Capítulos do Rio Doce

Ações emergenciais recuperam cursos d'água após tragédia de Mariana

Rios Gualaxo do Norte e do Carmo receberam o plantio de espécies nativas e tiveram o contorno refeito; 113 afluentes que “desapareceram” foram recuperados

Ter, 20/08/19 - 06h00
Tributário deságua no rio Gualaxo com trabalho de reconformação das margens

A prioridade no primeiro ano de recuperação ambiental do desastre de Mariana era resgatar os rios Gualaxo do Norte e do Carmo, tomados pela lama que sufocou esses importantes afluentes do rio Doce. Para combater a erosão e evitar que o rejeito acumulado na parte externa caísse nas calhas, foram plantados, de forma emergencial, 800 hectares de espécies nativas de rápido crescimento, num trabalho sem precedentes no país.

Não existe um protocolo estabelecido para grandes desastres no Brasil. Por isso, tivemos que desenvolver um rapidamente. De forma estratégica, nos reunimos com governos e pesquisadores de restauração florestal. Não podíamos errar. Por isso, precisávamos cobrir o solo por causa da época da chuva para que não deixasse que a lama voltasse para o rio de novo”, explica o especialista de programas socioambientais da Fundação Renova, Leonardo Silva.

Paralelamente, era preciso refazer o contorno das margens dos rios em uma área de aproximadamente 1.500 hectares. A devastação já se transformou em um cenário de esperança. “Retiramos a lama das calhas, fizemos a reconformação das margens e o plantio de vegetação. São espécies de crescimento rápido e de curta duração, adaptadas para o verão e para o inverno. E realizamos também a contenção de erosão, com sistema de drenagem, colocação de rochas, um procedimento de bioengenharia, com materiais biodegradáveis, como fibra de côco”, detalha Giorgio Peixoto, coordenador de operações agroflorestais da Renova.


Vista aérea de reconformação de margens de tributário desaguando no rio Gualaxo.
Foto: Nitro Imagens/Divulgação

Planícies restabelecidas

Nas chamadas planícies de inundação – vizinhança da margem até o ponto mais distante alcançado pelo rio nas cheias – foram refeitos os caminhos da drenagem e a vegetação vem sendo restabelecida. O carreamento de sedimento para o leito do rio chegou a ter eficácia de 90%. Esse trabalho se deu até o fim de 2017. “Hoje estamos fazendo a manutenção desses pontos e, agora, estamos na etapa de plantio de mudas nativas em áreas de preservação permanente (APPs)”, adianta Peixoto.

A expectativa é chegar ao final de 2020 com 600 hectares de mata ciliar com espécies de Mata Atlântica já recuperada. Esse trabalho envolve uma extensão de 113 km de margens de rios. Além das margens, houve a naturalização das áreas atingidas pela lama que excedeu as calhas dos córregos e foi parar nas planícies.

“Quem acompanhou o processo viu a imagem inicial que era aquela área devastada pelos rejeitos. Depois, a imagem era um local já em recuperação, mas ainda uma visão de obras, antropizada. Hoje existem trechos que têm uma paisagem completamente natural”, analisa o diretor de Programas da Fundação Renova, André de Freitas.


Mudas nativas para plantio, fruto da parceria com o Instituto Terra.
Foto: Nitro Imagens/Divulgação

Afluentes restaurados

A velocidade da lama que saiu da barragem de Fundão fez com que o volume de rejeitos não só descesse junto à calha dos rios Gualaxo e do Carmo, mas invadisse pequenos afluentes seguindo o fluxo contrário do curso d’água. Ao todo, 113 afluentes praticamente desapareceram debaixo de uma camada de até 4 m de barro.

O trabalho começou com o geoprocessamento para identificar o curso original desses córregos e refazer o trajeto o mais próximo possível do que era antes. Após a recomposição da calha desses afluentes, foi feita a recuperação da mata ciliar.

Para além da devastação da paisagem local, esses pequenos córregos praticamente desapareceram, o que representaria uma redução do volume de água limpa que chega à bacia do rio Doce. Agora, menos de quatro anos depois do desastre, todos os ribeirões estão recuperados. Esse renascimento veio acompanhado de uma reprodução de ambientes naturais propícios à reprodução de peixes que já começa a dar resultados positivos.

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(10) comentários

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Filipe Paixão de Lima 5:02 PM Aug 20, 2019
Tragédia não, crime.
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Alexandre Abreu 5:01 PM Aug 20, 2019
Boas ações, porem não supre as vidas que se foram . seria uma boa se o cuidassem do Velhas . lembro me de uma promessa do antigo Senador ,governador ,hoje nem sei como se mantem deputado de fazer 10 estacoes de tratamento . para que o rio das velhas em 10 anos estivesse limpo .E ficamos nas promessas .fico imaginando ou tentando imaginar não to citando nome aqui , porem se o dinheiro que do nosso pais que permeia paraísos fiscais voltassem muito seria melhorado . ah ,como seria ótimo .
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Cristiano 3:51 PM Aug 20, 2019
O Tempo virou advogado da Vale?
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Mineiro22 3:03 PM Aug 20, 2019
Uau, que legal!!! Agora só falta prender os vagabundos que causaram a tragédia, mataram um monte de gente e destruíram famílias para sempre. Dá pra ser ou vai ficar só nas plantinhas?
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Tobias Barreto 2:15 PM Aug 20, 2019
Uai! não era para durar quatrocentos anos a devastação?
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José de Oliveira Jr. 10:33 AM Aug 20, 2019
Louvável a reação da natureza após a tragédia causada pela Vale. Mas que tá parecendo matéria paga tá sim...
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Julio Araujo 9:46 AM Aug 20, 2019
Quanto a renova pagou pela "materia"?
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Rony 2:08 PM Aug 20, 2019
Impressionante a aversão das pessoas às notícias boas. Desgraça é o que agrada.
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Rony 12:00 PM Aug 20, 2019
Impressionante a aversão das pessoas a boas notícias. Desgraça é que agrada.
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Fernando Cruz 8:59 AM Aug 20, 2019
Show!! noticia animadoras!!
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