Saúde

Aneurisma cerebral: O mal que acometeu a Daenerys, de “GOT”

Doença silenciosa é potencialmente fatal; mudanças de hábitos podem reduzir incidência de casos

Dom, 31/03/19 - 03h00
Depoimento de Emilia Clarke, a Daenerys de “Game of Thrones”, que estreia a última temporada em 14 de abril, chamou a atenção para os casos de aneurisma | Foto: HBO/Divulgação


O aneurisma cerebral é uma doença silenciosa – e não apenas por seu caráter, muitas vezes, assintomático, mas também por permanecer invisível para boa parte da sociedade, afinal, embora potencialmente fatal, não é tão comum que se fale de tal moléstia. E, talvez, o tema permanecesse, assim, não fosse o boom de interesse atraído pelo relato da atriz Emilia Clarke, 32, da série “Game of Thrones”: em um artigo publicado no último dia 21, na revista “The New Yorker”, a intérprete de Daenerys Targaryen quebrou o silêncio e expôs ter sofrido dois aneurismas após as gravações da primeira temporada da bem-sucedida série da HBO – o primeiro caso, aos 24 anos.

“Senti como se uma cinta elástica apertasse o meu cérebro. Tentei ignorar a dor, mas não consegui. Disse ao meu personal trainer que precisava fazer um descanso. Quase me arrastando, cheguei ao vestiário. Entrei no banheiro e me ajoelhei, com náuseas. Enquanto isso, a dor me perfurava a cabeça cada vez mais”, escreve ela, explicando ter sido socorrida por uma mulher, que a encontrou e acionou uma ambulância – momento em que sua consciência já se esvaecia.

“Na maioria das vezes, a ruptura é a única demonstração da existência de um aneurisma – que é uma lesão no aparelho da artéria, geralmente na sua bifurcação, que se assemelha a uma pequena bolha adjacente ao vaso sanguíneo”, explica Rogério Darwich, presidente da Sociedade Mineira de Neurologia. O neurologista explica que muitas pessoas convivem com aneurismas não diagnosticados durante toda vida e só quando há rompimento e, consequentemente, sangramento é que o problema passa a ser conhecido – algo que, comumente, é denunciado por uma forte dor de cabeça, “geralmente, a pior que o paciente já apresentou em sua vida”, sinaliza.

Em outras situações, o diagnóstico costuma ser incidental, ou seja, “acontece quando estamos pesquisando alguma queixa do paciente, como dores de cabeça, que não são, necessariamente, causadas pelo aneurisma”, diz. Detalhe: pode acontecer que o aneurisma nunca se rompa e que, mesmo com a anormalidade, a pessoa leve uma vida normal. É o que ocorre em 50% dos casos, conforme dados da Companhia de Processamento de Dados de Porto Alegre (Procempa).

No rico relato da atriz britânica, vale se ater na ação rápida de uma testemunha em buscar ajuda médica. “Procurar ajuda rapidamente é algo que aumenta as chances de sobrevivência”, assegura Cássio Vinícius Correia dos Reis, coordenador do serviço de neurocirurgia do Hospital das Clínicas da UFMG. Por essa razão, informa que, diante de intensa dor de cabeça, que pode ocasionar até mesmo um desmaio, rigidez no pescoço e paralisia de parte do rosto, ou se houver histórico familiar relacionado à doença deve-se buscar um médico.

Potencialmente fatal
Professor do Departamento de Anatomia e Imagem da Faculdade de Medicina da UFMG, Reis observa que cerca de 10% daqueles que sofrem com a ruptura de um aneurisma morrem antes de chegar ao hospital. Entre os que são socorridos, de 30% a 40% não resistem, mesmo depois de receber o tratamento. 

É sabido, aliás, que cerca de 15% dos Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs)são causados pelo rompimento de um aneurisma. O sangramento pode acarretar um AVC hemorrágico, ou, em um segundo momento, levar a contrações involuntárias das artérias (vasoespasmos), que causam AVCs isquêmicos. 

Finalmente, dos que sobrevivem, 25% ficam com alguma sequela. Emilia, pois, apresentou um déficit de memória por um tempo, chegando a esquecer o próprio nome. Além disso, de sua boca “saíam palavras sem sentido algum”. “Nos piores momentos, cheguei a pedir aos médicos que me deixassem morrer. Meu trabalho e todos os meus sonhos estão centrados na linguagem e na comunicação”. Uma semana depois, felizmente, saiu do UTI, já voltava a articular palavras racionalmente e recordava seu nome. Um mês depois teve alta.

Acompanhamento

Por saber da gravidade do quadro, Emilia manteve acompanhamento médico neurológico, algo recomendado por Reis. Foi assim que identificou um segundo aneurisma, ainda pequeno, e optou por não operá-lo de imediato, preferindo monitorar seu desenvolvimento. Rogério Darwich examina que, assim como a atriz, entre 20% e 30% das pessoas diagnosticadas podem apresentar aneurismas múltiplos.

Mas, ao fim das gravações da terceira temporada de “Game of Thrones”, quando se dedicava a um espetáculo na Broadway, Emilia descobriu que a deformação da artéria havia dobrado de tamanho – e, por isso, já não era recomendável apenas monitorar, e sim intervir cirurgicamente. 

Reis pondera que, independentemente do tamanho, sempre que há diagnóstico “indica-se o tratamento – a menos que o paciente esteja com quadros de morbidade, como problemas cardíacos ou pulmonares, ou se o aneurisma está em uma região de acesso difícil”. A cirurgia, explica, pode ser “convencional, aberta, colocando um clipe metálico na região”, ou “endovascular, moldando o interior da artéria”. Nos dois casos, o objetivo é “não permitir que o sangue circule por essa deformação arterial”.

Maus hábitos estão entre fatores de risco

“Nunca contei essa história publicamente, mas este é o momento”, escreve Emilia Clarke no início do testemunho sobre ter tido dois aneurismas, publicado na revista “The New Yorker”. A sua intenção, explica mais adiante no mesmo texto, é dar visibilidade a uma doença grave e importante. Iniciativa, aliás, bem vista por Cássio Vinícius Correia dos Reis, coordenador do serviço de neurocirurgia do Hospital das Clínicas. 
“As doenças cerebrovasculares estão, hoje, entre as grandes causas de mortes na sociedade. E o aneurisma é uma delas”, observa o neurologista, completando que, “assim como o diabetes, a hipertensão e os problemas cardíacos, é uma doença que está relacionada a problemas nos vasos sanguíneos, enfraquecidos por ação do tempo e em função do estilo de vida, da falta de exercícios físicos, do estresse”.

Em seu relato viral, Emilia destaca que, à época daquele episódio, depois da estreia de “Game of Thrones”, em 2011, sentia-se aterrorizada – pela atenção, pela legião de pessoas que seu trabalho afetava e por toda a pressão em honrar as expectativas a em relação a ela. Quando, em 2013, voltou a sofrer com a doença, mais uma vez passava por uma situação de estresse: havia concluído a terceira temporada da série da HBO e se dedicava a uma peça de teatro, na Broadway.

Embora não explicite uma correlação direta entre a incidência da doença e essa esmagadora sensação de estresse, especialistas avaliam que a rotina pesada pode, sim, ter contribuído para o rompimento do primeiro aneurisma e para a dilatação do segundo. Por essa razão, ao trazer o tema para o debate, Reis pontua que “a melhora da qualidade de vida, embora não previna a doença, diminui sua chance de incidência” – e este é mais um motivo para jogar luz sobre o tema.
O médico também destaca que há outros fatores de risco . “Além de fatores genéticos, a incidência é maior em adultos com mais de 40 anos, mulheres, fumantes, pessoas com diabetes e hipertensão”, cita.

SameYou 
Garantindo que, agora, está “cem por cento”, Emilia usa o relato para dizer que tem se dedicado a uma organização beneficente, com ação no Reino Unido e nos Estados Unidos. “Chama-se SameYou , e tem como objetivo oferecer tratamento às pessoas que se recuperam de lesões cerebrais”, descreve. (AB)
 

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