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Literatura

Princesas ‘fora do padrão’ são destaque em releitura de contos

Quatro jovens se juntam para mostrar que o poder da mulher não se mede na fita métrica

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As autoras Janaína Rico, Larissa Siriani, Mila Wander e Thati Machado posam durante o lançamento do livro “Princesas Gpower”
PUBLICADO EM 08/03/18 - 03h00

Quatro jovens “fora do padrão” se reuniram para mostrar que o poder de uma princesa não se mede na fita métrica. Juntas, elas fizeram a releitura de clássicos dos contos de fada para combater o preconceito e acabar com os xingamentos contra as pessoas obesas ou as que estão acima do peso.

Chamada de “Princesas Gpower”, a coletânea conta quatro histórias independentes. A primeira personagem é uma estudante de medicina que encontra o amor verdadeiro. A segunda é uma jovem órfã que descobre que seus pais estão vivos. A terceira fala de uma moça com medo do mar que se arrisca em um cruzeiro. Por último, uma garota acha seu lugar em uma nova cidade.

As autoras Janaína Ribeiro, Larissa Siriani, Mila Wander e Thati Machado mostram que estar com quilos a mais não impede que as protagonistas sejam fortes e empoderadas. Para isso, apresentam apenas uma regra para ser uma verdadeira princesa: permitir-se um “feliz para sempre”.

Protagonismo. Em entrevista a O Tempo, uma delas, Larissa Siriani, diz que o objetivo maior era construir boas histórias com protagonistas fora do padrão clássico de beleza. “Nós entendemos que representatividade não necessariamente tem a ver com você discutir a existência daquele grupo; muitas vezes é apenas retratar que ele existe. Nossas histórias não são sobre princesas gordas. São sobre mulheres que vivem suas próprias histórias, com altos e baixos, como qualquer outra”, afirma.

A escritora assegura que a ideia é ajudar tanto as pessoas que sofrem preconceito quanto aquelas que praticam. “Acho que quando a gente empodera as pessoas, quando normalizamos o que quer que seja alvo do bullying – o peso, uma deficiência, a orientação sexual –, a gente acaba dizendo não apenas para quem sofre que ele precisa mudar, como para quem pratica que não existe nada de errado em ser diferente. Empoderamento gera aceitação, e é a aceitação que acaba com o preconceito”, esclarece.

A professora de antropologia da UFMG Érica Renata de Souza, doutora em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que os estereótipos, em geral, são perpetuados socialmente. “Está inserido no contexto em que vivemos. A mídia, a indústria, o mercado, todos eles dizem que o padrão ideal é a magreza, e as pessoas absorvem, aceitam como verdade. Quando elas se deparam com algo fora dele, reagem de maneira agressiva, não necessariamente com contato físico, mas na palavra, no olhar”, diz.

Autoimagem. Pesquisa feita em 2015 pelo IBGE, em escolas públicas, mostrou que uma em cada cinco meninas até o nono ano se sentia gorda ou muito gorda, isto é, 21,8% do total.


Minientrevista

Larissa Siriani
Escritora

Você acredita que a maioria das meninas não se sente representada pela princesa de contos de fada?

Sim. As garotas negras sofrem por não serem brancas; as gordas, por não serem magras; e as magras, por não serem magras o suficiente. Representar é mais do que só apontar diferenças físicas, é permitir que personagens diferentes vivam histórias diferentes.

Como a literatura pode abrir portas para a quebra desses estereótipos socialmente impostos?

Trazendo personagens mais diversos e abordando temas que são pouco discutidos. Acho que a literatura é o meio mais aberto à inovação nesse sentido. Devemos aproveitar para discutir e trazer cada vez mais variedade, para que o diferente deixe de ser uma exceção e se torne regra.


Mulheres não precisam viver os padrões de beleza impostos

A funcionária pública Aline Xavier, também escritora, viveu 27 dos 29 anos às margens dos padrões de beleza socialmente impostos. “Foi a vida inteira assim, só por dois anos consegui ter um ‘peso ideal’, mas não durou muito tempo: voltei ao peso que sempre tive”, diz. Ela conta que chegou a pesar 170 kg e que fez a cirurgia bariátrica para reduzir as medidas. Atualmente, está com 123 kg.

Aline afirma que foi “violentada e invadida” muitas vezes, por vários motivos. “Socialmente e como cidadã. Seja pela falta de assento adequado, seja pelo tratamento diferenciado do médico achando que tudo é por causa da obesidade. Ou seja pelos parentes nos almoços de família dizendo que estava bem porque havia emagrecido. Além, é claro, dos amigos que se afastaram e da dificuldade no sentido amoroso”, conta.

Mas a jovem declara que aprendeu a passar por cima e faz de sua própria história um “feliz para sempre”. “É importante perceber a própria beleza. Não precisamos ‘lacrar’ o tempo todo. E tudo bem se não se sentir maravilhosa sempre. Porque todas nós somos humanas e temos nossos dias”, garante.

Para ela, o processo para conseguir mudar esse cenário passa por dois caminhos. “Precisamos de políticas públicas que garantam à população obesa os direitos básicos, além da conscientização dentro de casa e da escola”, afirma a escritora.

FOTO: Fred Magno - 6.11.2017
Aline Xavier
 

 

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