Esotérico

Corpo se transforma em árvore

Aposta de empresa espanhola é juntar as cinzas da cremação com terra e sementes de plantas


Publicado em 04 de agosto de 2020 | 03:00
 
 
 
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O que você deseja ser quando morrer: um ipê, um cedro, uma paineira, um jasmim ou uma cerejeira? No futuro, se essa ideia vingar, os parques verdes vão substituir os cemitérios tradicionais, com mausoléus de mármore negro e esculturas. Um novo destino para quem já se foi e uma quebra de paradigma. Na verdade, o próprio Gênesis (3:19) diz: “Tu és pó e ao pó voltarás”.

Esta é a aposta da BiosUrn®, a primeira urna biodegradável do mundo projetada para devolver o corpo à natureza como uma árvore. Os entes queridos e seu animalzinho de estimação agora podem ser transformados em árvores, continuando a crescer ao seu lado. Graças ao seu design, a urna fornece germinação adequada e foi projetada para conter qualquer semente de árvore, arbusto ou planta e pode ser colocada em qualquer ambiente natural. Dessa forma, a morte se torna uma transformação e retorno à vida por meio da natureza.

A empresa tem sede na Espanha, e a ideia surgiu quando o espanhol Gerard Moline era criança. Ele estava no jardim plantando flores e legumes com a avó, quando ela descobriu um pássaro morto. Ela instintivamente pegou o pássaro, enterrou-o em um buraco e plantou algumas sementes de flores silvestres em cima, dando-lhe uma nova vida.

Ele carregou essa memória com ele por muitos anos e, em 1997, criou os primeiros protótipos para o BiosUrn®, que chegou ao mercado em 2001 e, neste ano, foi relançada, com novo design mais elegante e minimalista. É a primeira urna biodegradável do mundo com o conceito de se plantar uma árvore com os restos obtidos após a cremação.

Para Moline, “onde não há fim, há apenas o começo de algo novo.Se estamos fazendo escolhas de vida mais sustentáveis enquanto estamos vivos, por que não tentar fazer o mesmo quando estamos mortos?”, indaga.

O empresário comenta que “o poder de um ritual para marcar a morte de um ente querido é uma reação instintiva natural. Rituais dão propósito e nos conectam a algo maior”. Ele completa dizendo que, “seja qual for nossa educação cultural, há uma compreensão compartilhada de que o ritual de um funeral implica reunir-se para lamentar o falecido e oferecer apoio e simpatia aos enlutados. Embora cada país ou comunidade tenha seus próprios rituais, é preciso inovar até na hora de morrer”.

A proposta da urna biodegradável é uma alternativa que pode ser considerada dependendo do entendimento da pessoa sobre esse ritual de passagem. “Não há problema em ser diferente e celebrar um ritual que parece certo para você. Além disso, essa alternativa pode ser menos dolorosa. Nenhuma palavra pode minimizar o luto, mas podemos examinar a dor e talvez entendê-la melhor. Minha maior esperança é que a urna possa ajudar a acalmar um pouco dessa dor”, pondera Moline.

A urna já está sendo comercializada em mais de 50 países, em cinco continentes, inclusive para vários Estados brasileiros. Ela custa  US$ 140, e o modelo para pets sai por  US$ 99. Elas podem ser adquiridas pelo site urbabios.com.

“O mundo está ficando sem espaço funerário. Além da questão da diminuição do espaço terrestre, a cremação é mais ecológica do que os enterros tradicionais. Se pudermos mudar a maneira como pensamos a morte e realmente refletirmos sobre isso enquanto estamos vivos, podemos começar a converter cemitérios em florestas em todo o mundo e fornecer uma alternativa de enterro mais ecológica e terapêutica”, defende Annie Lewis, coordenadora de imprensa da BiosUrn®.

O familiar leva a urna ao crematório ou à funerária para que as cinzas possam ser transferidas. A urna é dividida em duas cápsulas: a superior é uma unidade selada para garantir o bom estado da semente até que ela comece a brotar; e a inferior armazena as cinzas.

Ideia é vista com bons olhos

Várias são as possibilidades para a utilização da urna ecológica. Ela pode ser plantada em quintal, sítio, fazenda, ou mesmo em um vaso na sala. “Normalmente, a urna pode ser plantada onde for legal plantar uma árvore, incluindo o quintal. Na maioria das vezes, o plantio em propriedades privadas é permitido e legal. Geralmente, recomendamos ambientes naturais, como jardins, quintais, florestas ou parques. Pode ser necessária uma autorização prévia para áreas públicas (floresta ou parque), embora geralmente algumas florestas apresentem locais onde as cinzas podem ser espalhadas”, comenta Annie Lewis.

Muitos também são os últimos desejos do indivíduo. “Já atendemos pedidos de clientes que fizeram arranjos exclusivos em locais como propriedades da igreja, campos de golfe, terras sagradas dos nativos americanos e em picos de montanhas proeminentes”, ressalta Annie.

“O assunto é delicado e gera uma interseção entre a área emocional e seus reflexos na legislação. No entanto, na área da vida privada é dado fazer tudo aquilo que não é vedado pela lei, enquanto na senda do direito público só se pode fazer aquilo que a lei permite ou autoriza. Quando a pessoa recebe as cinzas da cremação, pode lhe dar o destino que desejar.  Não há qualquer óbice legal”, argumenta o advogado Ricardo Drummond da Rocha.

Particularmente, o advogado vê com bons olhos a questão. “Há aí um viés ecológico, um estímulo à preservação ambiental. No entanto, acho interessante haver uma identidade entre o falecido e a família com o local previsto para depositar as cinzas”, diz.(AED)

 

 

 

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