Em meio a um grande bosque, com plantas raras de vários lugares do mundo, surge o quarto todo vermelho de Cildo Meireles, as belezas das pinturas e da arquitetura da galeria Adriana Varejão e as famosas edificações de cores vibrantes ao ar livre criadas pelo artista Hélio Oiticica. Há dez anos a mistura da natureza exuberante com as obras de renomados artistas encanta quem visita o Instituto Inhotim.

O parque, que começou em um espaço de 13 hectares, hoje, ocupa uma área dez vezes maior, com um acervo de 1.300 obras, e integra o circuito global da arte contemporânea, recebendo turistas do mundo todo.

Para comemorar uma década do espaço, a reportagem de O TEMPO traz as histórias de quem integra o Inhotim e da botânica que compõe o cenário, mostrando ainda, pelos olhos sem vícios de três estudantes, os caminhos possíveis.

Museu de grandes novidades

Por: Juliana Baeta


“Cada lugar tem sua beleza individual, mas aqui a boniteza é impressionante”, diz a enfermeira pernambucana Isolda Prado, 55, enquanto contempla um enorme trator coberto por lama e ligado a um tronco de árvore pintado de branco, uma das cerca de 1.300 obras do Inhotim — nesse caso, “Da Lama Lâmina” (2009), de Matthew Barney. Isolda está entre os 2,5 milhões de visitantes que já passaram pelo parque nos últimos dez anos. As opiniões de quem visita o local pela primeira vez, ou mesmo pela décima, geralmente se dividem entre a exaltação à natureza plena e a contemplação da arte. Mas todas elas são unânimes, como bem lembra Isolda, em relação à boniteza de tudo isso junto ao mesmo tempo.

A arte contemporânea integrada à natureza chama atenção de turistas de todas as partes do país e do mundo. Do total de visitas que o parque recebeu em seus dez anos de existência, os turistas estrangeiros correspondem a 13,6% do público. Uma delas é a alemã Caroline Pfeiffer, 30, curadora de arte. “É minha primeira vez no Inhotim e fui surpreendida com tanta beleza. É como estar no paraíso. Pensando na arte integrada à natureza, nas pessoas andando por aqui, nos caminhos que percorremos, ficamos tão pequenos”, reflete.



Mesmo o encarregado de acervo artístico Elton Damasceno, 35, que literalmente morou no Inhotim, parece ainda não ter se acostumado. Há mais de dez anos, os caminhos citados por Caroline são os mesmos que formam o fio condutor na vida de Elton, como ele mesmo define. Ali ele aprendeu inglês e espanhol, aperfeiçoou seu trabalho e viu crescer o que era, em 2006, um “menino” de 13 hectares (ha) e que hoje, com 140 ha, se viu forçado a deixar de lado a denominação de museu para ganhar status de parque.

Quando ainda trabalhava e morava em Belo Horizonte, Damasceno recebeu o convite que mudaria sua vida. “Eu trabalhava com escultura de festa infantil. Fizemos um modelo para a primeira obra, ‘Rodoviária de Brumadinho’ (John Ahearn e Rigoberto Torres, 2005), apresentamos para a gestão na época, que gostou, e eu vim trabalhar aqui. Passado um ano, o Bernardo (Paz, idealizador do parque) deu um jeito de me instalar aqui, e assim foi por oito anos. Imagina morar aqui. Essa paz, essa tranquilidade, sem barulho de trânsito, de som”, lembra.


Hoje, já morando no centro de Brumadinho, ele se lembra de quando teve seu primeiro contato com artistas como John e Rigoberto, os autores de “Rodoviária de Brumadinho”. “Um norte-americano e um porto-riquenho, e eu não falava a língua de nenhum dos dois. Nossa comunicação dependia de um tradutor, que nem sempre estava ao lado, então eu comprei aqueles fascículos de revista que vinham com um DVD e comecei a estudar inglês e espanhol. Estudava à noite e conversava com eles durante o dia. O John começou até a fazer uma hora por dia de aulinha de conversação comigo. Depois de um ano, já não era necessário a presença de um tradutor”, revelou Elton Damasceno.

“Rodoviária de Brumadinho”, primeira produção do parque e da relação de Damasceno com o Inhotim, é uma história à parte. “Todas essas pessoas que aparecem na obra são pessoas reais, de Brumadinho. Os moldes são feitos a partir dos rostos de pessoas que passavam na rodoviária e eram convidadas pelos artistas ou se ofereciam. O senhor Moretti, aquele que está dançando forró, faleceu recentemente. Era o melhor dançarino daqui. Todas as moças queriam dançar com o senhor Moretti, ele era uma figura”, conta.

Com tanta memória, história pra contar é o que não falta. Nem mesmo sobre a própria percepção do que significa arte. “Não me considero um entendedor de arte, mas fui desenvolvendo esse interesse aqui. A partir disso, já comecei a visitar outros museus, a procurar informações sobre o assunto. Isso desperta uma coisa na gente, nos leva a buscar mais arte fora de casa. Do meu ponto de vista, nossa vivência, a história de cada um, sua bagagem está muito ligada a como você interage com a obra. Quando você reconhece algo no trabalho além da estética é interessante, porque isso diz algo sobre você. Você reconhece alguma coisa ali. Mas quando seu conhecimento não deixa ultrapassar a estética, o visual, você fica um pouco preso, recorre à pesquisa, lê a descrição da obra, e isso também faz parte do desenvolvimento do olhar para a arte”, explica Damasceno.


A possibilidade de vivenciar a arte que sobrou a Damasceno, faltou ao casal Carminha Morais e Vinícius Souza, ambos com 59 anos e moradores de Recife. Ele, advogado e ela, contadora de histórias, reservaram dois dias para conhecer o Inhotim, mas em meados do segundo dia perceberam que o tempo era insuficiente. “Achamos pouco, deveríamos ter separado pelo menos três dias pra conhecer direito, porque a arte precisa de contemplação, e a natureza também. Contemplar é diferente de ver, porque exige tempo e cuidado”, diz Carminha, que se encantou, também, com o empenho das pessoas que trabalham no espaço. “Todos que abordamos sabiam as histórias, os caminhos que procurávamos. É nossa primeira vez em Minas também e, visitando outros lugares do Estado, foi chocante saber que muita gente daqui nem sabe o que é o Inhotim”, afirma.

O companheiro completa: “O Inhotim é considerado um dos dez melhores museus do mundo, juntamente com o de Recife, o Instituto Ricardo Brennand, mas o brasileiro não presta muita atenção nisso, enquanto exalta grandes museus do exterior. Outra coisa interessante aqui é a diversidade cultural, com cinema, fotografia, arte moderna, instalações. Eu vou sair daqui extasiado”.

“E nas minhas histórias sempre vai ter um pouquinho daqui, porque a gente traz na bagagem as coisas que a gente vê”, finaliza Carminha.

Olhar sem vícios

Cada qual com uma câmera na mão e muitas expectativas, Luiza, 13, Ana Beatriz, 14, e Letícia, 15, de Ibirité, receberam a missão de filmar um pouco da visita. Elas são estudantes da Escola Municipal Madureira, uma das muitas escolas que excursionam ao local para visitação e atividades escolares. A partir de “Desvio para o Vermelho: Impregnação, Entorno, Desvio”, montagem de Cildo Meireles que faz parte do acervo permanente do Inhotim desde sua abertura para o público, elas conduzem o próprio registro.


Cultura que transborda

Por: Natália Oliveira



A fama internacional do Inhotim acabou lançando uma luz sobre Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, atraindo turistas de todos os continentes para a cidade de quase 40 mil habitantes. O crescimento rápido do parque fez com que a cidade também tivesse que criar políticas públicas para acompanhar a expansão do número de visitantes e atender bem as demandas dos turistas. Em contrapartida, o Inhotim realiza uma série de projetos em prol da comunidade de Brumadinho e arredores.

“O desafio da gestão pública e da comunidade é trabalhar para acompanhar esse crescimento. Eu tenho um olhar positivo de que o Inhotim transformou a vida não só de Brumadinho, como a da própria Belo Horizonte, já que o parque é um dos principais pontos turísticos do circuito cultural da cidade”, considera o turismólogo e secretário municipal de Turismo de Brumadinho, Rodolfo Lacerda.

O secretário explica que o Inhotim acabou fomentando a economia local, tanto na rede hoteleira, que foi estimulada a crescer e empregar mais e mais pessoas da comunidade, quanto no próprio Instituto, que tem como política empregar brumadinhenses.

Para adolescentes e jovens de Brumadinho, uma série de projetos são desenvolvidos com o intuito de agregar conhecimento a eles. Um dos projetos envolve uma parceria com as secretarias de Educação da cidade e de municípios do entorno para visitas de alunos e professores acompanhados de educadores do Inhotim, que explicam um pouco sobre o parque. De forma lúdica e interativa, os estudantes também aprendem sobre as questões ambientais.

Além disso, os alunos também têm acesso a um projeto de formação continuada para o desenvolvimento de um olhar crítico em relação à sociedade, criativo diante dos desafios diários e tolerante diante da diversidade. Há também uma escola de música que oferece ensino de instrumentos de cordas.

Para a população também são desenvolvidos projetos que buscam uma conscientização do uso dos recursos naturais do planeta e eventos que buscam dar visibilidade para temas relacionados a Brumadinho. “Criou-se uma dinâmica de interação também: o Inhotim é um espaço de pesquisa botânica e artes, de gestão de projetos, de condução de projetos das áreas culturais, e o benefício é muito satisfatório”, conclui Lacerda.


Um estado de espírito

O Inhotim nasceu de um sonho de Bernardo Paz, 67, empresário da área de mineração que decidiu usar o espaço de sua fazenda em Brumadinho para algo maior. Citado pelos funcionários como um “visionário”, ele provavelmente sabia, já naquela época, que “maior” significaria algo em crescimento constante, um corpo pulsante que nunca para, que tem a necessidade de se expandir e transcender qualquer planejamento, assim como a arte e a natureza.

Em conversa com O TEMPO, ele falou sobre as motivações que o levaram a fundar o Inhotim e como a sua percepção sobre a arte guiou este caminho nos últimos dez anos.

O TEMPO: Das obras que já passaram pelo Inhotim ou que ainda permanecem nele, alguma te marcou mais?
Bernardo Paz: As primeiras aquisições da coleção foram obras fundamentais para delinear as ideias norteadoras do Inhotim. Foram peças do Tunga, um dos maiores artistas contemporâneos, que faleceu em junho passado. Desde o primeiro momento, seu trabalho me impressionou absurdamente, é de uma potência incrível, representa a vida em todos os seus sentidos. Foi a partir das obras e do pensamento dele que vislumbramos o Inhotim, que tivemos a ideia de aproveitar a fazenda que eu tinha para algo muito maior. Para mim, a obra mais importante é essa que estamos construindo: o próprio Inhotim, um paradigma para o mundo. É um destino capaz de transformar por meio da beleza e da sensibilidade. As pessoas vêm de todos os lugares para conhecer esse paraíso do qual ouviram falar e querem ver com os próprios olhos. Foi justamente o olhar das pessoas que me fez perceber que tudo isso era possível. Você não imagina o que é enxergar a felicidade das crianças e dos adultos que frequentam o Inhotim toda semana e perceber a alegria que eles demonstram estando aqui.

OT: Houve alguma obra que você tentou trazer para o Inhotim e não conseguiu?
BP: Desde o inÍcio me cerquei de especialistas e pessoas inteligentes para me ajudar a construir esse acervo. Hoje, o Inhotim tem um grupo de curadores que roda o mundo para pensar e conhecer artistas. Nosso curador-chefe é o Allan Schwartzman, um grande conhecedor de arte. Temos o Jochen Volz, atualmente também curador da 32ª Bienal de São Paulo; a portuguesa Marta Mestre, que estudou anos na França e veio para o Brasil; e também a Maria Eugênia Salcedo, que foi gerente do Educativo do Inhotim e, agora, faz parte da curadoria. Não pretendemos comprar mais obras, nossa intenção é construí-las junto com os grandes artistas, trazendo-os aqui, mostrando a magia desse lugar e dando-lhes a oportunidade de se eternizarem com um pavilhão no Inhotim. Nosso papel é oferecer às pessoas o acesso à cultura.

OT: Nestes dez anos do Inhotim, que balanço você faz?
BP: O Inhotim vem transformando não só o Brasil, como o mundo. Primeiro, mostramos uma forma inovadora de expor a arte contemporânea, que deixou os diretores dos grandes museus do mundo de queixo caído, pois criamos uma nova maneira de experimentar a arte. Muitas obras que estão aqui não poderiam ser realizadas em nenhum outro lugar. Essa ideia de expor a arte com a natureza e com o paisagismo em espaços enormes é difícil de ocorrer em outro lugar do mundo. Inhotim se tornou um passeio mágico. As pessoas ficam fascinadas e não se cansam, passam dias e dias, e se espantam com a beleza. A arte pode ser mais bem-compreendida quando ela está localizada em um lugar onde você pode descansar a mente, fazer repousar o pensamento.

OT: Como mostra o crescimento gradual do espaço nesses últimos anos, é possível ainda prever mais crescimento e novidades para os próximos anos?
BP: De uma fazendinha, o Inhotim se transformou em 2.000 hectares de planos: novas galerias, teatros, hotéis, vilas autossustentáveis, longe das grandes multidões das cidades e em sintonia com a preservação ambiental. O Inhotim que estamos criando deixou de ser um museu ou um parque botânico para ser o que eu chamo de “estado de espírito”. Agora estamos buscando investidores e parceiros para realizar isso tudo. Temos projetos de diversos espaços, e mais encaminhados estão o hotel dentro do Inhotim, que agora terá a parceria do Txai, um resort incrível da Bahia; um prédio-obra do Olafur Eliasson; e o projeto de um espaço para duas obras fantásticas do Anish Kapoor. Em breve, para visitar tudo serão necessários mais de dez dias. O Inhotim se transformou em um destino, não é mais um lugar de visitação.

Quando a natureza vira arte

Natália Oliveira

A exuberância das espécies raras, das plantas ornamentais e das coleções de orquídeas e palmeiras transforma o jardim botânico do Instituto Inhotim em mais uma obra de arte do parque. A interação das galerias de renomados artistas com a natureza, espalhada pelos 140 hectares, é o traço que mais encanta os turistas que visitam o local. Essa beleza e cuidado com o verde fizeram com que o parque se tornasse, em 2010, integrante da Rede Nacional de Jardins Botânicos (RNJB).

“A gente tem a missão de sensibilizar o público sobre a importância das plantas para a nossa sociedade. A gente depende delas para tudo, elas fazem parte da nossa respiração, precisamos delas para beber água, nos alimentar, nos vestir e até na construção de moradia. Sem as plantas, nossa sociedade não seria como é hoje”, pondera o engenheiro agrônomo do Inhotim, Juliano Borin.

O Inhotim tem em seu acervo 5.000 espécies de plantas que contemplam 28% das famílias botânicas que existem no planeta. “A gente tem várias espécies que estão na lista de ameaçadas de extinção no mundo, como palmeiras, bromélias e orquídeas”, explica Borin. Algumas, de tão raras, precisam de um espaço especial, longe das intempéries e das interferências humanas, para crescerem. Para elas, há um viveiro onde os visitantes não têm acesso.

“A estufa não é aberta ao público justamente porque mantêm coleções com um rigor mais científico. Na segunda semana de todo mês, eu faço uma visita guiada em que um grupo restrito de pessoas tem acesso ao viveiro. Essas visitas também acontecem em datas comemorativas, como a Semana do Meio Ambiente, mas só nessas ocasiões é que preparamos a estufa para os visitantes”, destaca o engenheiro agrônomo.

É na estufa que as plantas que povoam o Jardim Botânico ganham vida. Por se tratar de uma área mais restrita, onde há maior controle de pragas e também de adubação, as espécies ficam na estufa desde sua germinação até começarem a crescer e ganhar força. É nesse ponto, então, que elas vão para o parque e passam a ser admiradas pelo público.

Nem todas as espécies ameaçadas ficam confinadas, algumas ficam expostas ao público, já que há mais exemplares delas no parque. “Têm vários cactos e palmeiras que estão em perigo de extinção, mas que ficam na área de visitação com total acesso do público, e não há problemas quanto a isso”, explica.

Ao todo, são 60 jardineiros que se dividem no cuidado com a estufa e com a implantação e a manutenção dos jardins. O Inhotim tem em seu acervo espécies do mundo inteiro, que são cultivadas em outros viveiros do Brasil e vêm para o parque. “Nós nunca importamos a planta viva, até porque não é permitido”, explica Borin.

Antes de o Inhotim ganhar o título de Jardim Botânico, várias plantas foram levadas para o parque, porém, após o título, foi realizado um plano de coleta. “No momento, estamos pleiteando novamente com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e, a partir desse plano, quando for aprovado, é que vamos poder coletar e trazer plantas para cá”, esclarece.

Disposição dos jardins

O engenheiro agrônomo explica que as plantas são separadas sempre de forma orgânica e espontânea e de modo que elas “conversem” com as obras que estão a seu redor. “Alguns artistas pedem plantas específicas para seu pavilhão. Quando isso acontece, um paisagista entra em cena e decide, junto com o artista, a melhor espécie para o local”, explica Borin.

A distribuição das plantas no espaço é feita respeitando as condições ambientais de sobrevivência de cada espécie em relação a exposição ao sol, se o ambiente ideal para ela é um lugar mais encharcado ou mais seco. “As suculentas, por exemplo, não gostam de muita água. Então, quando vamos plantar, fazemos um trabalho de drenagem na área e um tratamento específico de irrigação”, destaca o engenheiro.

Algumas plantas chamam mais atenção dos visitantes que outras. A flor-cadáver, por exemplo, quando está em floração, faz com que o número de visitantes do parque dobre. Outra planta muito procurada é a palmeira andante (socratea exorrhiza), que tem cerca de 25 raízes aéreas que parecem pernas. Além disso, o Orquidário, com 17 mil orquídeas, também é bastante procurado.

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