Liberal

‘Transgressão controlada’: nas casas de swing (quase) nada é proibido

Adeptos afirmam que local serve para ‘colorir’ os relacionamentos, mas dizem que acordos prévios são fundamentais


Publicado em 06 de novembro de 2020 | 03:00
 
 
 
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“Onde quase nada é proibido e tudo pode acontecer”. Repetida quase que como um mantra por frequentadores das casas de swing e das baladas liberais, a frase captura a essência do que os casais adeptos esperam encontrar nesses ambientes de voyerismo e de sexo compartilhado. Não é à toa, contudo, que a máxima esteja na condicionante: “tudo pode”, mas não necessariamente deve ou vai acontecer. Ocorre que, assim como é comum que um asterisco de advertência seguido por letras miúdas apareça depois de uma convidativa oferta, há também, no acordo não verbal firmado pelos “swingers”, um delimitar de práticas e comportamentos que não são aceitáveis nesses locais.

Afinal, é justamente a ideia de uma “transgressão controlada” um dos grandes atrativos de casas e de festas que admitem práticas sexuais explícitas, seja em grupo ou individualmente. “Além do prazer de ver que meu parceiro é desejado por outras pessoas, o que me atraiu foi a segurança e a vontade de contestar esse modelo monogâmico que costuma ser colocado para nós como alternativa única”, descreve a professora universitária Alice*, que tem 59 anos e é frequentadora desses espaços há cerca de 20, mas que, desde o surgimento da pandemia, só realiza encontros virtualmente com pessoas próximas, pois esses espaços estão fechados.

Há um sentido duplo nessa sensação de segurança que ela descreve. Por um lado, os adeptos sentem que terão sua integridade física resguardada nesses espaços, o que traz sensação de conforto e faz que tudo transcorra de forma mais tranquilidade. “Antes, por mais que tivéssemos curiosidade de experimentar, por exemplo, sexo a três, eu e muitas outras mulheres sentíamos medo de levar alguém para nossas casas e acabar sofrendo com episódios de violência”, admite. Por outro lado, diferentemente de outros modelos de relações abertas ou poliamoristas em que o casal poderia construir vínculos independentes, essa vivência, que também foge às regras da conjugalidade tradicional, fica delimitada a um ambiente específico. Assim, mesmo que o casal venha a se dividir formando outros arranjos amorosos – prática conhecida popularmente como “troca de casais” –, permanece preservada em meio à aventura a ideia de que o relacionamento está garantido. “A gente sabe que a intimidade dos parceiros fixos é inalcançável pelas pessoas que estão ali. É como se você convidasse alguém para a festa, mas o dono da casa continua sendo você”, reflete.

A sexóloga e educadora sexual Cida Lopes concorda que, entre outras tantas, essa noção de que o relacionamento estará mais resguardado é um atrativo destes ambientes. “Existe a crença de que, em uma relação convencional, hipoteticamente, as chances de o parceiro se apaixonar por outra pessoa ser menor. Só que muitos não se satisfazem com este modelo, que foi normatizado, como se fosse regra. Já um formato aberto, embora tenha crescido o número de pessoas que verbalizam o desejo de abrir suas relações, ainda desperta muita insegurança”, observa.

Logo, as casas de swing – “ambientes em que, aparentemente, se tem mais controle sobre o outro” – surgem como uma possibilidade intermediária, pois a ruptura com a estrutura monogâmica fica condicionada a um espaço e tempo específicos. Contudo, a sexóloga sublinha que nenhum arranjo marital, em qualquer formato que seja, está garantido e alerta: “É ilusório pensar que a experiência não terá desdobramentos, porque terá. Quem se propõe a ir, deve pensar se dá conta depois”. 

Acordos são fundamentais

“A vantagem que essa possibilidade traz para o casal é que a experiência pode colorir mais a relação, trazer experiências mais diversificadas e apimentar a dinâmica sexual”, avalia Cida Lopes, que pondera: “A grande questão é se as duas partes concordam com isso. Se concordam, está tudo feito”. Ela destaca que, apesar das premissas moralistas, nada há de errado nessas vivências do ponto de vista psicológico. “Se trouxer sofrimento para a própria pessoa, colocar ela em risco, se prejudicar o outro ou se não houver consentimento, então temos um problema. O resto está liberado, sendo fundamental o acordo entre as partes”, reforça.

O recado é reforçado por Alice. “O casal, antes de ir, precisa fazer seus contratos, que podem ir mudando. A primeira vez que fui, deixei claro para meu parceiro que eu queria ser obrigada a nada. Que, na hora, podia ser que nem o toque dele eu fosse querer, pois não sabia como ia ser. E que, se eu chamasse para ir embora, era para ir embora mesmo”, comenta.

Posteriormente, esse acordo pode ser flexibilizado, como aconteceu no caso dela. “Depois, à medida que for se soltando, os dois podem combinar de novo. E, se sentir ciúme, vale dar um abraço e chamar a pessoa para se sentar no bar até aquela sensação passar”, aconselha a veterana. Ela ainda adverte que as casas de swing e as festas liberais não são espaço para discutir a relação. “Se acontecer alguma coisa que causar incômodo, o ideal é que se fale sobre isso depois, quando estiver em casa”, resume.

Dinâmicas e arquitetura do prazer

“Tudo pode acontecer, desde que você queira”, assinala Alice, lembrando que nesses locais pouco se fala. “Até perguntar o nome de uma pessoa é algo que causa estranhamento”, sinaliza, completando que os frequentadores ficam atentos à comunicação não verbal. “Basta um pequeno gesto para entender se a pessoa quer ou não fazer alguma coisa”, explica a professora universitária. O simples fato de estar em um lugar específico já pode explicitar uma vontade: “Quem está no bar, por exemplo, quer só assistir, sem interagir. Em algumas casas, há tatames, para onde vai quem está aberto a transar com uma ou mais pessoas”. 

Alice cita que, entre os diversos ambientes oferecidos por essas casas, há cômodos em que há pequenos orifícios nas paredes. “Se a pessoa ficar próxima deles, é porque quer ser tocada. Mas ela não vai saber se está sendo estimulada por um homem ou uma mulher”, revela. Em geral, todos espaços têm iluminação baixa, e alguns quartos são mais escuros. Neles, só casais podem entrar. “É onde, normalmente, acontece o sexo grupal”, pontua. E há ainda aquários ou espaços em que há frestas para que os mais exibicionistas possam performar diante de uma plateia voyeur.

A frequentadora, que conhece casas de swing de diversos outros Estados, situa que, na capital mineira, ainda há um rigor no controle das entradas. “Em BH, costumo ir em duas. Uma na Pampulha, a Freedom Club BH, e outra no bairro Castelo, a Swing Club BH, que foi pioneira na cidade. Muitas vezes, é necessário fazer reserva com antecedência para entrar”, comenta, salientando que há diversas festas temáticas. “Já vi noite de máscaras, noite de drinks e até réveillon. Só nunca vi Carnaval”, brinca.

“Em outras cidades, como em São Paulo ou em Salvador, compra-se a entrada na hora”, explica, lembrando que a entrada de pessoas solteiras é impedida ou desencorajada. “Quando são admitidos, pagam três ou quatro vezes mais caro que os casais”, expõe.

Códigos e regras

O uso de drogas ilícitas está entre os comportamentos vedados pela maioria das casas. Algumas, também proíbem, mesmo que em um acordo não verbalizado, interações homossexuais entre homens embora, entre mulheres, essas relações sejam bem vistas e até estimuladas.

“Até pouco tempo atrás, só casais heterossexuais eram admitidos, o que era uma chatice”, situa, lembrando que, em boa parte desses lugares, gays ainda são barrados ou, quando entram, não conseguem muitos parceiros. “Persiste a crença (e o preconceito) de que eles têm um comportamento mais agressivo, que a presença deles poderia deixar o ambiente meio chulo”, reconhece.

Alice acrescenta que, apesar de em geral partir dos homens a proposta de ir a uma casa de swing, é comum que, na primeira experiência, eles não consigam manter a ereção: “É um ambiente adverso. Alguns acabam se frustrando e não voltam. Outros retornam com mais tranquilidade depois e, então, dá tudo certo”. Quem, a exemplo dela, se torna frequentador destes espaços acaba formando uma comunidade. “É muito comum que aconteçam festinhas particulares na casa de pessoas que se conhecem nesses lugares”, identifica, observando que os adeptos sempre levam consigo preservativos e que celulares não costumam sair das bolsas.

Por fim, a veterana lamenta uma mudança de perfil dos frequentadores. “É algo que começou reunindo pessoas mais velhas, mas, agora, os mais jovens têm ido também. Eles levam para estes lugares uma lógica mais de festa, essa coisa mais efêmera, de internet. Não é a mesma coisa”, avalia.

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