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Lotação na pandemia | A Revolução do Trânsito

Lotação na pandemia

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Número de passageiros cai, mas medo cresce

Média de pessoas transportadas pelos ônibus em Belo Horizonte caiu de 51 para 37, mas a sensação de coletivos cheios continua, e a insatisfação na região metropolitana

Por Izabela Ferreira Alves, 
Queila Ariadne, Rafael Rocha e
Tatiana Lagôa

Passageiros reclamam que redução de frota e horários deixam ônibus mais cheios e se sentem mais inseguros em relação ao contágio - Foto: Flávio Tavares

Passageiros reclamam que redução de frota e horários deixam ônibus mais cheios e se sentem mais inseguros em relação ao contágio - Foto: Flávio Tavares

Antes da pandemia, cada viagem de ônibus dentro de Belo Horizonte levava, em média, 51 passageiros. Hoje em dia, com as medidas de restrição da circulação, esse número caiu para 37, segundo dados repassados pela BHTrans. No entanto, para quem está esperando nos pontos e enfrentando o transporte coletivo, a sensação vai na contramão dessas estatísticas. “Sempre foi cheio, é o cotidiano do belo-horizontino. Mas piorou na pandemia. Para mim, o pior problema é a redução dos horários, porque nós ficamos mais tempo esperando, mais gente fica aglomerada nas estações, e as linhas ficam cheias. Com certeza dá medo de pegar Covid, pois fica todo mundo respirando o mesmo ar”, afirma Denise Rocha, que costuma gastar uma hora e 20 minutos no seu percurso.  

No transporte metropolitano, essa insatisfação triplicou. Em 2019, de cada dez ligações recebidas no serviço de atendimento ao usuário do transporte metropolitano coordenado pela Secretaria de Infraestrutura e Mobilidade do governo de Minas (Seinfra), menos de três eram para reclamar (26%). No ano passado, as queixas passaram a ser 60% dos atendimentos. A insatisfação mais do que dobrou, enquanto o total de atendimentos caiu praticamente pela metade, de 41,8 mil para 21.940. Já neste ano, de janeiro a abril, a participação das reclamações saltou para 85%.  

Além da lotação e da demora, o medo da Covid tem acompanhado os passageiros. “Com certeza dá medo. Eles falam que a gente tem que ficar no mínimo a um metro de distância. Mas dentro do ônibus a gente não fica nem a 10 cm”, afirma o oficial de manutenção Ismael Dias Furtado, 56, que gasta entre uma hora e meia e duas horas no deslocamento de casa ao trabalho.  

Ismael Dias, 56, oficial de manutenção - Foto: Flávio Tavares

“Piorou com a pandemia, porque tiraram ônibus. É o principal lugar pra gente pegar (Covid).”

Ismael Dias, 56, oficial de manutenção - Foto: Flávio Tavares

“Antes da pandemia, minha linha passava de 4 em 4 minutos. Agora, só de meia em meia hora. É mais gente no ponto e mais gente dentro do ônibus. Tem risco sim, porque você fica em pé, pega na maçaneta que outro já pegou e não dá tempo de fazer a higienização adequada”, afirma Luciene Batista.  

O medo dos passageiros de uma possível contaminação por coronavírus dentro dos coletivos não é totalmente infundado. Não existe consenso entre especialistas sobre o tamanho do risco dentro do transporte, mas há indícios de que a viagem pode ser um foco importante de contaminação. Uma pesquisa publicada em setembro de 2020 mostrou que 35% dos passageiros de um ônibus que fazia excursão para um templo budista na China, em janeiro do ano passado, se contaminaram. Das 68 pessoas a bordo do veículo, apenas uma estava previamente contaminada.  

Luciene Batista,37, Técnica de enfermagem  - Foto: Flávio Tavares

“É mais gente no ponto e mais gente dentro do ônibus. Tem risco, sim, porque você fica em pé, pega na maçaneta que outro já pegou.”

Luciene Batista,37, Técnica de enfermagem - Foto: Flávio Tavares

Apesar de esse estudo indicar que o transporte público pode representar um risco na pandemia, a resposta sobre o tamanho do risco não é tão imediata. Um levantamento, feito em Medelín, na Colômbia, que levou em conta o percentual de infectados por Covid-19 na população local, estimou que, por lá, a probabilidade de haver contaminação no metrô é de um a cada 1.080 passageiros. Os pesquisadores então concluíram que os números são variáveis de acordo com a situação de cada local. Pesquisa feita pela Universidade Federal do Colorado, nos Estados Unidos, estimou em 1% o risco de infecção após três horas de viagem.  

Denise Rocha, 48, assistente social  - Foto: Flávio Tavares

“Com certeza é um lugar onde podemos pegar Covid. Todo mundo respira o mesmo ar, e nem todo mundo tem a mesma paciência.”

Denise Rocha, 48, assistente social - Foto: Flávio Tavares

Os diferentes resultados de pesquisas sobre o tema mostram a complexidade do assunto.  “Toda e qualquer aglomeração gera riscos, mas o impacto exato do transporte coletivo na transmissão da doença ainda é desconhecido. Sabemos que os ônibus são responsáveis por um nível de transmissão, mas não sabemos o quanto. Não sabemos sequer se os riscos são maiores do que o da exposição das pessoas nas próprias casas, onde permanecem sem máscara e com uma proximidade muito maior”, afirma o infectologista Carlos Starling, membro do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte. 

Ele explica que o maior problema em qualquer situação é o comportamento das pessoas. “É muito difícil mapearmos se a contaminação foi no transporte ou em uma festa, ou no bar, ou em reuniões familiares, ou no trabalho. Não há como proibir o transporte coletivo, porque é essencial, mas é possível controlar a pandemia com a adoção de medidas de proteção por parte das pessoas, como uso de máscara, álcool em gel e distanciamento. Dentro dos ônibus, as pessoas precisam falar o menos possível para não liberar perdigotos no ar e, claro, não sair de casa quando tiver sintomas gripais”, explica Starling. 

O que dizem as empresas sobre o risco?

O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram) e da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros no Estado de Minas Gerais (Fetram), Rubens Lessa,  afirma que tanto nos terminais, onde ainda existem  vigilantes, quanto nas estações do meio do caminho, onde a pessoa entra e está liberada para embarcar, não existem instrumento para impedir a entrada nos ônibus.  

“As pessoas deviam manter a distância e respeitar a ordem de chegada. Mas querem entrar todos no primeiro ônibus que chega. Mesmo que outro vá chegar em cinco, dez minutos. As pessoas não respeitam os limites, é uma questão cultural”, analisa.  

“Outro ponto é que se as reclamações forem baseadas no fato que, até a primeira reabertura (flexibilização), as empresas não podiam transportar passageiros em pé, as pessoas vão reclamar mesmo e considerar lotado para o período de pandemia, porque nossa frota foi dimensionada para atender à demanda no limite do pico, que prevê até 6,5 passageiros por metro quadrado, isso dá 144 passageiros no carro articulado na hora de pico, são poucos locais assentados. De repente, só podíamos transportar os 28 assentados. De forma alguma tínhamos frota para atender isso”, avalia Lessa. 

Doutor em arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador da área de grandes projetos urbanos, Daniel de Freitas, chama a tenção para o fato de que, no início da pandemia, a menor circulação de carros e menos poluição deixou claro como a mobilidade afeta a qualidade dos espaços urbanos.  

Em seguida, uma preocupação mais perversa foi exposta pela Covid-19: a aglomeração de quem depende do transporte coletivo, e como ela havia sido naturalizada. “Se não fosse a pandemia, o ônibus lotado não causaria mais espanto nem mobilização das esferas competentes. O coletivo cheio escancara a desigualdade social com relação ao acesso a mobilidade. E é interessante notar que a redução da frota, adotada num primeiro momento, não foi para diminuir o risco de adoecimento dos motoristas nem o fluxo do deslocamento de pessoas, mas para diminuir o prejuízo do ônibus andar vazio”, lamenta Freitas. 

 

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Núcleo de Projetos EspeciaisJornal O TEMPO - Maio/2021