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Minas 300 anos

Capítulo 1:

Região Central

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Região Central

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As três capitais de Minas Gerais

Do ouro à modernidade da primeira capital planejada, a história de Mariana, Ouro Preto e Belo Horizonte

Fred Magno

Lucas Morais (textos)
Fred Magno (fotos)

A mãe de Minas

Nossa viagem pela história de Minas Gerais começa pela acolhedora Mariana, na região Central.  Fundada em 1696, 24 anos antes da separação das capitanias de Minas do Ouro e São Paulo, o então Arraial do Carmo atraía pessoas de todos os cantos do mundo em busca do ouro que acabava de ser descoberto e se tornou sede administrativa do lado mineiro da capitania.

“Mariana é a mãe de Minas, a primeira vila e capital do nosso Estado”, define o pesquisador da história da região Cristiano Casimiro dos Santos, após uma parada na praça Minas Gerais, que todos os anos recebe a celebração em que se transfere simbolicamente a capital do Estado para a cidade, na região Central. 

Por conta da exploração que crescia vertiginosamente, a coroa portuguesa determina a criação do quinto: de tudo que era extraído, 20% deveriam ser entregues ao rei. E foi dessa imposição que nasceu a primeira grande revolta que mudou o panorama na região. Com o rápido crescimento da atividade, o governador da capitania de São Paulo e Minas do Ouro é enviado para Mariana. A insatisfação com o alto imposto leva o povo a se armar e montar uma tropa com escravos, que vai em direção ao palácio do Conde de Assumar no arraial.

Em uma carta, diversas reivindicações são entregues. Como os dragões - exército da coroa portuguesa - eram insuficientes, o conde resolve aceitar os pedidos, o que fez com que os revoltosos voltassem para Vila Rica. No meio da festa de comemoração pela vitória, os soldados de Assumar surgem de relance e todos os líderes são presos. O principal, Felipe dos Santos, é amarrado em quatro cavalos bravos e aparece morto. 

Esse episódio fez o rei decidir separar a capitania. Era fundada Minas Gerais, em no dia 2 de dezembro de 1720, com Vila Rica sendo instituída a segunda capital das Gerais. Mesmo assim, a cidade Mariana nunca perdeu seu título de ‘berço’ para a criação do Estado.

Em 1711, recebeu a primeira Câmara de Vereadores da capitania Minas do Ouro. Segundo Santos, a grande mudança nos rumos da história de Mariana aconteceu em 1745, quando a Igreja Católica decidiu instalar no local a primeira arquidiocese do Estado.

“Com a vinda do bispo para cá – ele não viria para uma vila –, então eles elevaram o local à categoria de cidade, com o nome de Mariana, em homenagem à esposa de dom João V, dona Maria Ana de Áustria”, explica o professor.

Para que a alta hierarquia do clero ficasse bem instalada, o rei de Portugal enviou o engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim, que redesenhou toda a cidade.

Primeira vila e primeira capital de Minas Gerais, Mariana foi redesenhada para receber o clero português

Primeira vila e primeira capital de Minas Gerais, Mariana foi redesenhada para receber o clero português

“No traço, ele colocou três ruas principais e nove perpendiculares. E, a cada três esquinas, foi construída uma praça. Isso é muito interessante para a época, porque surgiu uma cidade organizada”, acrescenta o pesquisador.

Mariana passou a exercer um importante papel na educação. Em 1750, foi criada a primeira instituição de ensino superior de Minas, o Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte. “Tivemos também a primeira unidade de educação para mulheres, e todos os padres do Estado se formaram aqui entre 1750 e 1850”, completa.

Mina da Passagem

Foi também em Mariana que surgiu a primeira companhia para extrair ouro no Brasil, ainda em 1819. Ao contrário de todos os demais produtores da região, a Sociedade Mineralógica de Passagem não usava mão de obra escrava e contava com os maquinários mais desenvolvidos da época.

Engenheiro, o barão Eschwege veio para o Brasil a pedido da Coroa e iniciou pesquisas sobre os recursos minerais no país. “Ele se interessou pela área em Mariana e comprou várias pequenas minas para formar a empresa. Foi a primeira atividade minerária organizada de forma institucional no país”, explica Walter Rodrigues Filho, atual proprietário do espaço.

Não é possível estimar a extensão dos túneis das minas cavados a partir do século 19

Não é possível estimar a extensão dos túneis das minas cavados a partir do século 19

Anos mais tarde, a mina da Passagem foi comprada pelos ingleses, que instalaram a Ouro Preto Gold Mine of Brazil, que inclusive era listada na Bolsa de Valores de Londres. “Foi um período de grande prosperidade, e chegou a ser a mais importante mina de ouro do país. Ainda fornecia luz para a cidade de Mariana e era o principal motor econômico da região”, diz Rodrigues Filho.

A produção seguiu até 1979, quando a exploração foi encerrada por causa do esgotamento do ouro para dar lugar à atividade turística. Até hoje, a extensão total dos túneis, cavados a mais de 300 metros de profundidade e que chegam a Ouro Preto, é desconhecida.

"Cada dia, um novo descobrimento”

Ouro Preto recebe o título de Imperial Cidade em 1823 e torna-se capital da província de Minas Gerais após a Independência do Brasil

Ouro Preto recebe o título de Imperial Cidade em 1823 e torna-se capital da província de Minas Gerais após a Independência do Brasil

No mesmo dia em que as temperaturas batiam recordes em Minas Gerais, o guia de turismo Nelson Marcos da Silva, 69 (50 deles dedicados à profissão), aguardava desconfiado, como todo bom mineiro, sob o sol escaldante na praça Tiradentes, em Ouro Preto, na região Central de Minas. De cabelos grisalhos e passos vagarosos, ele, com alguns minutos de conversa, passou a mostrar a sabedoria sobre cada detalhe da cidade, que já foi capital do Estado. Na caminhada entre as ruas de pedra, cada casarão de estilo barroco levava a uma memória diferente. 

“Cada dia é um novo descobrimento”, conta Nelson, a caminho da “joia de Ouro Preto”, como ele carinhosamente apelidou a capela de Padre Faria, o templo mais antigo ainda de pé na cidade, disse ele. 

Antes, uma parada na casa do zelador Wilson Ferreira, 84, que cuida do espaço desde a década de 70. Nas mãos, uma longa chave de ferro que se encaixa na mesma fechadura original da capela, construída entre 1701 e 1710. 

Chave da fechadura original da capela de Padre Faria, a mais antiga de Ouro Preto

Chave da fechadura original da capela de Padre Faria, a mais antiga de Ouro Preto

Apesar da simplicidade da fachada, o templo esconde grandes riquezas. Assim que Wilson abriu a porta lateral, apareceu um lavabo, que funciona até hoje. “Como não existia água nas casas, colocavam chafarizes nas ruas, e o pessoal buscava o recurso. Essa torneira aqui (do lavabo) é a única original da cidade”, acrescenta o guia. Após uma pequena sala, uma abertura leva ao interior da capela. O altar esculpido em madeira é coberto pelos primeiros quilates de ouro extraídos da região.

Entusiasmado, Nelson apontava para a pintura do teto que atravessou os séculos. “Tanto essa quanto as obras nas laterais tem muita influência chinesa, de Macau. Havia um intercâmbio muito grande entre as colônias portuguesas”, revela.

Do lado de fora, mais uma descoberta: o sino trazido em 1750 de Portugal, também considerado o mais antigo de Ouro Preto. “Existe uma lenda de que ele tocou quando Tiradentes foi morto, em 1792”, acrescenta. Desde então, a relíquia saiu da capela só em duas ocasiões: para tocar na inauguração de Brasília, em 1960, e também na posse de Tancredo Neves, em 1985. “Só que dessa vez ele voltou sem ser usado”.

Guia em Ouro Preto há 50 anos, Nelson Marcos da Silva diz descobrir novas histórias a cada caminhada pela cidade

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Como surgiu o Estado

Como surgiu o Estado

Era dia de são João quando uma comitiva de exploradores chegou às serras de Ouro Preto para procurar ouro e índios que seriam escravizados.

Como surgiu o Estado

Ao chegarem à parte mais alta (pico do Itacolomi), eles acharam uma pedra que escondia em seu centro uma cor similar ao ouro.

Como surgiu o Estado

O material foi levado para análise, e o rei de Portugal, comunicado. A partir daí, todas as nações ficaram sabendo da raridade desse ouro.

Como surgiu o Estado

Ouro Preto se transforma no centro do mundo, e tudo que era moda na Europa também era moda aqui.

Como surgiu o Estado

Por conta da exploração crescente, a Coroa Portuguesa determina a criação do quinto: de tudo que era extraído, 20% deveria ser entregue ao rei.

Como surgiu o Estado

A insatisfação com o alto imposto leva o povo a se armar e montar uma tropa com escravizados, que vai em direção ao palácio do conde de Assumar.

Como surgiu o Estado

Em uma carta, diversas reivindicações são entregues. Como os dragões – exército da Coroa Portuguesa – eram insuficientes, o conde resolve aceitar os pedidos.

Como surgiu o Estado

Mas, durante a comemoração pela vitória, os soldados de Assumar surgem, e todos os líderes são presos. O principal, Felipe dos Santos, é amarrado em quatro cavalos bravos e aparece morto.

Como surgiu o Estado

Esse episódio fez o rei decidir separar a capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Era fundada Minas Gerais, em 2 de dezembro de 1720.

FONTE:
Margareth Monteiro, historiadora e diretora do Museu da Inconfidência

Entre o passado e a modernidade

Em novembro de 1889, foi proclamada a República no Brasil, um ano após a abolição do regime escravagista. E, com a chegada do novo tempo, também cresceu a vontade de romper qualquer ligação com o período imperial e de colônia. Para os políticos da época, a então capital Ouro Preto representava tudo isso, além de trazer dificuldades de expansão por conta do relevo acidentado.

O governo decidiu instituir, então, em 1894, uma comissão que seria responsável pela mudança da sede administrativa do Estado. Entre as cinco opções disponíveis, o então Arraial do Curral del Rey foi escolhido.

“O prazo para a entrega da nova estrutura seria de três anos. Todas as edificações do vilarejo, que ficavam no entorno da atual igreja da Boa Viagem, foram demolidas”, conta a historiadora Letícia Schirm, da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Restou apenas uma antiga fazenda, às margens do córrego do Leitão, que atualmente é o museu Abílio Barreto.

Chefiada pelo engenheiro Aarão Reis, a comissão entregou o projeto inovador que daria origem a Belo Horizonte. Em um traçado de ruas perpendiculares cortadas por avenidas diagonais e quarteirões de tamanho regular, a cidade ficou pronta em 12 de dezembro de 1897. Surgia a primeira capital planejada do país, com estruturas construídas do zero, sem qualquer lembrança do passado como arraial.

Obra do prédio que viria a abrigar a secretaria de Agricultura, no entorno da praça da Liberdade

Obra do prédio que viria a abrigar a secretaria de Agricultura, no entorno da praça da Liberdade

Encontro da mineiridade 

E é de um dos bairros mais tradicionais da cidade, o Santa Tereza, que o escritor Luis Góes sintetiza a capital: “Uma cidade que recebeu mineiros das mais diversas localidades, que se tornou um encontro de culturas e costumes do Estado”. Apaixonado pela história de BH, ele já lançou diversos livros, sendo um dos últimos sobre o bonde, que foi o principal transporte coletivo entre 1912 e 1963. “Muitos consideram esse período como os anos dourados de Belo Horizonte”, recorda.

Assim como foi rápida a construção da capital, o crescimento populacional também foi. Na década de 1900, eram 15 mil pessoas, número que saltou para 55 mil em 1920 e ultrapassou 200 mil em 1940. “Belo Horizonte foi projetada, segundo Aarão Reis, para que cem anos após a inauguração, em 1997, a cidade tivesse 200 mil pessoas. Quando chegamos a essa década, já existiam mais de 1 milhão de habitantes”, argumenta Góes.

Voltada para a inovação

Primeira capital planejada do Brasil, Belo Horizonte mescla modernidade e tradição

Primeira capital planejada do Brasil, Belo Horizonte mescla modernidade e tradição

Ao mesmo tempo em que a cidade carrega memórias da transformação histórica em Minas, Belo Horizonte se volta para o futuro. E é no coração da capital, na praça Sete, que um hub de inovação e economia criativa pretende impactar cada vez mais empreendedores e fortalecer a economia. Chamado de P7 Criativo, o espaço já está com as obras finalizadas e deve ser aberto no próximo ano, na antiga sede do Bemge. 

“A ideia é ter aqui as empresas âncoras, que vão catalisar os negócios. E que também sejam um ponto de encontro para ajudar a gerar novas ideias. Com isso, a economia cresce, gera emprego e atrai investimento para Minas”, garante o presidente da entidade, Marcelo Fonseca. Voltada para as mais diversas áreas, a economia criativa é a música, o audiovisual, as artes, a gastronomia, a tecnologia, a arquitetura e o design. “Todo mundo tem alguma coisa de economia criativa sem saber”.

Além disso, o edifício de 25 andares projetado por Oscar Niemeyer também vai abrir as portas para a população em geral, que vai poder visitar um memorial sobre a praça, uma biblioteca gratuita e um restaurante no topo do prédio. “Isso vai ajudar que as pessoas voltem a frequentar mais o centro da cidade, o que estimula o começo de uma revitalização. Os negócios vão querer abrir à noite para aproveitar esse fluxo de pessoas, então o centro vai sendo revitalizado e melhorado”, finalizou presidente do P7 Criativo, Marcelo Fonseca.