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De Bandido a Herói

DE BANDIDO A HERÓI

Impacto da greve mudou para melhor a percepção que a sociedade tinha da categoria

Irresponsáveis, imprudentes no trânsito, usuários de drogas e sem instrução. Pelos olhos dos caminhoneiros, é assim que a maioria da população os enxerga. Ou, pelo menos, era assim em 2016, quando a Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou seu perfil dos caminhoneiros. Dos 1.066 motoristas ouvidos, apenas 12,6% se sentiam vistos como peças importantes da economia. Mas aí veio a greve que em apenas dez dias parou todo o país e comprovou que certo mesmo é slogan usado pela categoria: “Sem caminhão o Brasil não roda”. Com apoio da população, o caminhoneiro deixou para trás a imagem de bandido para virar herói na luta por um país melhor.

 

A CNT está pensando em atualizar o estudo, mas enquanto esses dados não vêm, a reportagem fez uma pesquisa qualitativa e perguntou, nas ruas, como a população enxerga o profissional da estrada. “Minha visão mudou muito. Depois da greve, eu vi que tudo depende deles e acho que precisam ser mais valorizados”, afirma a pesquisadora social Rafaela dos Santos Viana, 23.

 

Em relação ao levantamento feito há dois anos, a mudança é grande. Pela pesquisa de 2016, 44% dos caminhoneiros ouvidos acreditavam que a população os via como irresponsáveis, e 29,8% pensavam que a imagem era de imprudentes no trânsito.

 

“Muitos falam que nós somos irresponsáveis pelo fato de não entenderem o que é ser um caminhoneiro. A partir do momento em que o povo parou no posto de gasolina e viu a situação que nós estávamos passando, começou a entender mais a nossa vida. O povo viu que precisa do caminhoneiro”, afirma o caminhoneiro autônomo Júlio César de Almeida, 34, de Santa Catarina.

 

O caminhoneiro Sidney Araújo, 36, pensa que ainda exista preconceito, mas afirma que greve ajudou a mudar o olhar das pessoas. “É um primeiro passo para que as coisas mudem. Todo setor tem sua dificuldade, e alguns caminhoneiros também podem ter, na estrada. Eu acredito que é preciso um respeito maior”, ressalta Araújo, que é de Betim, região metropolitana de Belo Horizonte.

 

Para o presidente da Federação das Empresas Transportadoras de Cargas do Estado de Minas Gerais (Fetcemg), Vander Costa, se essa pesquisa fosse refeita agora já revelaria um novo olhar da população sobre a categoria. “Leite não nasce na padaria, ele vem de caminhão. Depois dessa greve, a população passou a dar mais valor e a entender melhor a importância econômica deles”, afirma Costa.

 

Dinaldo Albuquerque tem 64 anos e é caminhoneiro há 30. “Em toda profissão existe gente irresponsável. Na nossa não tem mais do que nas outras. Mas eu acho que, com a nossa força, deu para entender. Mas faltou um pouco mais de apoio. Se (as pessoas) tivessem ajudado mais, teria sido melhor, pois o caminhoneiro não fez tudo isso só em prol dele, fez em prol de todo mundo”, desabafa Albuquerque, que também é de Betim.

 

O especialista em mobilidade urbana e professor de arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Roberto Andrés afirma que a greve dos caminhoneiros pela redução do preço do diesel atraiu simpatia porque a população se identificou com um ponto básico: o aumento de preços. “A gasolina também subiu. Se não fosse isso, talvez o apoio não seria tanto”, avalia Andrés.

 

De acordo com a antropóloga e cientista social Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, a greve começou para baixar o diesel, mas escancarou a perda do poder de compra e uma precarização da vida que, na prática, não é só dos caminhoneiro. “Além do preço dos combustíveis, estava ali o sofrimento de uma classe precarizada, que não conseguia mais viver, se divertir, ter um churrasco com a família no domingo porque não sobrava dinheiro. É uma vida muito dura e sem o mínimo do prazer das redes de afeto, de amor e de descanso que os trabalhadores querem, precisam e merecem”, diz.

 

A mudança da percepção não foi só da sociedade, que abraçou o movimento. “Os caminhoneiros têm a sensação de que o país para sem eles e começam a se empoderar e se entender como sujeitos políticos capazes de mudar a realidade brasileira”, explica a socióloga.

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A gente mostrou para o país que, se o caminhoneiro parar, o país para. Quem fala que somos irresponsáveis não entende o que é ser caminhoneiro.

Júlio César Almeida (SC), caminhoneiro autônomo

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A gente mostrou para o país que, se o caminhoneiro parar, o país para. Quem fala que somos irresponsáveis não entende o que é ser caminhoneiro.

Júlio César Almeida (SC), caminhoneiro autônomo

Minha visão mudou muito. Depois da greve, vi que tudo depende deles e acho que precisam ser mais valorizados. Por mim, tinha durado mais.

Rafaela Viana (MG), pesquisadora social

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Minha visão mudou muito. Depois da greve, vi que tudo depende deles e acho que precisam ser mais valorizados. Por mim, tinha durado mais.

Rafaela Viana (MG), pesquisadora social

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Caminhoneiro é uma pessoa que carrega o país nas costas, caminhoneiro não fez (greve) só em prol dele, fez em prol de todo mundo. Nós merecemos nosso valor.

Dinaldo Albuquerque (MG), caminhoneiro autônomo

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Caminhoneiro é uma pessoa que carrega o país nas costas, caminhoneiro não fez (greve) só em prol dele, fez em prol de todo mundo. Nós merecemos nosso valor.

Dinaldo Albuquerque (MG), caminhoneiro autônomo

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Data de Publicação: 09/07/2018