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Mundo já soma mais de 50 doenças pós-Covid

Cinthya Oliveira (texto), Flávio Tavares (imagens)

Fadiga, dificuldade em respirar, fraqueza nos músculos, arritmia cardíaca, falta de olfato ou paladar, crises de ansiedade, mau funcionamento dos rins, trombose. Mesmo depois de vencer a Covid-19, muitas pessoas têm de enfrentar uma outra batalha e superar as sequelas da doença, que podem ser variadas e graves.

A revista científica Jama Network publicou um estudo da Universidade de Medicina de Washington, nos Estados Unidos, mostrando que três em cada dez infectados pela Covid-19 apresentam sequelas da doença até nove meses após a cura. Os sintomas mais comuns, segundo o texto, são a fadiga, a dificuldade para respirar, confusão mental e falta de olfato.

Em Minas, não há uma mensuração de quantas pessoas vivenciaram sequelas graves em um contexto pós-Covid. Mas sabe-se que ao menos 76 mil moradores do Estado tiveram de ser internados por causa do coronavírus e podem ter demandado algum tipo de assistência especializada depois de sair do hospital nos últimos 12 meses.

Para a operadora de telemarketing Maria Cristina Cardoso, de 32 anos, foram necessários quatro meses para que a rotina pudesse ser retomada.  Após idas e vindas à UPA no fim de maio de 2020, ela enfrentou 18 dias de internação, sendo seis deles na terapia intensiva, por causa de uma embolia pulmonar provocada pelo vírus.

Mesmo depois de deixar o hospital Julia Kubitschek, ela tinha de lidar com dores fortíssimas no pulmão. Levou semanas para conseguir se deitar para dormir ou falar normalmente.

“Três meses depois de sair do hospital fui limpar a minha casa e senti muita dor novamente. A médica me explicou que meu pulmão estava em recuperação e eu continuaria sentindo dor por um tempo. Só melhorei depois de passar por uma reabilitação pulmonar”, lembrou Maria.

Segundo o infectologista Estevão Urbano, há relatos na literatura médica mundial de mais de 50 tipos de sequelas pós-Covid, porque várias partes do corpo são comprometidas no processo de cura. 

“O vírus decresce após a primeira semana de infecção, normalmente. Mas muitas pessoas saem do setor Covid do hospital com lesões no pulmão, rins, coração, fígado, por causa da resposta inflamatória do corpo para combater o vírus. Se não matam, essas lesões podem muitas vezes provocar uma perda na qualidade de vida”, explicou.

Para que as sequelas possam ser tratadas de maneira adequada e o paciente não volte ao hospital com uma trombose ou uma disfunção cardíaca, segundo Estevão, o ideal é que todo sistema de saúde, tanto público quanto particular, invista em um acompanhamento multidisciplinar. Dessa maneira, é importante que o paciente seja acompanhado por médicos de diferentes especialidades, fisioterapeuta, nutricionista, fonoaudiólogo, terapeutas ocupacional e psicólogo.

“Boa parte dessas sequelas são temporárias, como fadiga ou perda de olfato. Isso tende a se reverter em semanas. Mas há também um grande número de casos que vão demandar cuidados por meses, incapacitando a vida do paciente. Isso provoca um impacto socioeconômico sem precedentes, porque são muitos trabalhadores que não conseguem realizar suas atividades ou fazem sem a eficiência de outrora. Se a pessoa não tiver a assistência do INSS, fica sem socorro econômico”, disse o infectologista.

Acompanhamento Multidisciplinar

De acordo com Estevão, o investimento em atendimento multidisciplinar pode prevenir complicações e gastos futuros com novas internações. Somente um leito de UTI na rede pública tem custo de R$ 480 mil mensais aos cofres do Estado.

“O investimento no atendimento multidisciplinar é um ganho para o paciente e para o sistema de saúde como um todo, porque isso reduziria a ocupação de leitos. Por isso, planos de saúde e alguns hospitais já estão investindo nesse tipo de acolhimento”, disse Urbano.

paciente Santa Casa Pessoas que tiveram muitas vezes Covid precisam de tratamento multidisciplinar para recuperar da força muscular à fala

A Santa Casa de Belo Horizonte é um exemplo de hospital que investe no tratamento multidisciplinar de quem passou pela internação.“quando paciente chega aqui, está muito debilitado, com ventilação mecânica, acamado, fraqueza. E o tratamento acontece conforme a necessidade do paciente. A gente trabalha para voltar a qualidade de vida do paciente, para que consiga voltar a ser independente”, explicou o fisioterapeuta Jésus Magno, do setor de Cuidados Prolongados da Santa Casa.
Entre os pacientes atendidos por Jésus está Alcebíades Rosa, de 76 anos. O aposentado ficou internado por mais de dois meses, sendo 33 dias na UTI. "Fui muito bem ratado, todo mundo aqui cuidou muito bem de mim. Agora já estou bem melhor, só preciso voltar a ter força nas pernas para andar", contou o paciente, que recebeu alta há uma semana. 

O mesmo cuidado vem sendo tomado por instituições privadas. No hospital Orizonti, a demanda por um cuidado específico para os pacientes com Covid fez a instituição organizar um setor multidisciplinar específico para eles.  “O paciente que passa por uma UTI fica muito debilitado, enfraquece, perde peso. Depois da internação, ele precisa de cuidado médico para saber como está sua oxigenação e como estão seus órgãos, de fisioterapeuta para ganhar força, nutricionista para recuperar o peso. E muitos precisam de psicólogo para lidar com o trauma”, explicou o médico. “É preciso ter uma vigilância ativa, para verificar se o paciente se recuperou mesmo”, completou.

Reabilitação Pulmonar

Para conseguir voltar a respirar normalmente e ter a voz como instrumento de trabalho, Maria Cristina Cardoso passou pelo projeto Respirar, do Departamento de Fisioterapia da UFMG. O trabalho, que visa capacitar estudantes para o trabalho de reabilitação pulmonar, na pandemia ganhou novo contexto, passando a atender pacientes que tiveram a doença.

Entre novembro e fevereiro, Maria passou por sessões remotas com estudantes de fisioterapia que lhe passavam exercícios e avaliavam a melhora na respiração.

“O primeiro atendimento aconteceu presencialmente, no Hospital das Clínicas, onde fiz uma série de exames ao longo de uma tarde. Depois fiz as sessões, duas vezes por semana, por videochamada. Foi um acompanhamento muito bom”, explicou.

foto da Maria Cristina Maria Cristina Cardoso ficou internada 18 dias para tratar da Covid-19, e demorou semanas até conseguir deitar ou falar normalmente

Até o momento, desde outubro, 36 pacientes pós-Covid foram atendidos pelo projeto Respirar. “A fila de espera é muito grande, não damos conta de demanda porque isso depende do número de alunos envolvidos no projeto”, explicou o professor Marcelo Velloso, coordenador do Respirar.

De acordo com o professor, para cada paciente é desenvolvido um caminho de reabilitação. “Depende do perfil do paciente, da gravidade da doença, do tipo de intervenção que sofreu ao ser internado”, disse Velloso. “Primeiramente, recomendamos o exercício aeróbico para que possa ventilar os pulmões e levar sangue oxigenado para os músculos. Mas para essa prescrição, é preciso uma avaliação individual, para se ver qual melhor exercício e intensidade”.

Maria Cristina já recebeu alta do projeto Respirar e pode seguir com a rotina. Resta agora lidar com os medos oriundos da internação. “Passei seis meses sem dormir direito, em pânico. Enquanto estava na UTI, dividi o quarto com um senhor que estava intubado. Passava o dia olhando para ele e tinha medo de ficar no mesmo estado”, relatou.

O medo de vivenciar a experiência da solidão e da dor da UTI também pode acarretar em sequelas pós-Covid, como ansiedade e depressão. “Muita gente tem sofrido do ponto de vista emocional. São pessoas que enfrentam uma situação muito crítica, acham que vão morrer e não ficam bem depois de viverem essa grande questão”, contou Drusus Pérez Marques, presidente da Sociedade Mineira de Neurologia.

Acompanhamento no centro de saúde

Em 7 de dezembro, o professor aposentado Geraldo Maciel decidiu ir ao centro de saúde do bairro Europa para verificar uma sensação de falta de ar. Mal chegou ao local e já foi transferido para uma UPA, para depois seguir para a Santa Casa. Foram 55 dias de internação, sendo 12 intubado.

“No próprio hospital, depois que saí do CTI, já comecei a fazer os exercícios e a aprender a comer melhor. Quando já estava me sentindo bem, pedi para ir embora, mas o médico me disse que só teria alta quando estivesse 100%”, contou o aposentado de 74 anos.

fisioterapia O professor Geraldo Maciel faz fisioterapia em casa para retomar a força dos músculos, que perdeu com a Covid

Após a alta hospitalar, agora o acompanhamento do aposentado vai se dar pela Atenção Primária, no posto de saúde. Passou primeiramente por um clínico, que pediu uma série de exames para avaliar quais serão os especialistas que acompanharão o processo de reabilitação. “Já estou falando melhor, respirando melhor. Falta mesmo é recuperar a força na perna direita para voltar a ter vida normal”, disse.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, os pacientes que vivem as sequelas posteriores a internações podem ser acompanhados nos centros de saúde ou por equipes do Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF-AB); pelo Serviço de Atenção Domiciliar (SAD); ou pelos Centros Especializados em Reabilitação (CREABs).

“Nos CREABs o trabalho é desenvolvido por equipe multidisciplinar. Atualmente há 35 usuários em atendimento nesses locais. Já no SAD são atendidos usuários com quadros agudos ou crônicos agudizados. Durante a pandemia, o SAD desospitalizou 166 pacientes com diagnóstico de Covid-19, no período de junho/2020 a janeiro/2021”, afirmou a secretaria, acrescentando que ainda realiza acolhimento psicológico para pacientes e familiares.

Segundo o secretário de Estado de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, o governo mineiro ainda não consegue mensurar o impacto das sequelas no sistema de saúde porque entende que só pode considerar como vítima de sequela da Covid quem tem um sintoma persistente, mais de seis meses após a infecção. “Como nosso pico de internações aconteceu em julho, somente agora poderemos verificar quantas são as pessoas que ainda vivem com as sequelas”, explicou.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) informou que o acompanhamento dos pacientes com sequelas é realizado pelos municípios, que estão sendo orientados por meio da ação estadual Cuida de Minas. Uma nota técnica informativa foi publicada em novembro com orientações para que as prefeituras consigam organizar suas redes de reabilitação.

Perda de olfato e fadiga

Até mesmo pessoas que não tiveram sintomas graves da Covid podem desenvolver sequelas da doença. É o caso da professora de Direito Nathália Lipovetsky, de 35 anos. Ao ser infectada pelo coronavírus, ficou com cansaço, febre e perda de olfato, mas conseguiu se curar com isolamento domiciliar.

perda de paladar Nathália Lipovetsky não teve quadro grave da Covid, mas ainda não recuperou olfato e paladar mais de 60 dias depois

O problema é que, passados dois meses, os efeitos da Covid persistem. “Meu cabelo caiu muito. Já tive anemia antes e não tive uma queda de cabelo tão grande. Também percebo que minha produtividade está menor. Tento me cobrar, mas tem determinada hora em que fico completamente exausta, mesmo trabalhando em home office”, relatou a professora, que ainda não recuperou o paladar e tem de lidar com a mais completa falta de apetite.

Boa parte das aulas dedicadas aos alunos do primeiro período de Direito na UFMG é gravada, o que tornou a situação mais confortável para ela no cumprimento do trabalho.

“Tenho a impressão que o meu raciocínio está mais lento. No formato remoto, posso gravar e pausar se for necessário. Se fosse uma sala de aula normal, não daria conta nesse momento. Não conseguiria ficar uma hora e meia em pé ensinando”, disse.

Segundo Estevão Urbano, é muito difícil uma pessoa pouco sintomática desenvolver sequelas graves posteriormente. De maneira geral, os hospitalizados demandam preocupação maior. “Para quem não teve sintomas graves, é preciso ter paciência, pois as sequelas um dia irão desaparecer. Só é difícil dizer quando, porque muitas pessoas ficam com isso por muitos meses”.

infectologista O infectologista Estevão Urbano atenta para a necessidade de tratamento multidisciplinar para os pacientes de Covid e o alto custo para o Estado

Um Milagre

Um mês após deixar o hospital, o empresário Fábio Mota, de 51 anos, ainda não voltou a andar, consequência de mais de 50 dias de internação, sendo 25 na ventilação mecânica. Falta recuperar a força muscular de outrora.

Mesmo assim, Fábio esbanja otimismo e sabe que o pior já passou. “No dia 25 de dezembro, eu estava sedado, mas acordado, e ouvi um médico dizer para o outro: esse é o Fábio, ele teve um sangramento interno, os rins pararam, está com 77% do pulmão comprometido e não deve sobreviver. Imagina só você ouvir isso?”, relatou.

Nesse dia, a equipe de humanização da Unimed chegou a fazer uma videochamada entre Fábio e seus familiares. Era para ser uma despedida. Mas no dia seguinte, ele começou a responder ao tratamento. A recuperação foi tão impressionante que passou a ser considerado como um caso de milagre entre os profissionais do hospital. “Uma enfermeira me disse: Deus te abriu uma segunda porta”, lembrou.

Mesmo que a recuperação tenha sido rápida para quem passou pela intubação e pela traqueostomia, Fábio ainda tem de lidar com as sequelas e a perda de 25 quilos. “Sou privilegiado, estou com uma estrutura de home care. Os horários são agendados. Os médicos, fisioterapeuta, fonoaudiólogo fazem o acompanhamento em casa”.

O empresário também está fazendo terapia para lidar com as lembranças do CTI.

“Não era o caso de ver um idoso e pensar que ele viveu muito. Eu vi pessoas jovens morrendo. E tenho medo de viver isso de novo, de ter uma reinfecção. Por isso, decidi que, se for sair de casa, farei isso com duas máscaras”, adiantou.