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Memória

Relembre a trajetória de dona Lucinha, defensora da gastronomia mineira

Gastrô resgata entrevista concedida em 2012 para rememorar feitos de Maria Lúcia Clementino Nunes, que morreu na terça-feira (9)

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Samuel Aguiar – 11.9.2012
Em registro de 2012, Maria Lúcia Clementino Nunes, a dona Lucinha, posa em frente ao seu primeiro restaurante de comida mineira, inaugurado em Belo Horizonte, no ano de 1990
PUBLICADO EM 14/04/19 - 03h00

“Todo dia, eu via as crianças escondendo coisas no mato e ficava me perguntando o que devia estar ali. Até que descobri que a nossa história estava sendo escondida, porque os meninos levavam angu, frango com quiabo, costelinha, que as mães preparavam (para merenda), só que tinham vergonha; vergonha das nossas coisas”. Maria Lúcia Clementino Nunes, a dona Lucinha, que morreu aos 86 anos na última terça-feira, em Belo Horizonte, de causas naturais, costumava contar essa história para explicar quando sentiu reforçado em si o desejo de se engajar pela valorização da comida mineira – após o episódio, ela, a professora, convidou os pais das crianças para uma conversa e serviu um banquete com os pratos. 

Dona Lucinha era mais que proprietária de uma rede de restaurantes que levam seu nome, com unidades em BH e São Paulo: era vanguardista por ter enxergado riqueza onde, antes, havia preconceito. Hoje, se a gastronomia do Estado é referência entre os turistas e coloca Minas em destaque no país, não é exagero dizer que os passos dela foram fundamentais. 

Pessoalmente, seu desafio, pode-se imaginar, foi enorme: ela vivia no Serro, cidade da região Central de Minas Gerais, onde nasceu e cresceu – um município que atualmente tem 24 mil habitantes, distante pouco mais de 230 km da capital mineira e que, à época, parecia mais longe, ante à ausência de boas estradas. Além disso, nem sequer havia completado a maioridade quando percebeu o chamado para resgate da cultura alimentar mineira. 

Lucinha queria ser médica como os avôs, mas, por ser mulher, teve que se contentar com o magistério, condição que a levou a esse encontro com o passado alimentar. “Minha avó disse que, para continuar estudando, eu ia ter que aprender receitas com as nossas vizinhas. Digo que fiz estágio com essas velhinhas”, contava. Assim, ela passou a adolescência descobrindo pratos tradicionais. “Quando vi, estava me tornando pesquisadora”, dizia.

Dona Lucinha nem pensava, porém, que seu trabalho a levaria a ser uma das representantes do Estado (que retratou o Brasil) na edição do Madrid Fusión em 2013, um dos principais festivais do mundo sobre temas da atualidade gastronômica mundial. “Ela foi a pessoa que transformou a cozinha mineira em algo profissional. Comigo, era extremamente doce e gentil. Eu sentia que ela me dava aval e acreditava no meu papel dentro da gastronomia e fora dela, porque, toda vez que me via, me abençoava muito”, relembra o chef Leonardo Paixão, que esteve ao seu lado no evento na Espanha.

Menos ainda imaginava dona Lucinha que publicaria um livro (“História da Arte da Cozinha Mineira”, em 2011, em parceria com a filha Márcia) que se tornaria referência sobre os hábitos alimentares mineiros e a levaria até a desfilar no Carnaval do Rio de Janeiro, em 2015, pela Salgueiro. Em seu currículo também constam viagens feitas como representante mineira a países como Estados Unidos e Itália.

Após o magistério, o que ela fez foi seguir o curso de sua vida. Casou-se com um primo e tornou-se mãe de 11 crianças. E as festas de família, claro, eram sempre cheias de pratos tradicionais rústicos. Ela também fazia quitandas em eventos. A promoção da culinária se acentuou ao virar primeira-dama e vereadora no Serro – o marido, José Marcílio, sempre a apoiou. Ao se tornar responsável por receber políticos que visitavam a região, passou a mostrar pratos como tropeiro e tutu, acompanhados de cachaça. “O povo da minha família falava que era tudo caipira, mas eu não tinha coragem de fazer de outra forma depois de ter me apegado, de ter aberto tantos baús”, contava.

Nos anos 70, um dos convidados de Lucinha, compreendendo a relevância de seu trabalho, a convidou para servir os pratos mineiros em um evento no hotel Hilton Brasilton, em Contagem. O almoço foi apresentado em “barraquinhas” e, depois do sucesso, a rede de hotéis a levou para promover festivais de comida mineira em outros Estados e até nos EUA e na Europa. 

Foi só depois disso que Lucinha viu a necessidade de abrir um restaurante na capital. Um dos filhos localizou o imóvel na rua Padre Odorico, no ano de 1990. “Eu chamei o rapaz no portão e disse que queria abrir um restaurante. Ele falou que mais de dez pessoas já o haviam procurado, mas que ele ia fechar comigo e me levou para conhecer a dona da casa, que, graças ao divino Espírito Santo e a Nossa Senhora do Rosário, me recebeu com todo carinho”, dizia. O restante virou história.

“Mais de três décadas após se dedicar ao ensino e à família, ela deixou a vocação falar mais alto e, não só se tornou uma chef de renome, mas uma empreendedora”, avalia Rodrigo Ferraz, diretor geral da Plataforma Fartura – Comidas do Brasil. 

Com tantos feitos, o legado de fomentar a comida mineira de raiz promete ser levado por muitas outras gerações. “Ela deixou o conhecimento de que a nossa cozinha é cheia de tradição. A base que ela deixou é a estrutura de onde eu parto. Ela construiu o nosso chão e nos deu confiança para seguir”, finaliza Paixão. (Com Lorena K. Martins)

Representantes reconhecem o seu legado na gastronomia

É quase unânime o reconhecimento entre os chefs mineiros de que dona Lucinha é um dos maiores nomes da cozinha no Estado, responsável por levar a nossa culinária para patamares além das montanhas. “O legado dela é muito forte. Foi ela quem iniciou esse trabalho de levar a nossa cozinha pra fora do Estado e também para fora do Brasil”, diz o renomado chef Ivo Faria, à frente do restaurante Vecchio Sogno e que também esteve ao lado dela durante o Madrid Fusión, em 2013, para representar a gastronomia mineira no maior evento do setor.

O chef Flavio Trombino, que também preserva a essência mineira em sua cozinha, no Xapuri, contou sobre a sua admiração pela cozinheira. “Ela deixou um legado profundo, essa vivência que ela passou para as filhas e para seus pares sempre permanecerá. Ela sempre foi uma pessoa muito generosa”, relembrou.

Já Rodrigo Ferraz, diretor geral da Plataforma Fartura – Comidas do Brasil, relembra também o seu trabalho além do forno e fogão. “Ela criou e manteve o Instituto Dona Lucinha para trabalhos sociais, construindo cozinhas e distribuindo sopas em comunidades carentes. Dona Lucinha foi uma cozinheira inigualável, mas, acima de tudo, uma grande pessoa”, contou. 

A nova safra da cozinha mineira também levará adiante as raízes plantadas pela matriarca. Um dos discípulos é o chef Leonardo Paixão, à frente dos estabelecimentos Glouton, Nico e Nicolau. “Me sinto parte da gastronomia mineira, do meu jeito, de uma forma mais nova, mas temos um alicerce muito forte para trabalhar e seguir sempre sob a proteção dela”, disse. (Lorena K. Martins)

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Hoje a cozinha mineira está de luto. A maior representante de nossas panelas, ícone de nossa gastronomia, nossa grande rainha, nos deixou. Serena, generosa, muito religiosa e gentil, Dona Lucinha era uma jóia de Minas Gerais. Nascida no Serro, mãe não somente de seus onze filhos mas de todos nós cozinheiros mineiros, dedicou sua vida a fazer, compreender e preservar a cozinha de origem, gerada nos primeiros anos dos setecentos nas Minas do Ouro e do Diamante. Hoje Bocuse, Robuchon e Bourdain lancham um cafezinho passado no filtro, um pãozinho de queijo quentinho, talvez broinha de fubá e um figo em calda... Descanse em paz, grande cozinheira!

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Dona Lucinha por dona Lucinha

“Sou uma caipira, não admito que me chamem de chef, porque eu não
crio. Sou cozinheira". 

“Fazia doces, tropeiro, tutu, e todo mundo achava corajoso. O povo da minha família falava: ‘isso é muito caipira!’.”

 “‘A professora come essas coisas da roça?’. Eu tirei isso da cabeça deles (dos pais dos alunos) e falei o que precisavam preservar.”

“Descobri como os escravos comiam, depois a tropa, aí desmembrei em comida do tropeiro e da fazenda: intuitivamente.”

Linha do tempo

1932. Nasce Maria Lúcia Clementino Nunes, no Serro, região Central de Minas. 

Anos 40. Adolescente, começa a pesquisar pratos típicos da culinária mineira por ordem de suas avós, como condição para continuar no magistério. 

Anos 50. Dá aulas em uma escola rural do Serro, onde também atua valorizando os pratos tradicionais. 

Anos 60 e 70. Trabalha como quitandeira e realizando eventos no Serro. Quando o marido elege-se prefeito, passa a receber autoridades com pratos como tutu e tropeiro. Um desses contatos a leva para realizar festivais internacionais. 

Anos 90. Inaugura seu primeiro restaurante, o Dona Lucinha, em Belo Horizonte, na rua Padre Odorico, no São Pedro. Abre também uma unidade na rua Sergipe, em BH, e outra na cidade de São Paulo. 

2011. Lança o livro “História da Arte da Cozinha Mineira” com uma de suas filhas, a historiadora Márcia Nunes. 

2013. É convidada como uma das representantes de Minas para o festival Madrid Fusión, onde recebe os que a cumprimentam com uma bênção (um sinal da cruz na testa).

2015. A Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro homenageia a culinária mineira a partir do livro de Márcia e Lucinha. Ela desfila em um carro dedicado a Nossa Senhora do Rosário. 

2019. Morre aos 86 anos em casa, de causas naturais. Ela havia sido diagnosticada, anos antes, com Alzheimer.

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