Facebook
Twitter
Whatsapp
Recuperar Senha
Fechar
Entrar
   

Por trás de cada número, a memória de uma vida levada pela Covid-19

Lucas Morais (texto) Alexandre Mota e Flávio Tavares (imagens)

Abadia de Fatima, 63, era “a doçura no olhar, no coração e na vida de todos”. No tecido da vida, Adalgiza Ferreira, 85, “bordava amor, luz e força”. Para Alcides Gaspar, 76, “nunca faltou disposição para fazer o bem”. Bárbara Ribeiro, 25, parecia sempre uma festa, e “sua risada tirava todo mundo para dançar”. As ruas da Pavuna, no subúrbio do Rio de Janeiro, já sentem falta da Genny de Caires, 84, “tomando café com as amigas na calçada”. Bianca Galvão, 18, foi uma “menina que ousou sonhar ilimitadamente”. Os relatos fazem parte da iniciativa Inumeráveis, projeto criado para lembrar que as vítimas da Covid-19 são muito mais do que números. Todos os dias, a frieza por trás das estatísticas que atualizam a quantidade de mortos pelo coronavírus esconde uma história de luta, uma dor e feridas que nunca cicatrizam.

Na data em que o Brasil completa um ano do primeiro óbito, quando uma mulher de 54 anos faleceu em São Paulo, a pandemia ainda mais descontrolada torna o país epicentro da doença no mundo – hoje, famílias inteiras choram pela perda de mais de 270 mil pessoas. E o que restou foi aquele “sentimento nostálgico e melancólico associado à recordação de uma pessoa”, na mais pura definição da palavra “saudade”. A saudade do filho que deixou de chegar em casa no fim do dia, do tempero único da avó no almoço de domingo, dos pais que davam carinho e força, da amiga que compartilhava as angústias e as vitórias da vida.

Ainda era fim de outubro de 2020, e o país já alcançava quase 160 mil mortos pela Covid-19. Janice Izabela Dias, 25, acabava de perder o pai, Valdir dos Santos, 61, e a avó Iva Dias de Medeiros, 84, em um intervalo de cinco dias, em Igarapé, na região metropolitana de Belo Horizonte. Apesar de não viverem juntos nem estarem em contato, mãe e filho foram contaminados praticamente no mesmo período. Na casa da supervisora de marketing, todos se infectaram, mas Valdir não resistiu. O último contato foi no dia 26 de setembro, quando ele procurou um hospital por causa da falta de ar e precisou ser internado na UTI.

“Ficou intubado por 19 dias, mas partiu no dia 13 de outubro. No meio disso tudo, minha avó também contraiu e foi internada no mesmo hospital. Eles estavam em andares diferentes, mas os médicos contaram que, no dia que meu pai faleceu, ela sentiu muito, mesmo inconsciente, teve reações. Depois, não aguentou”.

Com as mãos trêmulas e a voz embargada, Janice só guarda boas lembranças. “Meu pai sempre gostou muito de celebrar, de festa com muita gente. Minha avó era a matriarca, fazia o almoço todo domingo, e há um ano não sabemos o que é isso. Não sei como vai ser quando tudo voltar”, relatou.

foto 1 Janice guarda com carinho uma carta manuscrita pelo pai em seu último aniversário

Iva tinha o hobby de costurar. E era na máquina de casa que ela fazia máscaras para proteger toda a família. Do pai, restou o último presente de aniversário: uma carta e um pingente que representava o sonho dos dois. “Ele dizia assim: ‘Menininha do papai e da mamãe, que seu aniversário seja muito especial e Nossa Senhora abençoe a sua vida, os seus caminhos e você seja muito feliz’. A carta veio acompanhada de uma joia que representa o curso de jornalismo. Ele queria muito me ver formada e trabalhando. Tranquei a faculdade antes de isso tudo acontecer, por conta da pandemia”.

 

‘Um homem doce e de extrema sabedoria’

Em qualquer rua do bairro Vista Alegre, na região Oeste de Belo Horizonte, Juquinha, como era conhecido José Sebastião da Silva, 83, arrancava a admiração das pessoas. Pai de sete filhos, o aposentado morreu por complicações da Covid-19 em agosto. Passados quase oito meses, a filha Neide Amaral sente um aperto no peito ao ver idosos da faixa etária do pai serem vacinados. “Ele entendia o velho, o adolescente e a criança. Eu cresci vendo o meu pai indo trabalhar, cuidando de todos com muita dedicação, ensinando a amar a Deus, respeitar as pessoas. Ele era educado, amado, por onde passava conversava com todo mundo”, relembra a maquiadora.

No alto dos seus 71 anos, Maria Nilo da Silva viveu mais de 50 ao lado do marido. Ainda com muita dificuldade para falar, ela segue inconformada com a perda.

“A tristeza é muita e vai demorar a passar. Eu passei mal primeiro (de Covid), de quarentena dentro da minha casa. Fui melhorando, e ele começou a ter sintomas. Não deu febre, mas estava com um desânimo, sentia falta de ar, mas pouca. E levaram ele para o hospital, estava andando, se alimentando, conversando”, afirmou emocionada.

Durante a internação por 24 dias na UTI do Hospital Odilon Behrens, José Sebastião ainda foi contaminado por uma bactéria. Leia Nilo, 39, foi quem levou o pai para a unidade de saúde. Além do sofrimento com a partida, ela lembra que a pandemia tirou até o direito de um velório digno. “O fato que mais me marcou depois do falecimento foi a roupa. Parece besteira, mas, quando uma pessoa morre, a família gosta de colocar a camisa preferida. Meu pai tinha ternos maravilhosos, ele ia para a igreja todo alinhadinho. Minha mãe chegou com um pendurado no cabide, e falamos que não adiantava levar”.

          foto 2           Despedida de Juquinha foi caixão fechado e só com as pessoas mais próximas, como exige a regra durante a pandemia          

Por conta da transmissão da doença, os rituais de despedida estão limitados, com os caixões lacrados durante todo o tempo. “Foram umas dez pessoas, todas distantes umas das outras. O sentimento é horrível, e ainda tem a desconfiança se era o meu pai que estava lá, se ele tinha realmente morrido. A despedida serve para a ficha cair, acreditar que a pessoa não vai voltar, e a Covid tirou isso. Nem subir para a parte que enterram podemos, não dá para jogar uma rosa em cima do caixão”, comentou a esteticista.

Sonhos deixados para trás

Primeiro policial que morreu em Minas após ser contaminado pela Covid-19, Edvander Rodrigues, 49, deixou a esposa, Juliana Alves Braz, 40, e o sonho de morar no litoral capixaba. E 2021 era a data que o casal planejava para se mudar para Guarapari: ele iria para a reserva da corporação após cumprir com dedicação a carreira em Santa Luzia, na região metropolitana. “Estávamos olhando um apartamento para comprar. Quando começou a pandemia, em março, ele já tinha me chamado para irmos e adiantar tudo, depois que o corretor comentou de uma unidade. Como estava tudo fechado, falei para esperarmos”.

Com muita dificuldade, Juliana conseguiu convencer Edvander, mas hoje se arrepende. “Tem hora que me passa isso pela cabeça, que eu poderia ter ido, às vezes era a despedida dele. Estava insistindo muito porque ia se aposentar”, acrescentou. Ainda sem acreditar nos riscos da doença, o policial começou a sentir uma leve coriza no início de julho. Mas os sintomas progrediram rapidamente, e ele precisou ser internado.

“Deu que o pulmão dele estava igual a uma couve-flor. Quando ele subiu para o CTI, foi a última vez que conversei com ele. Parecia que o Edvander já sentia que não voltaria”, lembrou.

          foto 3           Sonho de Juliana e Edvander de passar a aposentadoria na praia foi interrompido pela Covid          

‘Inumeráveis’ histórias

Cofundadora do projeto Inumeráveis, Gabriela Veiga disse que a ideia surgiu por conta do “jeito frio e calculista” como a pandemia vem sendo tratada pelo poder público. “Isso nos assustou e nos unimos para fazer um contraponto. O luto é ainda mais duro na pandemia, porque as pessoas estão impossibilitadas de fazer o ritual do fim, dizer ‘tchau’. Mas não sabíamos como elas iam reagir em contar as histórias com o emocional tão abalado”, explicou.

Com o tempo, a adesão só cresceu, e muitas famílias viram a iniciativa, que traz a memória das pessoas em um site e também nas redes sociais, como um processo de cura, segundo Gabriela. “Esse passivo emocional foi deixado de lado pelo Estado, e a sociedade queria um espaço para homenagear quem se foi”, argumentou. O projeto ainda criou um núcleo dedicado a compartilhar histórias de minorias, como negros, indígenas e LGBTs, além de construir um memorial físico. “As pessoas vão poder visitar a memória desta pandemia”, resumiu.

Desafios na linha de frente: diante da dor do outro

Em cada um dos 20 leitos de UTI dedicados ao tratamento de pacientes com a Covid-19 no Hospital São Francisco, na região Noroeste de Belo Horizonte, a batalha incansável pela vida é travada por dezenas de profissionais de saúde há um ano. Entre respiradores e a entrega dos trabalhadores em plantões intermináveis, a esperança das famílias na recuperação de seus entes queridos. Esta tem sido a rotina diária na unidade, dificultada ainda mais diante da pandemia sem trégua e do crescimento dos casos neste ano.

Dados da Covid-19 no país revelaram que fevereiro foi o segundo pior mês desde a chegada da doença, no ano passado, com mais de 30 mil mortos, e a expectativa é que o panorama seja ainda pior em março. Responsável por cuidar da comunicação com os familiares e amparar nos momentos de dor, quando a notícia mais temida é dada, a psicóloga Maria Angélica Marques esperava viver um momento diferente hoje. Apesar da exaustão, a perseverança da equipe do hospital é grande.

“Nós nos adaptamos. Só que não é fácil para as famílias nem é fácil para a gente, porque estamos lidando na linha de frente e vemos o tamanho do sofrimento. Os profissionais ficam desgastados, gera um cansaço físico e mental, mas eles estão ali dando o melhor. Às vezes o desfecho vai ser muito positivo, e nós vibramos junto com essas famílias. Outras não, e lamentamos junto”, enfatizou. Por conta dos riscos de contaminação, a profissional preferiu deixar o filho, de apenas 7 anos, por quase oito meses morando com os avós. “É um desafio muito grande, algo que eu nunca imaginei vivenciar”.

Ao longo do trabalho realizado no hospital, a psicóloga ainda precisou lidar com muitas famílias que tiveram dificuldade em aceitar o adoecimento do ente querido.

“E quando a notícia do óbito é passada, o meu papel é dar suporte. Não é fácil, tem que ter um preparo emocional muito grande para lidar com esse sofrimento, mas ao mesmo tempo não podemos perder a sensibilidade da dor do outro”

          foto 4           Maria Angélica tem que ter a sensibilidade de comunicar às famílias do falecimento do paciente, e no último ano a cena se repetiu muitas vezes          

Uma pesquisa publicada pela UFMG no último mês, realizada em unidades de cinco Estados, revelou que 50% dos pacientes com a doença internados em UTIs morreram. E dados da Secretaria de Estado de Saúde apontaram também que a Covid-19 foi a principal causa de morte em Minas Gerais no ano passado, com quase 14 mil casos, à frente de doenças cerebrovasculares (9.277), hipertensivas (7.149) e pneumonia (7.001). Em 2019, as doenças cerebrovasculares lideraram o ranking, com 9.811 registros.

“Eu penso que o mais difícil, diante disso tudo, é a família não poder fazer esse processo de despedida quando tem o óbito. A questão do acompanhamento, da oportunidade de fazer a despedida, ajuda a assimilar e aceitar melhor a perda. Esse processo, quando é quebrado, nessas situações da Covid, gera uma ruptura muito grande, que vai levar a um sofrimento maior”, complementou Maria Angélica.

Luto sem despedida

Para a doutora em psicologia clínica Luciana Mazorra, cofundadora do Quatro Estações Instituto de Psicologia, a limitação dos rituais fúnebres tem consequência direta para o processo de elaboração do luto. “É perdido um espaço protegido para a expressão da dor. A pessoa espera ser acolhida, ter o suporte dos outros, mas isso não acontece ou está restrito por conta da pandemia”, argumentou. Conforme a especialista, no momento em que a população esperava que a transmissão fosse controlada, com a chegada das vacinas, a situação ainda piorou.

“O enlutado já vivia antes esse momento de crise muito dura. Quando começamos a achar que estávamos resgatando o nosso antigo modelo de vida, tivemos que dar passos para trás e nos cuidar para não contaminar o próximo”.

Luciana lembrou ainda que, durante o tratamento da Covid-19 na UTI, o familiar não pode acompanhar de perto o processo por conta dos riscos de ser contaminado pelo vírus. “Cuidar do seu ente querido contribui para a aceitação da morte. Faz muita diferença não poder visitar, segurar a mão”.

Caso o óbito ainda ocorra por falta de equipamentos ou leitos de UTI – a maioria dos Estados está em alerta crítico, e muitas cidades já enfrentam um colapso no sistema de saúde –, o trauma pode ser ainda pior, apontou a psicóloga. “Isso gera uma angústia muito grande, saber que não foi feito tudo que era possível, que o seu ente querido não recebeu todo o tratamento que existe”, resumiu. Uma forma de amenizar a dor, segundo a especialista, são os rituais virtuais, que podem acontecer em um local que tenha significado para a família e transmitido para os demais. “Mesmo sem o corpo, isso pode contribuir com o luto”.

Falta de coordenação nacional

Em praticamente todo o país, o número de leitos se esgota, e a transferência de pacientes entre os Estados está inviabilizada por conta da falta de vagas. Pesquisador do Observatório Covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Christovam Barcellos explicou que um dos motivos para a pandemia chegar a esse patamar neste ano é a falta de coordenação nacional, além das variantes que se proliferam por todas as regiões.

“Não se pode nem falar em segunda onda, porque na verdade nunca houve decréscimo significativo no número de casos e óbitos. Agora, temos um processo simultâneo, com vários Estados aumentando a transmissão ao mesmo tempo e situações muito graves. Isso tem esgotado a capacidade do serviço de saúde”, enfatizou. Para o pesquisador, medidas descentralizadas adotadas por prefeitos e governadores de uma mesma região em nada contribuem para resolver o problema.

Barcellos cita como exemplo Minas Gerais.

“Uma cidade que proíbe o comércio não essencial de funcionar, sendo que do outro lado tudo é permitido, pode provocar um fluxo, porque as pessoas vão se deslocar. Essa coordenação é muito importante em um Estado como Minas, já que a facilidade de acesso entre os municípios é grande”

.

E só a ampliação no número de doses da vacina e a restrição da circulação das pessoas no país podem amenizar a situação atual, garantiu o especialista. “Ainda existem os negacionistas, que circulam sem nenhuma medida de proteção, incentivados até por formadores de opinião. Apesar de serem minoria, podem causar um estrago gigantesco”, finalizou.