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'Kit Covid'

Venda de ivermectina aumenta nove vezes em Minas e preocupa por risco à saúde

Grupos de WhatsApp incentivam utilização do medicamento no "tratamento precoce" contra Covid-19, que não tem comprovação científica e pode causar danos

Por Gabriel Rodrigues Publicado em 5 de abril de 2021 | 06h00 - Atualizado em 7 de abril de 2021 | 00h40
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Na última semana semana, mais do que colocar a eficácia do remédio em dúvida, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a recomendar oficialmente que não se utilize a ivermectina em casos de Covid-19. No Brasil e em Minas Gerais, a ivermectina foi o remédio associado à doença cujas vendas mais cresceram em 2020, superando até as de hidroxicloroquina, segundo levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF). Em Minas, a comercialização do vermífugo aumentou quase nove vezes em 2020, em relação a 2019: no último ano, foram vendidas cerca de 5,4 milhões de comprimidos de ivermectina, enquanto, em 2019, haviam sido 609 mil.  

 

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O uso indiscriminado do medicamento já causa efeitos negativos na saúde de brasileiros. Há relatos de médicos, em São Paulo, de pacientes na fila de espera para um transplante de fígado devido à intoxicação pelo excesso de remédio. Em Minas Gerais, não há pacientes nessa situação, de acordo com o diretor do MG Transplantes, o médico Omar Cançado Júnior, que ressalta, de qualquer forma, que o uso irrestrito do medicamento pode levar à intoxicação do fígado. 

O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia, João Marcello Netto, destaca que o remédio, quando receitado para as infecções parasitárias que constam em sua bula, é seguro nas doses habituais. O risco começa quando as pessoas ingerem os comprimidos acima das doses consideradas normais e durante muitos dias. “O fígado é o órgão que recebe o sangue e faz a primeira metabolização dos medicamentos. Em geral, o que se vê nesses casos é aumento transitório de regiões do órgão, mas existem relatos de hepatite grave”, explica.

Ele rechaça o argumento de que o medicamento pode ser utilizado “por via das dúvidas” pela população como dose anual de vermífugo. “Antigamente, havia a prática de tomar vermífugo uma vez por ano, mas hoje em dia não é assim. Os remédios fazem parte de tratamentos para vermes específicos que foram identificados em exames”, destaca.

O farmacêutico Wellington Barros, consultor do Conselho Federal de Farmácia (CFF), critica farmácias que fazem promoções e anúncios de ivermectina e de outros medicamentos associados ao “tratamento precoce”. “Do ponto de vista mercadológico, pode até se justificar. Legalmente, pode não haver proibição, mas são atitudes totalmente imorais, porque contribuem para o uso indiscriminado e irracional de medicamentos”, completa. 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já não obriga que a receita da ivermectina seja retida, porém a venda ainda deve ser realizada apenas com apresentação de receita médica.  

Grupos de WhatsApp incentivam uso de ‘kit Covid’

O Conselho Federal de Medicina (CFM) deixa os médicos livres para prescreverem medicamentos sem eficácia comprovada contra Covid-19. Ao mesmo tempo, na contramão da ciência, grupos de WhatsApp tentam se converter em consultório médico e trazem dicas até sobre a quantidade de comprimidos que devem ser tomados no “tratamento precoce”.

Um levantamento realizado por pesquisadores do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entre os dias 1º e 25 de março deste ano, monitorou 827 grupos públicos de WhatsApp com viés político, seja favorável ou contrário ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), costumeiro defensor do “tratamento precoce”. O termo “ivermectina” foi detectado cerca de 6,7 mil vezes, principalmente nos dias finais da avaliação. 

“Começamos a monitorar grupos nas eleições de 2018. Hoje, a maioria dos que estão ativos é bolsonarista. Nos chamou atenção o aumento do aparecimento de ‘ivermectina’ em março deste ano. Não sabemos quem está originando isso, se há uma fonte criando esses conteúdos, se são ativistas, pessoas criando isso da cabeça delas”, diz o coordenador do projeto, o professor Fabrício Benevenuto.  

A mensagem mais compartilhada nos grupos foi sobre a utilização do “tratamento precoce” em Sorocaba, no interior de São Paulo, iniciado no dia 19 de março. A segunda mensagem mais repassada dá o passo a passo completo da quantidade de comprimidos de cada medicamento que supostamente deve ser ingerido contra a Covid-19, inclusive ivermectina e hidroxicloroquina,. Uma das imagens mais populares usa a hashtag “#diadetomarivermectina” e diz que no “dia 28 de março, todo o Brasil vai tomar ivermectina”. 

“Há dois tipos de fake news: aquelas que desacreditamos na hora e aquelas que são disfarçadas de publicação ou evidência científica. A mais recente de que tenho notícia é de algumas semanas atrás, e fala sobre um suposto grande estudo internacional, bem rebuscado e com estatísticas. Mas, quando vamos investigar, vemos que não dá para descobrir quem financia o site do estudo e qual é a procedência dele. Os tais pesquisadores optaram por permanecer anônimos, mas qual cientista que descobriu a cura para uma doença não quer receber os méritos?”, diz o farmacêutico Wellington Barros, consultor do Conselho Federal de Farmácia (CFF).

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