70 anos da televisão

TV Itacolomi, canal 4: um marco da telinha com DNA mineiro

A emissora fundada por Assis Chateaubriand, que funcionou até 1980, fez história, dando espaço para muitos talentos locais

Por Patricia Cassese
Publicado em 17 de setembro de 2020 | 03:00
 
 
 
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Na semana em que os 70 anos da televisão brasileira são lembrados, “a emissora dos mineiros”, claro, não poderia ficar fora do rol de homenagens. Fundada em novembro de 1955 por Assis Chateaubriand (1892 - 1968), a TV Itacolomi, afiliada da Tupi, marcou história na capital mineira, deixando, no imaginário de quem viveu a época, memórias marcantes, sempre retomadas com nostalgia. Para se ter uma ideia da magnitude da entrada do canal em cena, a cerimônia de inauguração contou com as presenças de Juscelino Kubitschek (1902-1976, então presidente da República eleito, e do governador de Minas, Clóvis Salgado (1906-1978). A trajetória da emissora, cuja programação era veiculada no canal 4, se desenvolveu em dois endereços icônicos na cidade: de início, no Edifício Acaiaca e, a partir da década de 70, na avenida Assis Chateaubriand, no Floresta, no prédio que depois abrigou a TV Alterosa.
 
Pela Itacolomi passaram nomes que se tornaram referência em diversos campos. No das artes, gente como a atriz Wilma Henriques, apresentadora do programa feminino “Espelho”. Ou, ainda, Fernando Sasso (o autor do jargão "tá no filó!", que trabalhou por lá até 1977, como narrador e apresentador de programas de auditório, como o “Papo de Bola”.  E, ainda, Dirceu Pereira, Lady Francisco, Levy Freire, Décio Noviello, Vicente Prates, Elvécio Guimarães, Rogério Falabella e vários outros. O saudoso Elvécio Guimarães, por exemplo, exerceu a função de apresentador, ator, narrador e redator de novelas, e protagonizou o primeiro seriado da TV brasileira, "Noites Mineiras", de Lea Delba, um conto de época que retrata a Belo Horizonte do início do século XX.  "A classe artistica local foi muito prestigiada. Um tempo inesquecível, de uma efervescência poucas vezes vista", lembra o acordeonista, tecladista, compositor e arranjador Célio Balona.
 
“A Itacolomi foi um importante marco para o desenvolvimento das comunicações em Minas Gerais e exerceu grande influência sobre a vida cultural em Belo Horizonte, impulsionando o surgimento e o crescimento de diversos artistas mineiros”, confirma Moacir Ricoy Pena, coordenador do Museu da Imagem e do Som (MIS-BH), equipamento mantenedor de um acervo digno de nota da emissora, que foi tirada do ar em 18 de julho de 1980, quando a licença da TV Tupi foi cassada. 
 
Hoje com 80 anos, Célio Balona tem muita história para contar. A via de entrada do músico na Itacolomi se deu quando ele, então com 16 anos, soube que a emissora estava procurando artistas para preencher sua grade na área musical. Assim, se inscreveu no programa “Confiança no Sucesso”, que caçava talentos. “Fui classificado e depois contratado para atuar nos programas musicais de lá”, recorda ele. Logo, passou a ocupar a faixa das 15h às 15h30 do programa “A Tarde É Nossa”, apresentado por Danilo Vale. Ressalve-se que, a essa altura, Balona já se apresentava com outros músicos, formando o Célio Balona e Seu Conjunto, no quadro "Balona Bem Bolado". Num crescente, o acordeonista acabou ganhando seu próprio programa, “Balona É o Sucesso”, veiculado aos sábados. Ele se lembra em particular de uma gravação feita na pista do aeroporto da Pampulha, com a Esquadrilha da Fumaça sobrevoando. “Foi antológico”, recorda Clóvis Prates, diretor da empreitada. “Ele lá, no meio da pista, tocando ‘Wave’, de Tom Jobim”.
 
Balona e Prates só lamentam que não existam registros do feito. “Assim que o programa passava, como a fita era muito cara, gravavam outro por cima”, explica Balona. “Não ter esses registros é uma das grandes frustrações que tenho na vida”, endossa Prates, que, vale dizer, tal como o amigo, entrou na emissora adolescente: com 16 anos. "Fiz o caminho contrário ao da maioria. Comecei como ator, ou seja, na frente das câmeras, mas meu sonho sempre foi ir para trás delas", explica ele, que passou por todas as funções (mais tarde, Prates trabalhou em outras emissoras, em particular, a Globo, tendo inclusive passado um bom tempo na Itália, quando da implementação da TV Monte Carlo). 
 
Na verdade, embora tenham citado as fitas de videotape, ambos entraram na emissora ainda nos tempos do ao vivo.  "A gente ensaiava na véspera e depois, já no cenário. Mas o que acontecia de erro... E não tinha jeito, ia ao ar mesmo. Teve a vez que me deu um branco no meio da fala. Eu entrava declamando uma poesia. Aí, o jeito foi pular para o quadro seguinte. E tinha um teatro infantil, escrito e dirigido pelo (J.B) Bacalhau, que era português. Para uma das peças, a gente teve até aula de esgrima, um capitão da Polícia Militar dava aula. Era muito divertido, a gente esgrimava mesmo, eu e o Rogério Falabella. Aliás, uma vez, ele acabou atravessando (com a espada) uma parede de cenário. Mas, enfim, casos assim, há uma porção. No entanto, acabam sendo quase irrelevantes diante daquilo que verdadeiramente se sobressai nesta história, que é a importância que a Itacolomi teve na vida da cidade, o seu pioneirismo, pontua Clóvis Prates. 
Instado a recorrer ao baú particular de memórias, Balona lembra da modelo que, ao anunciar ao vivo a promoção de geladeiras na (loja de departamentos) Bemoreira, foi abrir a porta do eletrodoméstico e esta travou. "Teve uma vez também que o cenário caiu em cima da garota propaganda. Isso não tinha como prever, tudo podia acontecer ali, na hora". Já na época do videotape, de certa feita, como Balona gravava na sexta à noite o programa que era levado ao ar no sábado, um episódio bem curioso se sucedeu. "Num sábado, a gente viajou para Governador Valadares, e fomos jantar num restaurante, que, por acaso, estava com a TV ligada, sintonizada no programa. Quando as pessoas passaram a perceber que estávamos na tela e, 'ao mesmo tempo', ali, começou um burburinho. Logo, o lugar começou a encher de gente. Perguntavam: 'como pode acontecer isso, vocês aqui e na TV?' (risos). O lugar lotou, ficou gente até na rua comentando: 'Olha, os caras estão aí'", gargalha. 
 
Havia também as serenatas presenciais diante da casa de telespectadores sorteados na atração. "O que reunia de gente... É que a gente sorteava e revelava o nome no programa, assim como os últimos números do telefone. Então, a pessoa já sabia (da serenata). E, lógico, o sorteado acabava avisando muita gente, então, quando a gente chegava, já estava lotado de gente". Prates também conta do dia em que um burrinho teve subir no elevador do Acaiaca, para uma encenação da vida de Jesus Cristo. Aliás, algumas das encenações eram apresentadas no Teleteatro Lourdes, que tinha esse nome por ser patrocinado pela Perfumaria Lourdes - quem viveu a época sabe, as lojas eram um must na cidade.
 
Vale dizer que, além dos artistas locais, muitas estrelas da Tupi, já com o advento do videotape, passaram a vir para Belo Horizonte, se apresentar por aqui. Gente como Flávio Cavalcanti ou Chico Anysio. "A questão do videotape, era curioso. Muitas vezes, a exibição dos programas e novelas não era simultânea em todo o país. Geralmente, passava  na Tupi no Rio, depois ia para São Paulo, depois outros estados, como Bahia, Rio Grande do Sul... Ou seja, fazia um circuito", rememora Prates. Um efeito colateral danoso foi que isso acabou miando a produção local. "A verdade é que, aqui, os recursos sempre foram muito menores que aqueles que as praças Rio e São Paulo contavam,  então, era inevitável que o público começasse a comparar (não os talentos, mas a produção) e as de fora, a tomar lugar dos locais. E quando veio a rede, possibilitando fazer a conexão entre as cidades (ou seja, exibindo as atrações para todas as praças em tempo real), isso eliminou a produção local por um bom período. Hoje está voltando, na verdade, tem emissoras que têm até mais atrações locais que exibições de produções de outras praças, pois já´se entendeu a importância de estabelecer um elo com a comunidade", explana Prates. 
 
Mesmo com esse porém, foram tantos bons momentos e tanta repercussão na vida da população belo-horizontina que, mesmo já não estando mais na Itacolomi em 1970, ele foi para a Bahia, implantar a TV Itapuã), quando o fim da emissora foi anunciado, Prates nem ficou assim, tão chocado de imediato. “Porque, na verdade, achei que alguns dias depois voltaria. Infelizmente, não foi o que aconteceu”, lastima.
 
Balona ficou por lá até 1974. "Foi maravilhoso, mas saí pelo seguinte: a programação já tinha começado a se modificar, já havia programas transmitidos diretamente do Rio. E também pela minha vida profissional, pelas solicitações para tocar, comecei a viajar para outros países, como os EUA, enfim, não podia ficar muito amarrado. Mas foi um período que marcou a minha vida, uma época de muita alegria", faz questão de dizer o músico, que, numa exposição alusiva à emissora, feita pelo MIS/FMC, foi devidamente homenageado.
 
Objeto de pesquisa
Basta digitar TV Itacolomi num site de buscas, e pronto. Há trabalhos, sites, perfis que se dedicam a cultuar a memória da emissora. O aposentado Antonio Elizeu de Oliveira, 64, é um dos que têm um perfil dedicado à Itacolomi no Facebook. "Na verdade, fruto de um trabalho acadêmico Probic/PUC Minas. O perfil tem esse objetivo, divulgar essa televisão por cuja história me apaixonei".
 
Antonio conta que foi telespectador assíduo da emissora. "Iinicialmente 'tele-vizinho'", diz. E explica: "Pouquíssimas famílias à época tinham condições para adquirir um aparelho de televisão, mas como eram tempos de menos egoísmo, quem tinha chamava os vizinhos desprovidos de um aparelho, para assistir na casa deles. Em 1965, meu pai conseguiu comprar um aparelho de segunda mão". 
 
Para o pesquisador, a importância da TV Itacolomi na história da televisão é "imensurável, sem limites, mostrando a paulistas e fluminenses que os mineiros também existiam,  quebrando a hegemonia daqueles dois estados". "A emissora foi um dos pilares da televisão brasileira,  conforme título artigo acadêmico de minha autoria, publicado no Intercom Sudeste, realizado em Ouro Preto, em 2012".
 
Acervo resguarda histórias da emissora
Hoje, mais de 8.500 imagens de programas e de bastidores dos primeiros anos da Itacolomi estão sob a tutela do Museu da Imagem e do Som (MIS-BH). “Também abrigamos um importante conjunto de entrevistas com diretores, artistas, apresentadores, jornalistas, técnicos e equipe de produção, que narram sua história na emissora, além de suvenires, como um troféu de um indiozinho, que era a mascote da Tupi, da qual a emissora mineira era associada”, conta Moacir Ricoy Pena, coordenador do MIS. 
Em 2018,  o MIS sediou a exposição “TV Itacolomi: A Pioneira de Minas” utilizando parte desse acervo. “O objetivo era permitir uma imersão nos primórdios da TV, quando não existe a possibilidade de gravar os programas e tudo era feito ao vivo, inclusive as propagandas. Numa época em que a TV era em preto e branco e a programação cobria poucas horas”, situa.
 
Por ora, o MIS encontra-se fechado, em atendimento ao decreto municipal que determinou a interrupção temporária das atividades dos espaços culturais em função da pandemia da Covid-19. A reabertura dos espaços museais da cidade está no planejamento de flexibilização da prefeitura. Segundo a assessoria de comunicação da Fundação Municipal de Cultura (FMC),  um protocolo foi elaborado por um grupo de trabalho, mas, evidentemente, ainda pode passar por modificações. Mesmo assim, Marcos pontua: "Passados 70 anos da TV no Brasil e quase 65 da inauguração da Itacolomi, a televisão hoje vivencia grandes mudanças em razão da popularização dos aparelhos celulares e das novas formas de disseminação de informação e entretenimento. Por isso, após a reabertura dos museus, convidamos todos a conhecer esse acervo para fazer uma reflexão sobre aquele momento de pioneirismo, no qual fazer e ver TV em Belo Horizonte eram de um ineditismo completo".
 
Relembre alguns dos programas de auditório da TV Itacolomi que foram reverenciados na exposição do Museu da Imagem e do Som:
 
"Mineiros frente a frente": Comandado por Fernando Sasso, o programa era uma gincana entre cidades mineiras e teve grande êxito na TV Itacolomi na década de 1970.  "Era um sucesso, uma audiência absurda", conta Célio Balona.
 
"Seu saber é pra valer": programa de perguntas e respostas apresentado por Isaias Lanski. A disputa acontecia entre escolas de Belo Horizonte e mobilizava um grande número de estudantes nos anos 1970.
 
"Corrida do Jaboti": com a apresentação de Roseli Mendes e Carlito Cerezo, o Palhaço Moleza, e o patrocínio dos Brinquedos Estrela, a “Corrida do Jaboti” era uma das principais atrações da TV Itacolomi em 1960. Em um painel como um jogo de tabuleiro, o ‘jaboti’ deveria percorrer 31 casas e ultrapassar diversos obstáculos e desafios até chegar ao grande prêmio.
 
"Brasa 4". Entre 1966 e 1972, a TV Itacolomi produziu e exibiu o programa "Brasa 4", atração que apresentou aos telespectadores mineiros jovens talentos da música. A atração era produzida nos mesmos moldes que o programa Jovem Guarda (1965-1968), que lançou Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa.

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