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A pior linha de todas | A Revolução do Trânsito

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3787: viagem no pior ônibus da Grande BH dura até 3 horas

Poucos horários, passagem cara, veículos sujos e falta de pontualidade são reclamações dos passageiros

Por Izabela Ferreira Alves, 
Queila Ariadne, Rafael Rocha e
Tatiana Lagôa

Chacoalhar durante quase três horas dentro de um ônibus empoeirado, malcuidado, não raro de pé e pagar por isso R$ 10,85, são apenas alguns perrengues enfileirados na maratona que o passageiro da linha 3787 precisa enfrentar. Com cerca de 56 km, o exaustivo trajeto se inicia no centro de Belo Horizonte, avança com lentidão até a Cidade Industrial, em Contagem, segue pelo Barreiro, atravessa Ibirité, Sarzedo e Mário Campos até, finalmente, chegar a Conceição de Itaguá, distrito de Brumadinho. Entre as 550 linhas do transporte coletivo metropolitano, ocupa o desonroso primeiro lugar no ranking dos ônibus com maiores índices de reclamações em 2020. 

“É uma tortura”, resume Leandro Ferreira, um pintor civil que há seis anos pega o ônibus às 5h45 e gasta em média duas horas no trajeto da volta do trabalho – o tempo na ida é um pouco menor. “A maioria aqui atua em serviço braçal ou trabalha em pé, então a gente chega em casa cansadérrimo. Desrespeito total”, completa. 

Leandro Ferreira, pintor - Foto: Flávio Tavares

“Desrespeito total”

Leandro Ferreira, pintor - Foto: Flávio Tavares

A reportagem de O TEMPO fez uma viagem na linha em um dia de semana e ouviu um rosário de reclamações. Ao longo do sacolejante percurso foram necessárias duas horas e 40 minutos para finalizar a viagem, que corta cinco municípios. O prazo seria suficiente para uma ida de carro até Barbacena, no Campo das Vertentes, a 146 km de Belo Horizonte, ou a Itapecerica, na região Centro-Oeste, a 138 km da capital. 

Nilza Luiz - Foto: Flávio Tavares

“É muito cansativo, mas não temos outra opção”, desabafa Nilza Luiz - Foto: Flávio Tavares

A viagem 

A tarde está caindo. Sentada e vendo o ônibus ainda com lugares vagos, a recepcionista Nilza Luiz sabe que somente o passageiro novato acha que a viagem será serena. A lotação começa a ficar mais encorpada na Cidade Industrial. Antes, o entroncamento com o Anel Rodoviário forma um nó que paralisa totalmente o trânsito. Pouco mais de uma hora depois de sair da praça Sete, já no Barreiro, novas remessas de passageiros formam a camada que faltava para o coletivo vermelho se empapuçar. “O ônibus é um lixo”, reprova a moradora de Sarzedo, com a experiência de quem usa o péssimo serviço há 22 anos. Além do receio de infecção por Covid-19, a pandemia trouxe outra inovação aos passageiros do 3787 - Conceição de Itaguá/Belo Horizonte. A linha passou por corte nos horários, e agora as viagens ocorrem com intervalo médio de uma hora. O trajeto de ida e volta do trabalho para casa ficou ainda mais duro. “É muito cansativo, mas não temos outra opção”, desabafa Nilza. Mesmo com a trepidação, alguns passageiros dormem, outros veem vídeos no celular. 

Marcelo Martins - Foto: Flávio Tavares

“Os veículos são antigos, de condições muito precárias”, reclama Marcelo Martins - Foto: Flávio Tavares

Quanto mais o ônibus balança, mais os passageiros tentam se equilibrar em barras de apoio que podem estar repletas de poeira ou graxa. “Os veículos são antigos, de condições muito precárias. Olha aquela catraca”, indica o supervisor de departamento pessoal Marcelo Martins. Naquele dia, o ônibus, de 2010, parecia bem desgastado. A roleta apontada por ele é um modelo duplo e ostensivo, que se assemelha a uma grade e aperta o usuário que leva consigo bolsa, mochila ou sacola. Até mesmo o motorista, que pediu para não ser identificado, concordava que a situação era indigna. “Deveria ter mais ônibus rodando”, admitiu o funcionário. 

Reclamações subiram 575% em 2021 

Os canais de atendimento ao usuário, segundo os passageiros, são ineficientes. A linha 3787 recebeu 122 reclamações durante todo o ano passado. O ano virou e o balanço piorou. De janeiro a abril de 2021, os reclames já pularam inacreditáveis 575%, passando de 12 para 81 no comparativo do mesmo período. O auxiliar fiscal Raphael Henrique é autor de alguns. Ele coleciona números de protocolo que não se traduzem em melhorias no serviço. Já registrou mais de 30 reclamações em apenas um dia. “Você paga tarifa cara, fica em pé e eles ainda não cumprem os horários. Diminuíram os ônibus na pandemia, e no fim de semana é ainda pior. É lamentável”, reivindica. 

Em 2020, a linha 3787 recebeu 122 reclamações; de janeiro a abril deste ano, já foram 81 - Foto: Flávio Tavares

Em 2020, a linha 3787 recebeu 122 reclamações; de janeiro a abril deste ano, já foram 81 - Foto: Flávio Tavares

Ter problemas no trabalho por causa dos atrasos é algo recorrente na vida da turma do 3787. “Você fica tenso por não saber se vai chegar no horário”, diz Martins. Com o serralheiro Hallan Ludwig, morador de Mário Campos que já ficou duas horas esperando o veículo chegar, a falta de pontualidade do coletivo por pouco não o deixou na pior. “Perdi meu dia de trabalho e quase fiquei sem emprego por causa disso”, protesta. 

Hallan Ludwing quase perdeu o emprego por atrasos da linha - Foto: Flávio Tavares

Hallan Ludwing quase perdeu o emprego por atrasos da linha - Foto: Flávio Tavares

A viagem prossegue sem espaços livres - todos assentos ocupados, várias pessoas em pé. “Aqui sempre cabe mais um monte”, brinca Ferreira, o serralheiro. Todos usavam máscara, mas não é raro aparecer alguém sem o item de segurança e virar confusão, segundo o motorista. “Nessa época de Covid, dá pânico e angústia”, diz, por telefone, a servidora pública Juliana Maciel, que se tornou usuária esporádica da linha após aderir ao trabalho remoto. 

Dezenas de igrejas evangélicas margeiam a estrada e emolduram a paisagem noturna. Chega o bairro Funil, em Mário Campos, e o sinal de celular desaparece. O céu fica escuro e a estrada também - fruto da parca iluminação -, mas o ponto de Gislaine ainda não chegou. Tímida, ela é a última a abandonar o ônibus e diz que não tem tempo de falar com a reportagem. Dali a poucas horas, por volta das 5h da manhã, ela estará de volta. 

Raphael Henrique já registrou mais de 30 reclamações em apenas um dia - Foto: Flávio Tavares

Raphael Henrique já registrou mais de 30 reclamações em apenas um dia - Foto: Flávio Tavares

O outro lado 

O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros Metropolitano (Sintram) informou que a roleta dupla inibe a evasão nos coletivos. Todos os carros em circulação na linha 3787 estão com as revisões em dia, segundo a entidade, e a idade da frota está em conformidade com o estipulado em contrato. A limpeza é feita diariamente por equipe especializada. Sobre o alto índice de reclamações, o Sintram afirmou que grande parte dos registros foi feito por uma única pessoa, e que a quantidade de queixas não corresponde ao número real de reclamantes. 

 

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Núcleo de Projetos EspeciaisJornal O TEMPO - Maio/2021