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Recordes negativos evidenciam impacto da pandemia nas contas

Cristiano Martins (texto), Flávio Tavares, Uarlen Valério e Ramon Bitencourt (imagens)

A história da dona de casa Lucineia Ferreira, 41, ilustra bem as sequelas do novo coronavírus na economia. Passado um ano desde o início da pandemia da Covid-19, um rastro de recordes negativos em diversos indicadores resume a crise e mostra como o abalo global impactou o bolso e a mesa de Lucineia e da maioria dos lares brasileiros.

A moradora da Vila Senhor dos Passos, na região Noroeste de Belo Horizonte, trabalhava como faxineira diarista em três residências e lavava roupa para outros clientes. Com as restrições de mobilidade, ela rapidamente viu esgotar esta que era a única fonte de renda dela e dos três filhos.

O medo da contaminação veio acompanhado do recuo nos gastos por parte das famílias.

          foto 10           Com a pandemia, a faxineira Lucineia viu sua única fonte de renda minguar até desaparecer          

“Eu até aceitaria abaixar o valor (R$ 150 a diária), mas o serviço foi diminuindo mesmo, até acabar. Falaram que não estavam em condições de pagar”, lembra Lucineia.

A redução da demanda e o aumento do desemprego foram os efeitos imediatos mais sensíveis do distanciamento social. A taxa de desocupação chegou a 14,6% no terceiro trimestre e fechou o ano com média de 13,5%, o maior patamar em toda a série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, iniciada em 2012. O índice representa 13,4 milhões de brasileiros na fila por um trabalho.

“Ainda que tenha havido uma melhora no último trimestre, de certa forma até esperada devido à sazonalidade, o saldo foi bastante desfavorável, com uma redução de mais de 7 milhões de pessoas ocupadas em relação a 2019”, comenta a analista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Adriana Beringuy.

Com o freio na produção e a diminuição da renda, os investimentos minguaram, e as principais atividades entraram em queda livre. A indústria sofreu o maior impacto no início, mas o setor dos serviços seria o mais afetado pela longa quarentena, especialmente nos ramos de alimentação, academias, hotéis, eventos e transportes.

Dólar, inflação e dívidas

Sem trabalho nem poupança, Lucineia e os filhos só não ficaram sem comida na mesa graças às cinco parcelas de R$ 1.200 e mais quatro de R$ 600 do programa de auxílio emergencial. A injeção direta de R$ 294 bilhões pelo governo federal alcançou ao todo 68 milhões de brasileiros e reanimou o comércio, a indústria e a construção civil.

          foto 11           Auxílio emergencial foi o sustento para milhões de pessoas que se viram sem renda durante a pandemia           

Paralelamente, porém, a desvalorização do real frente ao dólar se acentuou até atingir o recorde nominal no câmbio (R$ 5,90), em maio. O ano terminou com alta acumulada de 29%, e a cotação segue bastante elevada, na casa dos R$ 5,70.

Por um lado, isso manteve as exportações aquecidas, principalmente na mineração e na agropecuária. Por outro, a combinação entre o encarecimento de insumos produtivos e o aumento da demanda interna pressionou a inflação e elevou muito os preços dos alimentos, por exemplo.

“O que mais aumentou foi supermercado e gás. Água e luz também. Está tudo mais caro, na verdade”, constata Lucineia.

Ela conta que a situação só não está pior graças às cestas básicas recebidas da prefeitura ou da Associação de Apoio e Proteção a Comunidades Carentes (Apacc), atuante no bairro onde ela mora. Segundo a ONG, as arrecadações caíram, e a fila de interessados mais do que dobrou durante a pandemia, de 150 para 320 famílias, por isso as entregas têm sido revezadas.

De acordo com o Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis (Ipead), da UFMG, o custo da cesta básica em Belo Horizonte subiu 22,8% nos últimos 12 meses, cinco vezes acima da inflação. O preço médio chegou a R$ 570, o equivalente a 52% do salário mínimo. “Esse é realmente o indicador que melhor representa o efeito da pandemia para o consumidor e mostra como a renda das famílias foi comprometida”, analisa a coordenadora da instituição, Thaize Martins.

Além do aumento nas contas básicas, a dívida das famílias brasileiras também bateu recorde. E em mais de um quesito. O percentual de lares endividados chegou a 66,5%, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), e o endividamento médio com os bancos alcançou 51% da renda acumulada nos 12 meses anteriores, de acordo com o Banco Central.

Recessão histórica

Já no fim de 2020, o filho mais velho de Lucineia conseguiu um emprego e passou a colaborar com o orçamento doméstico. Os dados mostram que este não é um caso isolado, pois o último trimestre terminou com alta na taxa de ocupação, na criação de vagas com carteira assinada e no crescimento econômico.

A retomada de parte das atividades e os indícios de recuperação, porém, não impediram o recuo recorde de 4,1% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Esta foi a maior retração já registrada sob a metodologia atual, iniciada em 1996, e a terceira pior da história, desde 1901.

Na análise detalhada por setores e subsetores, 18 sofreram redução e apenas quatro tiveram resultados positivos: atividades financeiras, imobiliárias, agropecuária e indústrias extrativas.

“Os serviços foram preponderantes nessa queda, até porque eles pesam cerca de três quartos da economia, com destaque para os serviços prestados às famílias (restaurantes, academias, hotéis) e os transportes, especialmente de passageiros. Olhando pela demanda, o consumo das famílias caiu 5,5%, muito por conta do distanciamento social e dos efeitos negativos sobre o mercado de trabalho”, detalha a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

Dívida pública

Mesmo com a queda na arrecadação, o governo precisou aumentar as despesas em mais de R$ 620 bilhões no ano passado, incluindo o auxílio emergencial e a abertura de linhas de crédito, para evitar estragos ainda maiores no curto prazo.

O déficit total estimado ultrapassou os R$ 831 bilhões, superando a economia prevista pelo ministro Paulo Guedes para os próximos dez anos (R$ 800 bilhões) com a reforma da Previdência aprovada no primeiro ano do governo Bolsonaro. No fim das contas, o endividamento público subiu para R$ 6,6 trilhões e fechou o ano no nível recorde de 89,3% do PIB.

Recuperação depende de vacinas

As previsões para 2021 ainda são incertas, mas especialistas analisam que a retomada econômica está diretamente atrelada à vacinação contra a Covid-19. A expectativa inicial para o PIB é de 3,6%, segundo o Banco Mundial, mas os índices de confiança das empresas e dos consumidores voltaram a cair devido à falta de imunizantes, ao surgimento de variantes do vírus e às ameaças de colapso na saúde ou novos protocolos de lockdown em vários Estados.

“As projeções já estão sendo revisitadas, e o meu temor é que esse crescimento seja anulado pelo cronograma de vacinação. Temos uma infraestrutura de distribuição modelo, com um potencial maior do que o do restante do mundo, mas não estamos vacinando. Isso é péssimo, gera uma desconfiança muito forte”, analisa o economista Felipe Leroy, professor do Ibmec.

          foto 12           Mais de 13 milhões de pessoas estão na caçada por uma vaga de emprego no Brasil           

O especialista compara a economia brasileira a um paciente em estado grave. “Na minha concepção, nós já estamos na UTI. Temos um alto nível de endividamento, o governo não consegue injetar mais dinheiro nem buscar financiamento lá fora. Não há perspectiva de curto prazo. E manter as pessoas por mais tempo em casa é um desastre total do ponto de vista econômico. É uma situação dramática”, acrescenta o professor.

Com a rápida recuperação da China e dos Estados Unidos graças ao maior controle da Covid-19, a tendência é que o dólar e as exportações sigam em alta. Para o consumidor médio brasileiro, o risco é de mais aumentos nos gastos básicos.

“Chegamos ao nível em que o indivíduo está deixando de comprar maçã para comprar batata. Temos que apertar o cinto, porque o tombo ainda pode ser grande, e esperar a vacinação em massa para, quem sabe, voltarmos aqui com notícias melhores”, conclui Leroy.