Capítulos do Rio Doce

Impacto do rejeito do desastre de Mariana é minimizado com renaturalização

Técnica usa elementos naturais e se mostra eficaz na recuperação do ecossistema; troncos colocados no curso d’água dão condição para proliferação de organismos

Qua, 21/08/19 - 06h00
Técnicas de bioengenharia para conter a erosão aplicadas às margens do rio Gualaxo

Estimulada pelas mãos do homem, a natureza não nos cansa de surpreender. A lama que avançou pelas margens de rios e atingiu cursos d’água após o rompimento da barragem de Fundação, em Mariana, na região Central do Estado, trouxe grande impacto. Mas estimulado por técnicas apropriadas, o meio ambiente é capaz de reagir.

O trabalho proposto pela Fundação Renova, criada para coordenar as ações de reparação do desastre, decidiu, em parte dos casos, por não retirar o rejeito por completo das áreas atingidas, mas propiciar que elas se reconstituíssem naturalmente.

As primeiras ações envolveram uma preocupação em evitar a erosão para reduzir o volume dos rejeitos levados para o rio. Depois, estimulou-se a renaturalização, tecnologia que posiciona elementos naturais, como troncos, raízes e galhos, em pontos estratégicos nas margens e nos leitos dos rios, para regular a velocidade da água e reproduzir características naturais do ambiente aquático, como nascedouros de peixes.

No rio Gualaxo do Norte, os resultados são vistos na prática. Fernando Aquinoga, diretor técnico da Aplysia, empresa que faz a avaliação e monitoramento ambiental para a Renova, explica que, quando as madeiras são colocadas na água, muda-se a hidrodinâmica do local com uma maior deposição de sedimento na correnteza. A técnica cria condições para que diferentes organismos colonizem aquele ambiente.


Tecnologia posiciona troncos em pontos estratégicos do rio.
Foto: Fundação Renova/Divulgação

“Os grandes objetivos do projeto são aumentar a quantidade de peixes e criar diferentes tipos de ambiente no fundo para serem colonizados por organismos menores, que são a base da cadeia alimentar”, ressalta Aquinoga. Criada no Reino Unido, a técnica foi tropicalizada. Testada em um curso d’água da região metropolitana de Vitória, no Espírito Santo, a iniciativa promoveu o aumento de 80% de peixes por lá.

No Gualaxo, imagens preliminares já mostram áreas de refúgio de peixes sendo criadas sob as águas. “Quando a gente cria uma área mais calma, propícia para usar de berçário, eles começam a ir para estes locais. Já temos algumas gravações que mostram eles ocupando esse espaço”, pondera Aquinoga. “Essa é uma ação que já está dando resultados. A gente chega nesses ambientes e consegue visualizar os peixinhos que irão ajudar a recompor a fauna da bacia do rio Doce”, completa o diretor de programas da Renova, André de Freitas.

Para viabilizar a implantação dessa técnica que altera o fluxo de água, aumentando ou reduzindo a velocidade da correnteza, foi realizado um estudo de caracterização do impacto ambiental. A renaturalização foi autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad).

Startup

Depois de passar pela recuperação dos cursos d’água e retomada da mata ciliar nas margens, uma nova técnica de filtragem deve começar a ser testada ainda este semestre em 110 metros do rio Gualaxo do Norte como solução para reduzir a turbidez da água e possíveis índices elevados de metais.

A tecnologia foi criada por quem conhece bem o local de atuação. Morador de Mariana, o engenheiro civil e técnico em mineração Willian Pessoa teve sua empresa selecionada em um processo conduzido pela Renova que incentiva a inovação tecnológica.

Para além das ações dos resultados da própria recuperação, a escolha pela startup vai ajudar na elaboração de um novo produto que poderá chegar ao mercado.

“Queremos que micro e pequenas empresas, de base tecnológica sustentável, criem produtos que nos ajudem nesse compromisso de reparação, mas que também gerem inovação e conhecimento para o mercado, trazendo novas oportunidades de negócios para elas”, enfatiza Paulo Rocha, líder da frente de economia e inovação da Fundação Renova.


Barreira filtrante favorece que microrganismos façam a degradação da matéria orgânica ou absorvem metais
Foto: Divulgação

As Estações de Tratamento Natural (ETN) são ilhas flutuantes com raízes de plantas que naturalmente quebram a matéria orgânica e absorvem os metais presentes. O resultado é a redução da turbidez e a melhoria da qualidade da água.

“O sistema vai suavizando o fluxo do rio, fazendo com que os rejeitos fiquem retidos na barreira filtrante, que vai fazendo a biorremediação. Esse sistema favorece que microrganismos façam a degradação da matéria orgânica ou absorvam metais. Nosso foco é o ferro, alumínio e manganês. As plantas absorvem e depois fazemos um processo de manejo, para ser utilizada como subproduto com valor agregado, como artesanato ou adubo verde”, destaca Pessoa.

O projeto-piloto prevê o desvio da água para os tanques laterais onde passarão por etapas de agitação, sedimentação de impurezas e, por fim, a filtragem nas ilhas com as plantas aquáticas. Depois, o volume já filtrado é devolvido ao rio.

O sistema começará a funcionar ainda no segundo semestre deste ano e a expectativa é que a melhoria da qualidade da água já possa ser observada em fevereiro de 2020.

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(9) comentários

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Maria Isabel Azevedo 8:59 PM Aug 23, 2019
A Vale cumpriu com a palavra de ressarcir as familias, dos que morreram, dos que ficaram sem moradia? Pagou o que deve, ou só está fazendo propaganda?
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sebastiao di paula 6:02 PM Aug 21, 2019
Independente de matéria paga ou não isso não me interessa, o que interessa saber se algo está sendo feito, ou reparado do que foi destruído pela tragédia ocorrida, entendi que a intenção da reportagem foi informar que os rios estão sendo recuperados, isso é fantástico, graças a Deus.
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Maria Isabel Azevedo 6:17 PM Aug 21, 2019
Que inocência! Cada matéria que se abre vem isso! Não é matéria paga? O que a Vale fez, pagou,m e recuperou nas barragens se degradando? O que se passa de verdade em MG?
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sebastiao di paula 5:53 PM Aug 21, 2019
Gostaria de parabenizar o Jornal o Tempo pela excelente reportagem sobre recuperação gradual que vem sendo feito pelos ambientalistas, trgedia ocorrida em Mariana, fiz questão de enviar a um amigo engenheiro ambientalista, parabéns por nós trazer mais uma importante reportagem com respeito a degradação ambiental, sendo recuperada por pessoas preocupadas com o meio ambiente.
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Maria Isabel Azevedo 6:15 PM Aug 21, 2019
Algum parente seu morreu? Algum amigo? Perdeu tudo que tinha? Pq este jornal só está fazendo propaganda para a Vale...E as vidas?
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Erick Wagner 10:33 AM Aug 21, 2019
Claro que toda revitalização é valida e plausível, más está na cara que se trata de matéria paga. Chego a acreditar que querem nos passar o seguinte: podem predar, depredar, contaminar e matar a vontade que depois tudo volta ao normal, melhor que era antes...
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Julio Araujo 10:04 AM Aug 21, 2019
Materia paga. "Jornalismo é publicar aquilo que alguem não quer que se publique. Todo o resto é publicidade"
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Maria Isabel Azevedo 9:31 AM Aug 21, 2019
Estão enfeitando o pavão...Nada aconteceu, tudo se recupera e quem morreu, ressuscita! Essa Vale! Essa mídia...
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Maria Isabel Azevedo 9:26 AM Aug 21, 2019
Vão fazer tudo para que a Vale continue, nessa safadeza...A verdade...O que pagou, quais as barragens revistas? O que a Vale pagou?
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