Pampulha: o eterno custo da lagoa

Pampulha é alvo de projetos para solucionar problemas ambientais desde 1980

Poder público já prometeu desenvolver ações que possibilitem nadar, pescar e navegar na lagoa

Por Cristiana Andrade
Publicado em 24 de outubro de 2022 | 05:00
 
 
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De 1980 a 2022, diversos foram os projetos pensados e executados para solucionar os problemas ambientais da lagoa da Pampulha – houve rebaixamento do nível da água para retirar o assoreamento; uso de boias para barrar aguapés; contenção para evitar resíduos flutuantes; biorremediador para cuidar da desinfecção e degradação de matéria orgânica; remediador físico-químico para reduzir as concentrações de fósforo em ambientes aquáticos;  Meta 2014, que incluía a promessa de pescar, nadar e navegar na Pampulha; dragagem do fundo da lagoa – que entre 2018 e 2021 retirou 520 mil metros cúbicos de sedimentos e resíduos do fundo do lago. 

“A Pampulha tem um problema que representa uma ameaça à saúde pública: as capivaras, hospedeiras do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), que causa a febre maculosa”, pontua o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho, professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos maiores estudiosos da bacia da Pampulha.

Sobre a poluição da lagoa, ele diz que não há fórmulas miraculosas: se não tirar o esgoto, não há solução para o assoreamento e a contaminação do espelho d’água. Pode usar pelagem de sedimentos, “phoslock” (tecnologia desenvolvida na Austrália para imobilizar os fosfatos da água), o que quiser, que a lagoa da Pampulha vai continuar sofrendo e sendo ‘maquiada’”, acrescenta.

“Foram várias administrações municipais, de todas as coligações partidárias, ao lado de uma sociedade incompetente para resolver a questão do lançamento de esgoto na lagoa da Pampulha – essa situação, na verdade, é tolerada pelo poder público e pela sociedade. O Brasil tem uma legislação superavançada, um aparato legal que é motivo até de orgulho mundial, mas somos incapazes de aplicar a lei. Convivemos com a doença crônica da impunidade, inclusive em relação ao Plano Nacional de Saneamento: lançar esgoto em córregos e ribeirões é ilegal e pode ser enquadrado como crime ambiental”, pontua Ricardo Motta, que atua hoje como consultor ambiental. 

Uma década de recomendações

Há uma década, os pesquisadores do LGAR/ICB/UFMG fizeram recomendações para o tratamento da lagoa, entre eles tratar todo o aporte de esgotos que chegam à represa, com remoção de fósforo; recuperar a ictiofauna, nascentes, córregos e matas ciliares na bacia da Pampulha e no reservatório; melhorar os programas de monitoramento; implantar programas de reciclagem e coleta seletiva de lixo na bacia; incentivar o pré-tratamento de esgotos não domésticos e a reciclagem de água em indústrias, shoppings, universidades e grandes condomínios da bacia. 

Além disso, orienta-se criar e readequar programas de educação ambiental em todas as instituições escolares, públicas e privadas, do nível pré-escolar ao ensino superior, localizadas na bacia da Pampulha; implementar programas de vigilância epidemiológica e sanitária; e impedir a verticalização na orla da represa.

“Constatamos a contínua depreciação da qualidade de água, apesar das inúmeras medidas já tomadas por diversas administrações. Há numerosos casos bem-sucedidos de recuperação de lagos urbanos com dimensões até muito mais expressivas do que o reservatório da Pampulha. Acreditamos que é perfeitamente possível recuperarmos esse cartão de visitas da cidade, mas é importante que todo e qualquer programa de recuperação ambiental da represa seja acompanhado de monitoramento executado por profissionais do mais alto nível técnico-científico e que todo o programa de recuperação do lago seja coordenado por um ecólogo especialista em limnologia de reservatórios, com comprovada experiência no assunto”, finalizou, em 31 outubro de 2011, o relator e coordenador do atlas, Ricardo Motta.

A situação da lagoa da Pampulha, do ponto de vista do patrimônio cultural, histórico e ambiental, o assoreamento que sufoca o reservatório há anos e a nova promessa para resgatar o lago artificial são alguns dos temas abordados na reportagem especial que O TEMPO publica hoje (24). Acesse o conteúdo completo aqui

 

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