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Soterrados pelo descaso e pela dor da indiferença

Empregados de empresas terceirizadas da Vale, que trabalharam no resgate de corpos da tragédia de Brumadinho, atestam transtornos mentais e cobram seus direitos

Por Izabela Ferreira Alves, 
Queila Ariadne, Rafael Rocha e
Tatiana Lagôa

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A maior tragédia socioambiental brasileira – o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho – ainda faz parte da memória dos mineiros. Em 25 de janeiro, os dois anos da catástrofe foram lembrados com destaque. A data e os fatos. Mas muitos heróis anônimos, fundamentais para que as famílias dos mortos conseguissem enterrar seus entes queridos, foram, mais uma vez, esquecidos. Funcionários de empresas terceirizadas que prestavam serviço para a mineradora e testemunharam todo o sofrimento causado pelo mar de lama tentam levar a vida. Porém, a mágoa pelo descaso e a crueza da morte vista de frente, durante e logo após o acidente, bem como as dificuldades enfrentadas em vários aspectos, inclusive, trabalhistas e relacionados à saúde mental, não os deixa esquecer o horror vivido.

Do nada, o cheiro dos corpos apodrecendo vêm na minha mente. Não durmo direito. Não consigo mais subir no equipamento”,

“ lamenta Rodrigo Lima, 38, operador de escavadeira.

Ele era contratado do grupo Toniolo, com sede no Paraná, pioneiro em dragagem de precisão. Quinze dias após a catástrofe, já estava nas áreas de buscas. A princípio, ele iria atuar na drenagem e no suporte aos bombeiros. Mas, na prática, a situação foi outra: “Quando viram que os bombeiros podiam subir na escavadeira, que eu poderia os levar aos pontos onde ninguém chegava, e ao escavar dava para achar os corpos, passei a atuar na busca e remoção dos cadáveres”, recorda.

 

Por 13 meses, enquanto trabalhou na tragédia, Rodrigo conta que ele e seus colegas sentiram na pele a diferença por serem terceirizados. “Os funcionários da Vale comiam nos restaurantes. A gente almoçava do lado dos segmentos (partes dos corpos). Entrávamos em contato com a lama tóxica e não tinha nem como lavar o uniforme no hotel”, reclama. Lembranças difíceis de apagar. “Sem querer, com a máquina, eu partia os corpos e tinha que encontrar a outra parte. Ficava com aquilo na cabeça, que eu tinha cortado aquela pessoa com a escavadeira”, conta.

Depois de passar por tudo isso, ele foi diagnosticado com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e depressão grave. Quando terminou o trabalho nas buscas, ele foi contratado para trabalhar na limpeza da lagoa da Pampulha. Mas com poucas horas de trabalho revivia o drama anterior, se via suando, com as mãos tremendo e coração disparado.

O motorista de caminhão-pipa, Wanderson Jorge Pinto, 42, também mudou a forma de ver a vida depois da tragédia. “Percebi que para a Vale ou a JSL, onde trabalhei por mais de seis anos, somos apenas um número. Não vai dar para esquecer tudo isso”, diz. No dia do acidente, ele trocou o ponto de abastecimento do veículo com uma colega de trabalho. “Ela foi encher o caminhão de água aos pés da B1 (a barragem que se rompeu). Era para eu estar naquele lugar”, recorda. Antes mesmo que ele pudesse entender a sorte e o milagre por ter sobrevivido, menos de 72 horas depois do acidente, a Vale chamou Wanderson para voltar ao local do acidente, pois os “pipas precisavam dar um apoio”. “Só não me contaram que era vendo o resgate dos corpos dos meus colegas, lavando os bombeiros, com o caminhão parado 24 horas ao lado da corporação, na margem da lama”, conta. Para Wanderson, é desrespeitosa a impossibilidade, hoje, de fazer um tratamento psicológico. “Depois do primeiro mês o plano de saúde foi cancelado. Tenho transtorno de ansiedade e não tenho condição de pagar”, diz.

 

Empresas dizem cumprir normas

 

A Vale diz, em nota, ser sensível à situação de todos os empregados e terceirizados. Por esse motivo, diz a empresa, busca resolver as situações com o maior cuidado e celeridade possíveis.

A mineradora garante ainda manter-se disposta ao diálogo, para conhecer e analisar as demandas apresentadas, coletiva ou individualmente, por trabalhadores, Justiça e órgãos do Estado. A Vale reforça que cumpre as normas de saúde e segurança previstas na legislação trabalhista.

A JSL informa que Wanderson, após a catástrofe, passou a exercer suas funções alinhadas com as estratégias de salvamento ditadas pelas autoridades. A empresa diz respeitar rígidos padrões de segurança, proteção à saúde e acolhimento para com seus colaboradores. Conforme a organização, até seu desligamento, o funcionário recebeu suporte adequado para o desempenho de suas funções. O Grupo Toniolo foi contatado, mas não deu retorno.

 

Veja aqui os laudos

laudo médico 01

laudo médico 02

laudo médico 03

Laudo Rodrigo PDF

 

Vítimas revivem drama e não conseguem cura

Memórias da devastação da tragédia em Brumadinho são gatilhos pra crises de ansiedade

 

 

Um agravante na tragédia em Brumadinho, capaz de potencializar a frequência do Transtorno do Estresse Pós Traumático (TEPT), tanto nos trabalhadores quanto na população em geral, é o fato de a paisagem da própria região apresentar diversos gatilhos visuais e emocionais. A análise é da neuropsicóloga, mestre em Ciências e doutoranda em Neurociências Karen Saviotti.

Ela já avaliou, clinicamente, moradores de Brumadinho e trabalhadores de empresas terceirizadas pela Vale e afirma que, só agora, dois anos após a catástrofe, muitas pessoas se percebem adoecidas.

“Muitos deles, realmente, não acreditavam que o que estão sentindo é uma doença. Pensavam que poderiam melhorar sozinhos. Mas os gatilhos por toda a parte fazem com que os quadros sejam muito difíceis de obter remissão espontânea”,

explica.

Segundo a especialista, o TEPT envolve alterações neuroquímicas cerebrais e pensamentos muito fortes sobre o evento estressante, no caso, a tragédia da Vale. Essas elaborações mentais desencadeiam, novamente, as mudanças neuroquímicas no cérebro e, por conseguinte, a manutenção dos sintomas, “num processo cíclico e com sofrimento considerável”. “Agora essas pessoas começam a perceber que não é normal a presença persistente dos sintomas físicos, psíquicos e emocionais do TEPT em suas vidas e que os prejuízos são muito grandes”, afirma a especialista.

É dessas tristes e marcantes memórias da devastação, capazes de desencadear todo o processo do TEPT, que Romar Pires, 52, quer se libertar. Admitido como auxiliar de campo pela H3M Meio Ambiente e Geotecnologia Ltda e, um dia após ser demitido, contratado como fiscal florestal pela Agroflor Engenharia e Assessoria em Gestão Empresarial Ltda, ele presenciou as cenas de resgate dos corpos e fragmentos. Além do transtorno, foi diagnosticado com humor depressivo recorrente grave.

“A gente almoçava do lado das sacolinhas, numeradas, com mãos, braços, cabeça. Chegava em casa perturbado, não consigo esquecer”, conta. As recordações vêm de repente. Os corpos encontrados num túnel sem partes dos dedos, de tanto cavar, mortos asfixiados. O homem achado em casa, debaixo da cama que teria sido encoberta pela lama. “As firmas tinham de ter colocado a gente no psiquiatra, dado um suporte”, cobra.

Sem café da manhã, ele e sua equipe carregavam o caminhão com mourões para levantarem a cerca, feita para conter a lama derramada com a ruptura da barragem. Durante os 11 meses em que prestou esse serviço para as duas empresas, ele lembra dos ataques de cobras e animais peçonhentos, abelhas, equipamentos de proteção individual (EPIs) insatisfatórios e más condições de trabalho. “Teve colega que desmaiou de fraqueza, barriga vazia. Almoçava sujo de lama, não tinha banheiro químico, nem como lavar a mão. Por causa da máscara sem filtro, que não prestava, o mau cheiro ficava impregnado. A gente ficava largado no tempo, no meio do nada”, queixa.

Só o advogado trabalhista Antônio Queiroz, atuante na região de Brumadinho, já foi procurado por cerca de 20 ex-trabalhadores, de várias empresas terceirizadas pela Vale, com reclamações semelhantes às de Romar. Conforme Queiroz, a Vale teve o devido cuidado em prever obrigações e penalidades nos contratos com as firmas. No entanto, não levou a termo a supervisão e fiscalização das condições num cenário totalmente adverso, no qual fazer apenas o previsto na Lei de Terceirizações ou nesses acordos não seria suficiente.

“A Vale carrega consigo a culpa por causa do acidente e, nesses casos, também tem sua parcela de responsabilidade. Mas as principais culpadas são as empresas que contrataram esses trabalhadores, submeteram eles de qualquer maneira a essa situação e não ofereceram a eles amparo algum, nem durante nem depois”, afirma Queiroz.

De acordo com o presidente da Associação Mineira de Medicina do Trabalho, Vinícius Cavalcanti, a reparação dos danos, se houver, ocorre na esfera individual, junto à Justiça. Quando os contratos foram firmados, não se previa a tragédia, por isso, tanto a Vale quanto as empregadoras poderiam ter estabelecido novos parâmetros junto com os trabalhadores. “Quem não se sente contemplado, pode recorrer tanto contra o empregador quanto o tomador, pois as duas empresas respondem em conjunto”.

 

 

MPT investiga condições de trabalho dos terceirizados

O Ministério Público do Trabalho (MPT), hoje há procedimento em curso para investigar as condições de trabalho dos funcionários terceirizados junto à Vale. Até o momento, somente a mineradora é investigada nessa representação.

Para o psiquiatra forense e membro da diretoria da Associação Mineira de Psiquiatria (AMP) Maurício Leão, logo quando ocorrida a catástrofe, os esforços devem ser, de fato, para prestar socorro. Mas, “com o passar do tempo, naquelas condições, deveriam ter sido analisados os quadros psiquiátricos e aferida a saúde física e mental dos colaboradores”, explica.

A empresa H3M Meio Ambiente e Geotecnologia Ltda, em defesa preparada pela AOF Advogados, nega todas as alegações feitas por seu ex-funcionário Romar Pires sobre as questões dos EPIs, da falta de apoio em campo e das más condições de trabalho.

A assessoria jurídica argumenta ainda que, nos últimos anos, a H3M contratou cerca de 250 empregados, e teve só seis reclamações trabalhistas e nenhuma condenação. A AOF questiona ainda o fato de as denúncias estarem sendo conduzidas por um mesmo advogado, “demonstrando uma aventura jurídica de um grupo de amigos que se juntaram, de forma oportunista”, acusa. Já a empresa Agroflor preferiu não se manifestar.

Veja aqui a nota H3M na íntegra.

 

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