de seus 79 anos, compositor mostra-se em plena atividade e fala sobre seus inúmeros projetos

Por Patrícia Cassese
Publicado em 27 de agosto de 2021 | 03:00
 
 

Em maio do ano que vem, Nei Lopes completa 80 anos – sem dúvida, bem vividos. Aliás, ele conta que já está esquentando as turbinas para as celebrações – até fisicamente, fazendo pilates. “Uma das grandes descobertas contemporâneas”, brinda o advogado, compositor, escritor, poeta, contista, sambista, pesquisador da cultura afro-brasileira e teatrólogo nascido no Irajá, no Rio de Janeiro. Autor de sambas antológicos, como “Senhora Liberdade”, da sua profícua parceria com Wilson Moreira (1936 -2018), Nei é também escritor, agraciado com láureas como o Prêmio Jabuti, além de colecionar indicações a outras igualmente calibradas, como o Prêmio Oceanos. Um intelectual, na acepção do termo. 

Ativo, mesmo com a pandemia, Lopes seguiu – e segue – atuando em várias frentes. “Desde antes da Covid, presto consultoria ao setor de dramaturgia da Rede Globo. Também participo de dois projetos da Globo Livros e desenvolvo outro, também de livro, num projeto da Uerj. Atualizo as 757 páginas da minha ‘Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana’, editada em 2011, e participo das decisões da associação de direitos autorais Amar-Sombrás, à qual pertenço desde 1982”, diz ele, compartilhando o início de sua lista de afazeres. Isso mesmo, início. É que, não bastasse, Nei Lopes acompanha a criação de um livro sobre sua vida e obra (“escrito por duas professoras competentíssimas”), compõe o que ele mesmo nomeia como “sambas de protesto”, com vários parceiros, e se prepara para receber mais dois títulos honoríficos de peso, um pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e outro pela Universidade Estadual do Rio (Uerj). 

Não por outro motivo, com tanta coisa na agenda, o pensador avalia que sua rotina na quarentena nem se alterou assim, tão radicalmente, em relação à anterior à chegada da pandemia. “Só não tenho é viajado nem encontrado os familiares e amigos, como gostaria”, repara. Além do cenário devastador provocado pelo vírus Sars-Cov-2, com milhares de mortes no país, o que o preocupa sobremaneira é a forma como algumas questões vêm sendo tratadas pelo que chama de “desgoverno brasileiro”. “Escabroso! E as perspectivas preocupam muito. Mas eu tenho Ifá para orientar minhas decisões”, diz, fazendo menção ao nome do mais recente livro a levar sua assinatura: “Ifá Lucumí, o Resgate da Tradição” (Pallas Editora, 224 páginas, R$ 49). 

A obra versa sobre a prática religiosa que Nei Lopes segue desde o ano 2000 e na qual foi efetivamente iniciado 16 anos depois. Culto que está sendo redescoberto no Brasil e em Cuba, o Ifá é composto por uma infinidade de saberes que se concentram nas narrativas dos Odus, signos por meio dos quais o oráculo responde às questões propostas, expressando as possibilidades, presentes ou futuras, da pessoa, circunstância ou situação cujo destino se deseja saber. “Os saberes de Ifá constituem o fundamento, tanto doutrinário quanto litúrgico, do culto às divindades conhecidas como ‘orixás’, que chegou massivamente às Américas já quase no fim do tráfico negreiro. Assim, tudo o que se refere aos orixás vem de Ifá, sistema que tem como ponto central o oráculo que lhe dá o nome. Através dele, sem necessidade de transe, de ‘receber santo’, qualquer pessoa pode se comunicar com orixás e outras espécies de entidades, de nível superior, em busca de respostas para qualquer tipo de questão existencial, inclusive sobre como proceder diante de qualquer tipo de situação”, explica, complementando que esse acesso é realizado pelo babalaô, cujo aprendizado dura a vida inteira, desde a iniciação, “por conta da incomensurável quantidade de conhecimentos a receber e assimilar”. 

O Ifá, prossegue Nei Lopes, é uma prática aberta a qualquer pessoa. A ideia do livro, por sua vez, ele diz ter vindo a partir do marco de sua consagração, pela necessidade de fazer chegar ao grande público que Ifá não tem nada a ver com “animismo” e “fetichismo” (“como dizem os livros antigos”) ou de feitiçaria, bruxaria ou macumba (“como generalizam os mal-intencionados ou pouco informados”). “E escrevi o livro sem necessidade de maiores pesquisas, servindo-me de minha biblioteca pessoal, bastante voltada para história e cultura da África e das Américas, na qual a religiosidade ocupa uma parte bastante significativa. Além disso, tenho a minha vivência, que começou numa espécie de ‘espiritismo doméstico’, chegou ao candomblé na década de 70 e desembocou em Ifá, no final dos anos 90”. 

Mas o livro “Ifá Lucumí, o Resgate da Tradição” não é a única novidade recente nas prateleiras das livrarias a trazer o nome de Nei Lopes. Ele também participa da coletânea “Contos de Axé” (editora Malê), organizada pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho. “Escrevi um relato ficcional, sem querer fazer grande literatura, e sim a partir de minha experiência específica, da qual muito me orgulho”. Da mesma forma, aliás, que escreveu, em parceria com o historiador e professor Luiz Antonio Simas, o livro “Filosofias Africanas: Uma Introdução” (Civilização Brasileira, 144 páginas), “para mostrar que a religiosidade africana tem um embasamento filosófico surpreendente e muito importante”. 
Mas é retomando o Ifá que ele responde à pergunta da reportagem sobre as novas formas de resistência em tempos nos quais o racismo estrutural ecoa em casos como o da morte bárbara de João Alberto Silveira, assassinado por seguranças em um supermercado em Porto Alegre, em novembro do ano passado. “Acho muito positivo que isso agora comece a ser aclarado, pois a falsa ideia de que nascemos em uma nação igualitária, em termos de direitos de cidadania, atrapalhou muito o desenvolvimento deste país, nascido e estruturado para ser, como é, uma terra onde igualdade e justiça social estão apenas no papel. Mas Ifá, que tem as cores verde e amarelo com um de seus símbolos, está olhando por nós”. Que assim seja.

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