Episódio 3

Religiosidade: a recuperação de obras sacras que desapareceram na lama

Quinze arqueólogos percorreram 100 km na área atingida; equipe em campo conseguiu resgatar 2.500 peças

Seg, 14/10/19 - 03h00
Quinze arqueólogos percorreram 100 km na área atingida e conseguiram recuperar 2.500 peças
audima

O “berço de Minas Gerais”. Assim é conhecida a cidade de Mariana. Afinal foi a primeira vila, capital e primeira cidade do Estado. Ali é possível encontrar casarões do período colonial, igrejas centenárias, ruas de pedra... Fundada em 1711, a cidade é hoje uma das mais importantes do Circuito do Ouro, onde arte e religiosidade se misturam. São inúmeros trabalhos de arte barroca espalhados pelos quatro cantos do município.

O rompimento da barragem de Fundão, em 2015, destruiu quatro capelas existentes no caminho dos rejeitos. Obras e imagens sacras despareceram em meio à lama. Quinze arqueólogos percorreram 100 km na área atingida e a equipe em campo resgatou 2.500 peças. Muitas delas datam do século XVIII e possuem grande importância para os moradores.

Tudo o que foi encontrado é guardado num espaço, no Centro de Mariana, criado pela Fundação Renova, chamado de Reserva Técnica.

"O nosso objetivo é salvaguardar esse acervo sacro, conservar, restaurar e devolver para a comunidade. Mas, principalmente, resgatar a memória coletiva e a história de cada comunidade atingida", conta Sílvia Maria Marques, pedagoga.


36 obras sacras encontradas em meios aos rejeitos, após o rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015, já foram restauradas.
Foto: Diego Luís

Os objetos resgatados chegam, na maioria das vezes, encobertos pelos rejeitos e passam por um trabalho minucioso e delicado de restauração. O primeiro passo é elaborar um projeto para aprovação do órgão competente, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG). Depois, as peças são limpas e começam a ganhar vida. Com cores, traços e desenhos originais.

Hiata era moradora de Bento Rodrigues, um dos distritos atingidos pelo desastre, e frequentava uma das igrejas da comunidade. Atualmente, é assistente de restauração e ajuda a recuperar a identidade do local onde sempre viveu.

"É muito bom porque é uma coisa nossa... Tudo o que a gente fizer aqui hoje é para a comunidade. O que a gente mais quer é voltar para a comunidade", exclama.

Ao todo, 36 peças já foram restauradas. Os moradores têm acesso livre ao local e às obras.


O repórter Bruno Faustino conversou com uma moradora do distrito de Bento Rodrigues que, hoje, auxilia no trabalho de restauração
Foto: Diego Luís

"É um direito da comunidade visitar este espaço. Isso mostra que também é deles, que podem vir quando quiserem. Estamos abertos para recebê-los e ouvi-los porque isso nos ajuda a qualificar o acervo", finaliza a pedagoga Sílvia Maria Marques.

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