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Youtubers ‘deseducam’ crianças com ‘trollagens’ e palavrões

Famílias se mobilizam contra vídeos de conteúdo inadequado que se proliferam na rede social

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Resultado. Para Sheyla Pinheiro, o acesso da filha Mariana aos canais virtuais prejudicou o desempenho dela na escola
PUBLICADO EM 06/05/18 - 03h00

Eles se identificam como “digital influencers”, mas a influência que essas celebridades virtuais estão exercendo sobre crianças e jovens passou a ser criticada por pais, mães e instituições ligadas à infância, travando uma verdadeira batalha contra alguns youtubers em relação aos conteúdos postados.

“Trollei meu amigo e quase fiquei cego”; “Roubei o cartão do meu irmão e gastei R$ 1.000 em figurinhas da Copa”; e banheiras de açaí, chantilly, creme de avelã e outras comidas, são apenas alguns exemplos de vídeos produzidos por youtubers, que conseguem milhões de visualizações em poucas horas.

Após levar o filho e o sobrinho a um show de Luccas Neto, 28 – um dos mais populares youtubers no país, com mais de 14 milhões de inscritos em seu canal –, a professora de marketing digital Elis Monteiro, do Rio de Janeiro, percebeu que a compulsão por doces e o “estranho comportamento” do filho Guilherme, 10, poderiam estar relacionados ao estímulo virtual. “Saí do show apavorada. Meu filho estava falando igual ao Luccas Neto – que grita muito –, tinha aumentado o tom de voz, e percebi que ele estava com muita tendência a desperdiçar alimentos”, conta.

A indignação da mãe se transformou em um texto publicado nas redes sociais. O conteúdo teve 6.500 compartilhamentos e gerou diferentes reações: de um lado, fãs dos youtubers a atacando e, de outro, pais e mães apoiando. “Recebi mensagens agressivas de fãs. Fiquei muito preocupada com a violência e como essas criaturas os viam como ídolos que não podem ser contestados”, afirma. Após conversas, a mãe conta que o filho reconheceu que os conteúdos não eram “tão legais” e, então, ela optou por proibir determinados canais em casa.

Com milhões de inscritos, Luccas e o irmão Felipe Neto, 30, decidiram lançar um canal da dupla. Com o perfil “Irmãos Neto” eles reúnem mais de 42 milhões de inscritos. O sucesso é alcançado também por outros canais, que usam a mesma “fórmula” para fisgar as crianças. Nos canais de Enaldinho (5 milhões de inscritos) e Rezendeevil (16 milhões de inscritos), são comuns vídeos que demonstram “trollagens” com as mães. No caso dos canais voltados para meninas, os vídeos mais populares estimulam o consumo de cosméticos e roupas.

Se aos olhos das crianças os ídolos se tornam verdadeiros espelhos, estudos recentes mostram que, quanto mais cedo a criança é inserida na plataforma, maior será sua tendência ao consumismo quando for mais velha.

Segundo Raquel Fidelis, em sua casa, a solução também foi suspender os acessos. “Meu filho assistia aos dois irmãos, mas o Felipe Neto eu tive que proibir. Ele induz as crianças a coisas muito erradas e fora da realidade infantil, sem contar os inúmeros palavrões que ele fala o tempo todo. O irmão (Luccas Neto) incentiva as crianças a consumir brinquedos importados e fora da realidade brasileira”, relata.

Para Sheyla Pinheiro, a sua experiência com o youtuber que pinta o cabelo de uma cor diferente cada vez que atinge nova marca em seu canal foi “um péssimo exemplo, que se refletiu na escola”. “Certo dia, abri a gaveta e achei dez atividades que ela tinha escondido sem fazer. Fui alertada pelo meu filho mais velho que esse tipo de comportamento é estimulado pelos youtubers, que ‘ensinam’ que omitir e levar vantagem em tudo é bonito”, diz.

Em nota, o YouTube informa que a ferramenta foi projetada para pessoas acima de 18 anos e que todos os vídeos devem estar em conformidade com as diretrizes da rede social. Diz, ainda, que uma equipe analisa todos os vídeos, mas recomenda que “os pais acessem em conjunto com seus filhos”.

Segundo a nota, “para uma experiência mais controlada no YouTube principal, os pais podem ativar o modo restrito”. O YouTube reforça a existência do aplicativo gratuito YouTube Kids, que ao longo deste ano terá novas opções de gerenciamento do conteúdo assistido.

 

Neto critica a imprensa: ‘ataque ao YouTube’

Após as críticas, dois vídeos-resposta foram publicados no canal de Felipe Neto no YouTube, e em um deles ele pede: “Parem de mentir sobre os irmãos Neto”. “Todo fim de semana, milhares de pais vão aos espetáculos dos irmãos Neto pelo Brasil e se divertem com seus filhos. Boa parte da imprensa valoriza isso. Outra parte, com uma agenda própria de intenções estranhas, ignora essa harmonia entre pais e filhos nos shows”, diz Felipe no vídeo.

De acordo com o material, o maior objetivo é atacar não os irmãos Neto, mas sim o YouTube, que desestabilizou a grande mídia. “Ninguém falou dos vídeos educativos do Luccas e de sua mensagem pró-família. Ninguém falou sobre o alerta de Felipe a respeito da depressão entre adolescentes. Ninguém fez o papel clássico do bom jornalismo: ouvir os dois lados”, questiona no vídeo.

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, o youtuber não respondeu às perguntas enviadas e enviou uma nota. “Os recentes questionamentos dos veículos de comunicação foram inteiramente respondidos por meio do conteúdo do vídeo ‘Resposta de Felipe Neto à imprensa’, publicado no dia 24 de abril, no canal de Felipe Neto”, diz o texto.

A reportagem tentou contato com os canais de Luccas Neto, mas não obteve retorno. O youtuber Rezendeevil declarou recentemente à mídia que busca levar diversão a seus seguidores, “mas com responsabilidade”.

Pedro Gazzola, empresário de Enaldinho, diz que o youtuber "toma todas as devidas precauções e cuidados". "Quando ele vai fazer qualquer coisa que tenha o mínimo de perigo possível, ele fala para que eles (crianças) não façam em casa ou para que peçam ajuda dos pais", afirma. "Ele tem uma preocupação gigantesca com as crianças e com sua audiência. Ele tem um extremo cuidado em não deixar com que os seus fãs façam nada de errado, até mesmo porque ele tem plena consciência de que ele atinge crianças a partir de 6 anos. Todo o conteúdo é muito educativo na medida do possível", defende.

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