Facebook
Twitter
Whatsapp
Recuperar Senha
Fechar
Entrar

+ conteúdo multimídia

  • ícone Instagram
  • ícone YouTube
  • ícone Twitter
  • ícone Facebook

Confira o conteúdo especialmente produzido para nossas redes sociais

Mercado de trabalho perde uma pessoa por hora para a depressão

Só de janeiro a abril de 2020, 2.922 trabalhadores mineiros tiraram licença médica por causa da doença. Saiba mais sobre depressão e mercado de trabalho.

Por Izabela Ferreira Alves, 
Queila Ariadne, Rafael Rocha e
Tatiana Lagôa

marca oferecimento

foto lucilene

Um dia, uma dor no braço. O incômodo avançou para as costas e o quadril, mas não tirou Lucilene Marques, 45, do trabalho. Afinal, é com ele que ela sustenta a casa, onde vive só com a filha, de 20 anos. Até que uma fisgada forte no coração fez com que a auxiliar de cozinha de um hospital da capital fosse internada e escancarou uma realidade: a depressão e a ansiedade já afetavam não só o corpo, mas a mente dela. Por isso, desde dezembro, ela está afastada do emprego para se tratar, assim como outros milhares de mineiros que sentiram o peso de viver uma pandemia. A cada hora, pelo menos uma pessoa entrou de licença por causa de depressão em Minas Gerais no ano passado: de janeiro a abril, 2.922 trabalhadores precisaram dar uma pausa para se reequilibrar emocionalmente no Estado.

No país, foram distribuídos 20,9 mil auxílios doenças por episódios depressivos e transtornos depressivos recorrentes, segundo a Secretaria Especial de Previdência do Trabalho. Desde 2017, quando foram registrados 68,5 mil afastamentos, o número de trabalhadores vítimas dessas doenças está em alta no Brasil. Comparado com as 89,5 mil licenças de 2019 (último ano que o governo tem dados fechados), o crescimento foi de 30%. Em Minas, o aumento foi 32,5%.

“As doenças psiquiátricas são responsáveis por um alto índice de afastamentos. [...] E muitas vezes esses sintomas são consequências de problemas psiquiátricos. E isso não entra na estatística como depressão”

 

Lucilene não sabe como chegou nessa situação, mas sabe o motivo. “Minha filha tem transtorno bipolar e tentou suicídio várias vezes. Com tudo fechado e trancada em casa, ela tem tido mais crises durante a pandemia”, conta. Como se não bastasse o drama vivido no lar, Lucilene ainda teve que lutar contra as incertezas do momento. Rezava todos os dias para não contrair coronavírus por trabalhar em hospital. “Sou hipertensa e minha filha, além de hipertensa, tem diabetes. Mas, graças a Deus, a gente não pegou nada”, agradece. Em meia hora de conversa, ela repetiu esse agradecimento, pelo menos, cinco vezes. Ela é grata, por exemplo, por ter conseguido atendimento psicológico gratuito para ela e a filha. Neste mês, Lucilene terá perícia para saber se volta às atividades, porém, muitos sintomas persistem. “Tem dias que não estou bem não. Sinto um aperto no peito, luto para dormir e só consigo depois que tomo remédio”, diz.

Segundo o psicólogo da coordenação de Saúde do Trabalhador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcello Santos Rezende, existem ainda os reflexos indiretos da depressão no mercado de trabalho. “As doenças psiquiátricas são responsáveis por um alto índice de afastamentos. Mas várias pessoas ficam de licença do trabalho por problemas na coluna, nas articulações, no estômago e na cabeça. E muitas vezes esses sintomas são consequências de problemas psiquiátricos. E isso não entra na estatística como depressão”, explica.

A ausência provisória dos funcionários não é o único impacto da depressão nas empresas. “O prejuízo financeiro trazido por funcionários que estão em depressão e não se tratam tem sido grande, porque elas vão ao trabalho e não produzem da mesma forma que antes”, afirma a médica do trabalho e psiquiatra, membro da Comissão Técnica da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), Letícia Maria Akel Mameri Trés.

Medo do estigma sufoca gritos de socorro no país

O quanto pôde, a educadora Gabriela Tavares Costa, 41, ignorou e tentou camuflar os sinais do quadro de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e depressão. Ser produtiva era essencial para conseguir manter o cargo de coordenadora pedagógica em uma escola na capital. Até que um dia, há dois anos, ela foi parar no hospital e confirmou o que desconfiava: passou a ter a capacidade questionada e foi demitida.

“Me demitiram por medo de que eu não desse conta de fazer um trabalho que fiz por dois anos já com depressão”

 

A doença já havia apresentado sintomas dois anos antes da crise. Pensamento acelerado, cobrança excessiva, perda de apetite e de sono são apenas alguns deles. Até que a situação ficou mais grave. “Meu corpo começou a formigar e meus braços e pernas entortaram. É como se o meu cérebro não conseguisse responder aos meus comandos. Minha boca ficou seca e eu não consegui descrever o que sentia para os médicos”, conta.

Enquanto Gabriela não tirou uma licença de três meses, ela não conseguiu se ver livre dessas crises, que se repetiram várias vezes. No intervalo disso tudo, descobriu a gravidez do terceiro filho que aumentou a necessidade de cuidados. Passado o período de afastamento pela doença e de licença maternidade, ela foi demitida e ainda não conseguiu se recolocar. “Me demitiram por medo de que eu não desse conta de fazer um trabalho que fiz por dois anos já com depressão”, diz.

Doenças mentais tiram US$ 1 trilhão da economia 

Depressão e ansiedade têm gerado prejuízos altos no mundo. Segundo a agência das Nações Unidas, os transtornos custam US$ 1 trilhão ao ano para a economia mundial.

“Faltam estimativas recentes quanto ao impacto das doenças mentais na economia. Mas um estudo, por exemplo, que leva em conta a realidade da comunidade europeia e replicamos aqui no Brasil, mostra uma perda anual de 3% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) por causa de doenças mentais”, diz Letícia Maria Akel Mameri Trés, da Comissão Técnica da Associação Nacional de Medicina do Trabalho. 

2020: o ano mais estressante para os trabalhadores

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já tinha previsto que a depressão seria a maior causa de incapacidade no mundo até este ano. O que o órgão não tinha como imaginar era que, para piorar, haveria uma pandemia no meio do caminho, com consequentes mudanças radicais no mundo do trabalho e, para muitos, a degradação da sanidade mental.

No Brasil, uma das principais mudanças foi a antecipação do home office em várias empresas. Já em abril do ano passado, pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA) apontava que a nova forma de trabalho foi adotada por 46% das empresas estudadas. Mas o mesmo estudo mostrou que 67% das companhias relataram dificuldades de implantar as atividades remotas. Entre as principais barreiras estavam a falta de familiaridade com as ferramentas de comunicação e o comportamento dos funcionários ao acessarem os ambientes virtuais.

Esses empregados passaram a ter que lidar com novos tipos de cobranças, apresentar resultados com novas ferramentas e se reinventar para não serem demitidos. Resultado: segundo a Oracle e Workplace Intelligence, para 70% dos trabalhadores brasileiros entrevistados pela consultoria, 2020 foi o ano mais estressante da vida deles. E não é por acaso. “Claro que, durante a pandemia, a reformulação do trabalho e essa pressão negativa sobre a economia com risco de demissões têm impactado a saúde mental dos trabalhadores e é uma questão a que temos ficado atentos”, explica o psicólogo da Coordenação de Saúde do Trabalhador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcello Santos Rezende.

É nesse contexto em que os casos da chamada “síndrome de burnout” crescem no país. O distúrbio psíquico se caracteriza por um estado de tensão e estresse ligado ao trabalho. Em 2018, a doença já atingia cerca de 32% dos trabalhadores brasileiros, o equivalente a 33 milhões de pessoas, segundo pesquisa da International Stress Management Association (Isma-BR). Especialistas já alertam para a tendência de alta dos números durante e após a pandemia em função da sobrecarga e estresse no período de adaptação ao chamado “novo normal”. “É preciso que as empresas fiquem atentas aos funcionários para avaliar quadros de exaustão. O burnout normalmente ocorre em pessoas que são muito dedicadas ao trabalho e não se permitem errar ou ter queda no rendimento”, explica a médica do trabalho e psiquiatra, membro da Comissão Técnica da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), Letícia Maria Akel Mameri Trés.

Negócios. O atual cenário já demanda ações e cria oportunidades de negócios. A Holos, uma startup mineira, que desde 2018 se dedica a oferecer terapias holísticas, como acupuntura e meditação, para melhorar o bem-estar de colaboradores de empresas, conseguiu quadruplicar a quantidade de atendimentos durante a pandemia. “A gente sabia que isso ia acontecer. A pandemia potencializou o problema de saúde mental que era um lodo que estava escondido”, afirma o CEO da startup, Gustavo Souza.

A startup cria programas com pacotes a preços acessíveis. Em alguns casos, dependendo do número de empregados cadastrados, sai a R$ 4 por trabalhador. E o retorno vem para a saúde dos colaboradores e financeira da empresa. “Nós trabalhamos para aumentar a energia das pessoas. Com isso, elas ficam mais felizes e automaticamente mais produtivas”, diz.

Na prática, a empresa conecta empresas e profissionais dedicados às terapias. Antes da pandemia, o trabalho era feito nas próprias empresas. Com as restrições impostas em função do risco de contaminação, os encontros passaram a ser pela internet.

Mudanças trabalhistas já despertavam gatilhos

Mesmo que os problemas relacionados à saúde mental dos trabalhadores estejam se agravando durante a pandemia, a verdade é que eles já estavam lá. Em 2019, nove em cada dez brasileiros no mercado de trabalho apresentaram sintomas de tensão e ansiedade, de acordo com um estudo da International Stress Mangement Association (Isma-BR).

Segundo o psicólogo da Coordenação de Saúde do Trabalhador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marcello Santos Rezende, as razões para a piora da saúde mental no mercado de trabalho já eram inúmeras. “Organizações internacionais têm apontado uma piora no quadro dos trabalhadores de uns 20 anos para cá. As mudanças no mundo do trabalho têm aumentado os riscos psicossociais, já que têm gerado situações de estresse. Cada país tem uma realidade própria, mas algo que vem ocorrendo em vários lugares do mundo é a flexibilização dos empregos, com trabalhos temporários e com menos garantias. Isso leva a uma pressão maior por resultados e uma incerteza quanto ao futuro, o que piora a situação”, afirma.

+ conteúdo multimídia

  • ícone Instagram
  • ícone YouTube
  • ícone Twitter
  • ícone Facebook

Núcleo de Projetos EspeciaisJornal O TEMPO - Mar/2021