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Por Trás da Linha de Frente

Por Queila Ariadne. Fotos Daniel de Cerqueira.

A cada cem pacientes que tiveram Covid-19 em Minas Gerais, dois morreram. Se o percentual é pequeno, a quantidade de vidas não é. De março até o começo de setembro, mais de 6.000 pessoas se foram com a doença no Estado. Mas nenhum desses óbitos aconteceu por falta de atendimento. Pelo contrário. Até agora, dos cerca de 246 mil casos confirmados, cerca de 210 mil já se curaram pelas mãos e sob os olhos atentos de milhares de médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos. Olhos que viraram um potente instrumento de comunicação, já que o rosto está o tempo todo escondido.

Por trás de cada máscara, está um profissional de saúde. Mas também estão pais, mães, filhos, avôs, tios e amigos. Um verdadeiro batalhão que, desde o começo da pandemia, luta não só contra o coronavírus, mas também contra incertezas, medo, angústia, saudade, e até mesmo contra o preconceito. Histórias por trás da linha de frente, que, a cada segunda-feira, serão compartilhadas no portal O TEMPO, neste espaço criado especialmente para mostrar um pouco da rotina desses profissionais.

Só em MG Ícone Profissionais Infectados 678* Profissionais da Saúde Ícone Pacientes Recuperados 210.371 Pacientes Recuperados
Dados atualizados em 11/09/2020.
*Profissionais infectados somente na Rede Fhemig.

Além do vírus, profissionais da área da saúde enfrentam medo, angústia, saudade e preconceito

Além do vírus, médicos, enfermeiros e todos os profissionais que trabalham na área da saúde enfrentam medo, angústia, saudade e preconceito

Um ano inesquecível

Um ano nunca foi tão esperado por Leíse Santos como 2020. Quando ela marcou a data do seu casamento, para 12 de setembro, tinha certeza que esse ano seria inesquecível. “E será mesmo, mas não da forma como eu imaginei. Nem no meu pior pesadelo, pensei que seria dessa maneira. Quando a pandemia começou, achei que tudo ia passar rápido, nem sonhava que demoraria tanto. Mas, a cada dia, o número de casos aumenta”, conta a enfermeira  que, com sete anos de profissão, está desde março na linha de frente do combate à Covid-19, no CTI da Santa Casa-BH.

Aos 30 anos de idade e 7 de profissão, Leíse nunca passou por nada parecido. “Logo no começo, eu tinha muita insegurança. Não sabia se estava fazendo a paramentação corretamente, se eu estava mesmo me protegendo ou não. É luva, máscara, capote, óculos, sapato. Com o tempo, tudo isso foi virando rotina. Não levo nada disso para minha casa, pois moro com meus pais, idosos, e morro de medo de levar o vírus para eles”, afirma.

“Por trás da máscara, tem uma pessoa que sofre, que chora e fica triste. Mas também fica muito feliz quando um paciente sai bem do hospital”

O medo acompanha Leíse o tempo todo, mas também abre espaço para o alívio, quando ela vê um paciente sair bem e voltar para casa. “Existe muito cansaço e exaustão, porque eu lido com pacientes em estado crítico e isso exige uma demanda assistencial muito grande”, afirma.

Às vezes, Leíse fica pensando que um dia vai cruzar com um deles na rua e nem será reconhecida. “É que eles só veem a gente de máscara. Mas não tem problema, porque só de saber que ajudei alguém, eu fico muito satisfeita. Não vou me deixar abater, não vou me deixar vencer pelo cansaço. Fiz um juramento e estarei sempre ao lado os meus pacientes, lutando até o fim”, destaca a enfermeira.

“Por trás da máscara, tem uma pessoa que sofre, que chora e fica triste. Mas também fica muito feliz quando um paciente sai bem do hospital”, ressalta Leíse.

Sem ar

Todos os dias, a fisioterapeuta respiratória Juliana Farah cuida da respiração dos pacientes com Covid, no CTI da Santa Casa-BH, onde trabalha. Mas, recentemente, ela enfrentou uma situação que lhe tirou o ar: a irmã pegou Covid-19 e precisou se isolar para não contaminar a família. E Juliana, com seus 12 anos de experiência, não pode ajudar a irmã de perto.

“Eu sofri o que essas famílias sofrem todos os dias e vi o quanto é importante a gente estar perto. O quanto é importante as ações que são feitas no hospital, com vídeo-chamadas, para amenizar a distância e levar um pouco de tranquilidade”

“Moramos com nossos pais, que são idosos. Então, minha irmã foi para um flat. Na segunda noite, ela me ligou chorando, às 2h da madrugada, dizendo que estava com muita falta de ar, pedindo que eu chamasse uma ambulância. Fui dando instruções para que ela deitasse de bruços, que ajuda na respiração. Fui tentando acalmá-la, mas só Deus sabe o que eu passei. Naquele momento, eu senti na pele o que as famílias dos pacientes com Covid sentem, sem poder vê-los”, desabafa Juliana.

A irmã de Juliana não precisou ser hospitalizada e já se recuperou. Mas a fisioterapeuta jamais vai esquecer a sensação. “Eu sofri o que essas famílias sofrem todos os dias e vi o quanto é importante a gente está perto. O quanto é importante as ações que são feitas no hospital, com vídeo-chamadas, para amenizar a distância e levar um pouco de tranquilidade”, afirma.

Marcas profundas: no corpo e na alma

Os plantões são longos, às vezes, com mais de 24 horas. O cansaço é grande. A preocupação de levar o vírus para casa é constante. Mas para Juliana, nada se compara ao distanciamento imposto pela pandemia. “Eu sinto muita falta de muitas coisas, mas do que eu mais tenho saudade é de dar um abraço verdadeiro nos meus pais, nas minhas irmãs e nos meus amigos. Meu medo é que, quando tudo isso passar, as pessoas deixem de lado o afeto, o toque”, afirma a fisioterapeuta.

“A máscara aperta, dói, incomoda, deixa marcas físicas, mas é necessária. Mas, para o resto das nossas vidas, levaremos essas marcas no coração”

Por trás da máscara, Juliana carrega no rosto as feridas provocadas pela pressão do equipamento de proteção. No entanto, são outras marcas que a preocupam mais. “A máscara aperta, dói, incomoda, deixa marcas físicas, mas é necessária. Mas, para o resto das nossas vidas, levaremos essas marcas no coração”, desabafa Juliana.

Por Trás da Linha de Frente

Conteúdo do artigo dois

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“Não está sendo fácil”

Estresse não é novidade para a médica intensivista Letícia Machado, que tem 8 anos de profissão. Mesmo assim, a pandemia conseguiu deixar a rotina ainda mais desafiante. “A gente já lida com paciente grave diariamente, mas com a chegada de uma doença nova, tem sido mais pesado, porque vemos mudanças toda hora. Não está sendo fácil”, desabafa a médica do CTI do Hospital Lifecenter.

Como se não bastasse as incertezas que vieram junto com a Covid-19, o vírus trouxe um desgaste a mais para os médicos. “A rotina aumentou, o estresse também. Fica pesado para gente, que é da saúde, porque ficamos no meio de uma situação difícil, entre o paciente, que está sofrendo, sentindo falta da família, e a família, que não pode vê-lo”, conta a médica, que reza para que tudo passe logo e tanto ela, quanto os pacientes, possam ficar de novo perto dos familiares.

Desde março na linha de frente do combate à Covid-19, Letícia já carrega marcas no rosto, provocadas pela pressão da máscara, e nas mãos, machucadas pelo uso constante de álcool. “Mas nada se compara à falta que eu sinto da minha família.

Preconceito

O preconceito também está presente na jornada de quem trabalha em hospitais. “Existe sim. A gente sofre por estar atuando com Covid, não só por pessoas leigas, mas também por colegas que não estão atuando diretamente. Mas é compreensível, é uma fase e vai passar”, afirma Letícia.

A psicóloga Letícia Maroni trabalha diretamente o acompanhamento de familiares e pacientes com Covid, no Lifecenter. Para ela, o mundo inteiro está vivendo um misto de emoções. “Ao mesmo tempo que a gente vivencia medos, inseguranças, incertezas e preocupações excessivas, a gente também tem emoções positivas de gratidão e satisfação por poder fazer alguma coisa”, explica.

Letícia Maroni vivencia na pele essa mistura de sentimentos. “Eu vejo receio de algumas pessoas, por saberem que sou da área da saúde. Mas também vejo orgulho e reconhecimento”, afirma a psicóloga, que está explorando as novas possibilidades de comunicação que pandemia trouxe.

O poder do olhar

É que o sorriso, que é uma marca registrada do acolhimento, teve que dar lugar a outras formas de interação. “O sorriso é o que mais fala por nós, mas ficou escondido atrás da máscara. Agora, as pessoas nos reconhecem pela voz, pelo olhar. E mais do que essa coisa da percepção física, elas nos reconhecem pelo afeto, cuidado e proximidade. E isso é muito positivo”, afirma a psicóloga.

Conteúdo do depoimento 01

Conteúdo do depoimento 01

“O que mais move a gente da área da saúde, nesse momento, e nos faz levantar todos os dias e sair para trabalhar, mesmo com o coração apertado, é o amor pelo ser humano. É a empatia pelas pessoas, os pacientes e as famílias que precisam da gente. Não tem nada que seja maior do que isso.”

Letícia Maroni
Psicóloga do Hospital Lifecenter

Por trás de cada máscara, uma história
A cada segunda-feira, serão compartilhadas novas histórias, neste espaço criado especialmente para mostrar um pouco da rotina dos profissionais que trabalham na área da saúde
Por Trás da Linha de Frente

Nova doença, novos desafios: Depoimentos colhidos em abril de 2020

Nova doença, novos desafios: Depoimentos colhidos em abril de 2020 mostram como os profissionais de saúde se sentiam no começo da pandemia

Nova doença, novos desafios: Depoimentos colhidos em abril de 2020 mostram como os profissionais de saúde se sentiam no começo da pandemia

 

 

Nayara Silveira fez 33 anos na última quinta-feira. O plano era comemorar com toda a família e amigos em um restaurante, mas nem um abraço ela pôde receber. Para a enfermeira, que coordena o setor de assistência de gestão de leitos do Hospital São Lucas, onde estão pacientes com Covid-19, o maior medo é levar o vírus para casa. Também é o principal receio do cardiologista Marcell Temponi, 35, da infectologista Sílvia Hees, 50, e da maioria dos profissionais de saúde. Esta é a maior preocupação, mas não é a única: saudade, cansaço, culpa e preconceito estão por trás das histórias de quem está na linha de frente no combate à pandemia.


A enfermeira Nayara Silveira teme levar o vírus para casa; ela evita contato com os pais - Foto: Uarlen Valerio

“No dia do meu aniversário, assim que eu acordei, meus pais vieram para me abraçar, e eu tive que dizer ‘não’. Isso dói muito. Eu não tenho nenhum medo de pegar a doença, porque me sinto segura no hospital, mas tenho pavor de transmitir para minha família, principalmente porque meus pais e meu sobrinho são do grupo de risco”, afirma Nayara. Mesmo tomando todos os cuidados ao sair do hospital e ao chegar em casa, a enfermeira não arrisca e passa a maior parte do tempo sozinha, no quarto. “Minha mãe já me falou que não liga se adoecer, mas não quer ficar sem conversar comigo. Eu fico culpada em negar esse afeto, mas é para o bem deles”, conta Nayara.

Chefe de clínica médica e coordenador do plantão geral do hospital São Francisco, referência em coronavírus em Belo Horizonte, Marcell Temponi não vê a mulher, os filhos e os pais há um mês. Eles estão em uma fazenda, no interior de Minas Gerais.

“No começo, eu cheguei a fazer um teste para ter certeza de que eu não tinha a doença. Deu negativo, e fui visitá-los. Mas não tenho mais coragem de fazer isso, porque até os testes podem dar um falso-negativo. É uma decisão muito difícil, mas é para protegê-los”, conta. Entre um paciente e outro, Temponi demora, às vezes, 40 minutos para fazer toda a paramentação. O uso ininterrupto da máscara provoca feridas no rosto. Se a pressão desse Equipamento de Proteção Individual (EPI) é grande, a psicológica é ainda maior.

“Quando você entra em um hospital que é referência para Covid, você já entra preocupado. Eu penso o tempo todo na probabilidade de contrair a doença. A cada notícia que ouvimos de um colega que adoeceu no Brasil e até no exterior, dá um aperto no peito. Não temos mais momentos de relaxamento com os colegas, confraternizando. Até as reuniões são a distância, por videoconferência. A falta disso tudo dá uma sensação de que estamos trabalhando mais sozinhos”, relata Temponi.


Marcell Temponi não vê a mulher, os filhos e os pais há um mês - Foto: Maria Sueli Santos/HSF Divulgação

Entre todas as dificuldades, que ainda incluem a incerteza sobre a doença, o médico afirma que o pior de tudo é a saudade. Um sentimento tão avassalador que já o fez pensar em largar tudo e ir ficar com a família. “Meus filhos são gêmeos e têm 2 anos. É uma idade que cada dia aprendem algo novo, falam uma palavra nova, fazem uma brincadeira diferente. Eu sinto que estou perdendo isso, e é algo que nunca vou recuperar. Já pensei em desistir, mas meu dever é ficar aqui, no enfrentamento. São dias duros, sofridos, mas penso que esse distanciamento é para proteger minha família, penso que depois vamos compensar e, então, fico mais tranquilo. Não posso abandonar minha turma aqui”, ressalta o coordenador do plantão do hospital São Francisco.

Quando ele sai do hospital, o medo vai junto e ganha outros companheiros, como o preconceito. “Outro dia, fui abastecer. Estava de jaleco e máscara. Quando abri a janela, o frentista levou um susto, saiu correndo e pediu para o colega dele me atender, alegando que estava sem máscara. O rapaz perguntou de longe o que eu queria, e eu até pedi um valor redondo, para não ele nem ter que me dar troco. Eu entendo que, nesse momento, é inevitável que as pessoas que sabem que a gente é da área da saúde fiquem receosas. Eu confesso que agora eu sinto na pele o peso do olhar que sentem as pessoas que sofrem qualquer tipo de preconceito”, desabafa Temponi.

Para dar suporte à equipe, que lida com toda a pressão que cerca o enfrentamento do coronavírus, o hospital São Francisco reorganizou o departamento de psicologia para ampliar o atendimento aos colaboradores. “É um momento muito difícil porque todo mundo está angustiado, mas cada um tem a sua história. Tem gente que precisou sair de casa para não expor a família, tem gente que gostaria de fazer isso, mas não tem outro lugar para morar, tem preconceito, sentimento de rejeição. Mas, em todos os meus contatos, percebo que a maior preocupação é realmente contaminar a família. Nessa hora, não tem muito o que dizer, porque não posso falar para a pessoa não ter medo porque ele é real. Então, o melhor a se fazer é ouvir, deixar que esses profissionais da linha de frente externem o que estão sentindo”, explica a coordenadora da psicologia do hospital, Graciele Simões.

A especialista conta que também tem seus medos e preocupações, como o filho de 5 anos, que tem passado os dias com os avós, também por medida de proteção. No entanto, ela afirma que o jeito é colocar a angústia no bolso, para levar acolhimento. “É tudo muito novo, mas é novo para todos. Estamos passando por isso juntos, e o tempo é de construção coletiva”, afirma Graciele.

 

Infectologista tem que manter distância de um metro dos filhos

 

 

A simples rotina de chegar em casa virou de ponta-cabeça. Acostumada a voltar do trabalho, abrir a porta e imediatamente abraçar os filhos, a infectologista Sílvia Hees de Carvalho, 50, tem que conviver com eles a no mínimo um metro de distância, mesmo seguindo um rigoroso ritual de desinfecção.

“Eu e o meu marido somos médicos e fizemos uma ‘área suja’ na área de serviço, onde nossos filhos estão proibidos de ir. Deixamos o sapato na porta, separamos todas as nossas roupas, tomamos banho e só depois entramos. Ainda assim, mesmo depois de fazer toda a desparamentação, não abraço meus filhos. Sempre gostei de ficar agarradinha com eles, e essa mudança não é fácil, mas é o que a gente precisa fazer”, relata Sílvia, que tem 27 anos de experiência.

No hospital, a rotina também está diferente. O processo de higienização, que sempre existiu, está ainda mais minucioso.


Sílvia Hees não abraça mais os filhos quando chega em casa - Foto: Arquivo Pessoal

 

“O tempo que eu gasto para atender cada paciente está maior. A cada consulta, passo álcool no estetoscópio. Tenho a minha própria face shield (protetor facial) e máscara N95, mas nunca as levo para dentro de casa, elas ficam no carro e meus filhos nem entram no veículo”, explica.

Com a atenção redobrada no trabalho e com a família, Sílvia ressalta que o ambiente fica inevitavelmente mais tenso. “É muito angustiante lidar com uma doença nova, com potencial de levar a casos graves. E isso impacta negativamente a rotina dos médicos, exigindo cuidados excessivos. Nesse momento, o que nos torna mais apreensivos é estarmos diante de uma pandemia, em que se conhece muito pouco do vírus, que sofreu mutação, e para o qual não existe ainda nem vacina, nem um tratamento comprovadamente confiável”, ressalta a infectologista.

 

Trabalhadores exigem testes após morte da enfermeira Cida 

“Se a Cida tivesse sido testada, ela poderia estar viva. O hospital sabia que outros trabalhadores tinham testado positivo, e ela teve contato com eles”, desabafa a técnica de enfermagem Jussara Duarte, 56, que trabalhava com a enfermeira Maria Aparecida Andrade, 53, no hospital Alberto Cavalcanti. Cida, que morreu com Covid-19, também trabalhava na UPA Ressaca, em Contagem. Agora, a Associação Sindical dos Trabalhadores em Hospitais (Asthemg Sindipros) luta para que todos os profissionais que tenham tido contato com algum colega com coronavírus sejam testados.

“Já havíamos pedido para realizar testes preventivos em todos os profissionais que tivessem tido contato com pacientes ou colegas infectados pela Covid-19, mas a Fhemig se recusou. Então, nós entramos com uma representação junto ao Ministério Público do Estado de Minas Gerais, pedindo investigação da postura de colocar em risco esses profissionais. Esperamos que essa atitude seja criminalizada, em virtude da negligência de expor os trabalhadores, os familiares e os pacientes”, afirma o presidente da Ashtemg, Carlos Augusto Martins.

Jussara conta que Cida começou a apresentar sintomas logo depois da notícia de que 50 profissionais do Risoleta Neves tinham testado positivo. “Alguns desses profissionais também trabalham no Alberto Cavalcanti e tiveram contato com a Cida e com muitos outros profissionais. Depois, uma contraprova deu negativo para essas pessoas, mas, antes de saber disso, o certo era o hospital ter rastreado todos que tiveram contato com eles e testado todo mundo, pois eles circularam no CTI, nos corredores, no refeitório. É o que tem que ser feito agora, como todos que tiveram contato com a Cida”, ressalta Jussara.

A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) afirma que os exames para Covid-19 são realizados apenas nos servidores sintomáticos, no Hospital Eduardo de Menezes. “Se constatada a suspeita, o servidor é imediatamente afastado para quarentena, antes mesmo do resultado”, diz a fundação. Ainda de acordo com a fundação, assim que um caso é notificado, a Vigilância Sanitária do município e o Comitê de Enfrentamento da Covid-19 tomam as medidas necessárias para abordar familiares e pessoas próximas.

 

Na linha de frente, profissionais também são contaminados

Uma semana depois de ter contato com um paciente que morreu com suspeita de coronavírus, a enfermeira Sara Said, 34, começou a apresentar sintomas de gripe. Durante 14 dias, ela ficou isolada no quarto, sem contato com a família. “O hospital onde eu trabalho prestou todo o atendimento, fez o teste e me afastou. O mais difícil, sem dúvida nenhuma, foi ficar longe do meu filho de 7 anos e negar um simples abraço”, conta Sara.


A enfermeira Sara Said começou a apresentar sintomas de gripe - Foto: Arquivo Pessoal

O resultado do paciente deu negativo. Depois, o exame dela também indicou que não era Covid-19. Mas, enquanto esperava, os dias foram tensos. “A rotina mudou totalmente no hospital e também no convívio com minha família, pois, mesmo tomando cuidados excessivos, eu tenho medo de ser um transportador do vírus. Tudo isso aumenta muito a pressão, traz sentimentos negativos para todo mundo, como solidão, tristeza e depressão”, observa.

Sara trabalha no Hospital Santa Rosália, em Teófilo Otoni, região do Vale do Mucuri. Atualmente, a unidade está com cerca de 30 profissionais afastados, e os motivos vão desde sintomas gripais a estresse ocupacional.

“Um terço desses afastamentos está relacionado a causas psiquiátricas, como ansiedade e síndrome do pânico”, explica o diretor executivo do hospital, Leonardo Seixas.

Segundo Seixas, a unidade chegou a ter 50 colaboradores afastados, incluindo os profissionais que são do grupo de risco. Para amenizar a pressão de conviver todos os dias com pacientes suspeitos, o Santa Rosália reforçou o atendimento psicológico. “Nossos psicólogos estão na retaguarda, dando suporte para nossos profissionais”, afirma Seixas.

Na avaliação de Sara, essa ajuda é fundamental. “Desde que a pandemia começou, eu sinto olhares desconfiados das pessoas ao me verem de branco. É natural que fiquem mais apreensivas e queiram manter distância, mas eu digo que hoje nós convivemos com dois tipos de vírus: a Covid-19 e o medo”, desabafa Sara.

 

Servidores do grupo de risco lutam por afastamento

O afastamento de profissionais da saúde acima de 60 anos ou com alguma comorbidade também faz parte da batalha da categoria. Desde o início da pandemia, 30 trabalhadores da rede pública de saúde de Minas Gerais procuraram a Associação Sindical dos Trabalhadores em Hospitais (Asthemg/Sindipros) para pedir esse licenciamento temporário. Mas ainda não conseguiram.

"Fizemos um requerimento pleiteando a relação dos trabalhadores que já solicitaram o afastamento por estarem no grupo de risco ou por terem suspeita de contaminação. Também solicitamos a quantidade e o tipo de EPI fornecido. Como não tivemos retorno, interpusemos um mandado de segurança para ter acesso a essas informações”, afirma o presidente da Asthemg/Sindipros, Carlos Augusto Martins. Eles ainda aguardam resposta.

Por meio de nota, a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) informa que, até o dia 16 de abril , 16 servidores tiveram resultados positivos para coronavírus, e 11 foram registrados como casos suspeitos. Outros 95 foram afastados por apresentarem sintomas gripais. O Grupo Santa Casa (Santa Casa e Hospital São Lucas) criou uma comissão interna de enfrentamento do coronavírus, com representantes do corpo médico, dos enfermeiros, das áreas de compras, logística e gestão. Segundo a superintendente Mara Moura, que comanda esse comitê de guerra, a principal arma de combate à Covid-19 é a informação.

Desde o primeiro momento, ficou evidente que a grande dificuldade era a comunicação, já que é algo muito novo. Então, resolvemos criar a comissão para organizar e passar as informações para os funcionários”, ressalta Mara. Entre as medidas estão boletins diários de casos confirmados e suspeitos, atualização das normas e protocolos e dados sobre suprimentos, como Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Depoimento 02

“Eu fico pensando que um dia posso cruzar com um paciente na rua, e ele nem vai me reconhecer. É que eles só veem a gente de máscara. Mas não tem problema, porque só de saber que ajudei alguém, eu fico muito satisfeita. Não vou me deixar abater, não vou me deixar vencer pelo cansaço. Fiz um juramento e estarei sempre ao lado os meus pacientes, lutando até o fim.”

Leíse Santos
Enfermeira do CTI da Santa Casa de Belo Horizonte

Por Trás da Linha de Frente

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