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Nada mudou, mas tudo mudou

Famílias de mortos em protestos vivem com a sensação de que foi tudo em vão

Nos últimos cinco anos, as passagens de ônibus continuaram aumentando, e os índices de popularidade dos governantes continuaram caindo. Enquanto no Brasil a sensação é de que pouca coisa mudou desde as manifestações de 2013, para as famílias das pessoas que morreram em movimentos por um país melhor, a vida nunca mais foi a mesma. Pelo menos dez mortes foram registradas em episódios relacionados aos protestos. Cinco anos depois, restam a dor pelas perdas e a sensação de que foram em vão. Entre as vítimas estão Douglas Henrique de Oliveira, que caiu de um viaduto durante um ato em Belo Horizonte, e o caminhoneiro Renato Kranlow, atingido por uma pedra ao passar por um bloqueio de trabalhadores no Rio Grande do Sul. Em 2018 a história se repetiu, e o caminhoneiro José Batistela foi morto em Rondônia durante a greve da categoria.

 

Em casa, a diarista Neide Maria Caetano de Oliveira, 48, guarda a foto de Douglas e o tênis vermelho usado só uma vez, no dia do protesto em que ele perdeu a vida. Ela lembra como se fosse ontem que tentou convencer o filho a não ir. “Ele estava de folga no trabalho porque era ponto facultativo, e os colegas ligaram chamando para ir à manifestação. Eu falei ‘Meu filho, não vai, nada vai mudar’. Mas ele dizia ‘Mãe, a gente tem que tentar um Brasil melhor’. Ele acreditava mesmo na mudança”, conta. “Mas não mudou nada. O preço das passagens aumentou não foi uma nem duas vezes, a corrupção continua, a Copa aconteceu. A única coisa que mudou foi a minha vida e a das outras pessoas que perderam os entes queridos”, diz.

 

Douglas morreu aos 21 anos, depois de cair do viaduto José Alencar, na região da Pampulha, na capital mineira, durante uma manifestação no dia 26 de junho. O acidente ocorreu próximo ao Mineirão, onde, naquele dia, a seleção brasileira venceu o Uruguai por 2 a 1 na Copa das Confederações, enquanto, do lado de fora, os gritos eram de “Não vai ter Copa”. Em uma de suas últimas publicações no Facebook, no dia 19, ele cumprimentou quem “estava lutando por um Brasil melhor”: “A hora é essa”.

 

Na família de Neide, existem “o antes e o depois de Douglas”. “Não tenho mais meu filho comigo falando que me ama, aquele abraço que ele me dava toda vez antes de sair de casa, o cheiro dele em mim. Nossos Natais não são mais os mesmos, as reuniões de família não são mais as mesmas. O Douglas tinha 21 anos, era cheio de vida, muito carinhoso com todo mundo. Ficou um vazio muito grande”, lamenta Neide. Ela conta que, no dia em que morreu, o filho havia comentado sobre o desejo de voltar a estudar para conseguir um serviço melhor – ele trabalhava em uma empresa de logística.

 

O inquérito sobre a morte de Douglas foi concluído pela Polícia Civil em dezembro de 2014 e não apontou culpados. “Eu não culpo ninguém, acho que o meu filho estava no lugar errado na hora errada”, afirma Neide.

 

Ainda assim, ela mantém a esperança de um país melhor. “Tem que continuar lutando, porque, se afrouxar, fica pior. Mas, infelizmente, não estou vendo muito resultado”, diz. “Eu vou vivendo um dia de cada vez. Minha fé em Deus e em Nossa Senhora é muito grande, e me agarro a ela. Tenho minha neta e minhas filhas, que são boas comigo como ele era, mas eu nunca mais fui uma pessoa feliz”, ressalta.

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Não mudou nada nem na saúde, nem na educação. Sinceramente, eu acho que essas pessoas morreram em vão.

Neide Oliveira, 48. Mãe de Douglas Henrique

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Não mudou nada nem na saúde, nem na educação. Sinceramente, eu acho que essas pessoas morreram em vão.

Neide Oliveira, 48. Mãe de Douglas Henrique

Trauma para uma vida toda

Na casa do caminhoneiro Renato Kranlow, 44, restaram, além do sofrimento pela perda de marido e pai, um monte de dívidas e o desejo de justiça. Ele morreu no dia 3 de julho de 2013, ao tentar passar por um bloqueio de manifestantes na BR–116, em Cristal, no Rio Grande do Sul, depois de ser atingido por uma pedrada. “Minha vida mudou completamente. Eu perdi os dois caminhões que ele havia comprado, estou cheia de dívidas, e o meu guri está tão revoltado que até hoje só pensa em se vingar”, conta a faxineira Loiva Kranlow, 48, viúva de Renato, com quem era casada havia 25 anos. Ninguém foi preso. “No Brasil, não mudou nem resolveu nada”, lamenta.

 

Cinco anos depois, outro caminhoneiro perdeu a vida durante um momento de luta, na greve dos caminhoneiros. José Batistela, 70, foi atingido por uma pedra, no último 30 de maio, ao deixar a BR–364, na cidade de Vilhena, em Rondônia. Ele estava parado na rodovia havia nove dias e saiu sob a promessa de escolta de policiais. “Ele não estava participando da greve, mas não era contra. Saiu de casa para fazer um dinheiro para o aniversário de 15 anos da minha irmã”, conta um dos três filhos do caminhoneiro, João Paulo Batistela, 17. “Quem colocava mantimento na mesa era o meu pai, e a gente está meio desorientado”, diz.

 

A sensação da morte “em vão” dificulta o processo de lidar com a perda, segundo o diretor da Associação Mineira de Psiquiatria, Maurício Rezende. “Com a morte de um ente querido em torno de uma causa, se essa causa tem desfecho satisfatório e traz uma consequência positiva, funciona como um alento e, naturalmente, a pessoa cria um mecanismo de defesa chamado “sublimação”, que faz com que ela suporte melhor a perda. Mas, se a causa não se realiza, esse sentimento gera manifestações opostas, de rebeldia e revolta”, explica. Segundo o médico, no entanto, há um limite. “Quando isso paralisa e prejudica a vida da pessoa, deve ser tratado”, pontua.

Saudade
“Eu acho que a manifestação valeu até o momento em que bandidos com máscaras usaram um movimento tão legítimo para causar toda aquela confusão, que terminou com a morte de um trabalhador que estava ali para ser os olhos da população. Não mudou nada no nosso país. A única mudança foi na minha família, que perdeu um inocente. Metade da nossa vida ficou em 2014, e o que a gente leva agora é saudade e esperança por justiça. Os dois acusados estão soltos, usando tornozeleira, e não tem previsão de ocorrer o júri popular. Nossa maior vitória é que eles sejam condenados pelo crime de homicídio.”
Vanessa Andrade, 33 Filha do cinegrafista Santiago Andrade, morto por um rojão durante protesto contra aumento da tarifa do transporte público no Rio, em fevereiro de 2014
Santiago Andrade

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Data de Publicação: 09/07/2018