Crônica

Bombeiro escreve relato emocionante de resgate de mulher perto do Ponteio

Soldado evitou que mulher fosse atropelada na BR-356

Seg, 15/07/19 - 15h31
Bombeiro impede que mulher seja atropelada na BR-356, em BH

Eu era apenas uma criança quando tomei meu primeiro gol na equipe de futebol na época de colégio. As vozes de decepção do time fixaram-se dentro de mim, em um lugar aonde ninguém mais poderia ver ou tocar, lá dentro do meu inseguro e infante coração, silenciosamente caladas. Eu queria que pudessem confiar em mim. E doeu, como doeu. Afinal, eu errei e não chorei. 

Era quase tarde de um sábado frio. Eu fazia aquela fumacinha com a boca soprando no vento. O forte cheiro do meu surrado roupão de incêndio me faz sempre lembrar de levá-lo para lavar em casa, mas eu sempre esqueço, afinal, num plantão de 24 horas a gente pensa em tudo, pensa na vida e na morte, no amor e na dor até nos números da Mega Sena, menos em comprar o tal sabão cheirosinho para lavar o uniforme. Ah, como eu gosto de deitar em um lençol com aquele cheiro bom. 

Bom, era mais ou menos isso que se passava na minha mente enquanto retirava a minha calça, escorado na viatura, após um chamado de incêndio em um shopping. Eu já estava meio apressado porque me lembrei que deixei minha marmita fora da geladeira e queria voltar rápido para o batalhão, quando, como um soco seco e súbito, escuto um grito que se misturava com os barulhos dos carros, dos caminhões e do vento que descia a BR. Havia também o barulho de algumas maritacas, eu acho. 

Não entendi bem o que acontecia, nem localizei de onde vinha esse som que, mesmo sem eu entender, já aguçava meus sentidos. Pensei novamente na marmita azeda e continuei a arrumar meus equipamentos quando, como numa poesia cheia de dor, ouvi em alto e bom tom o clamor: 

- Bombeiro! Bombeiro! Socorro! 

Meus olhos se voltaram para o outro lado da rodovia e vejo uma cena confusa, agitada. Uma mulher desconhecida se debatia no chão enquanto outras duas pessoas, também desconhecidas, tentavam segurá-la e acalmá-la, na beira da pista. 

Eram seis faixas que eu precisava atravessar para chegar lá: 50 metros e uma dezena de ansiosos carros para contornar. Vale lembrar que, mesmo sendo goleiro na infância, tinha até uma certa habilidade de finta. Então tomei a decisão: fui driblando os carros, as motos, o vento, o ego.

Alguns segundos, cheguei até o passeio e disse: - O que está acontecendo aqui, gente? 

A mulher que estava segurando a outra agitada, disse com a voz de quem quase chorava de nervoso: 

- É minha irmã. Ela não tá bem. Me ajuda aqui, por favor, bombeiro!

Confesso: naquele momento eu não entendia o que estava acontecendo. Minha mente precisava interpretar tudo rapidamente. É minha função, caramba! Fui treinado pra isso e precisava fazer algo, mesmo que fosse uma conversa.

Pedi que a agitada moça, ainda sem nome, se sentasse. Ela acatou minha súplica: sentou-se, fechou-se. Agachei-me, firme, frio mas vivo, peguei em seus braços, olhei em seus olhos e disse: 

- Olha pra mim! 

Ela não me via, ou não queria me ver. 

Estranho, eu visto a farda e desvisto de mim. Eu era apenas um capacete amarelo com uma roupa vermelha e laranja falante. 
Ainda de frente para a chorosa mulher, olhei para o lado para conversar com sua irmã, tudo isso em poucos segundos. Foi quando, de repente, bem na minha frente, ela se levanta e dispara em direção aos veículos que desciam em alta velocidade.

O coração pulsou, a pupila dilatou, a adrenalina correu nas veias, meus sentidos se aguçaram. Numa desesperada súplica, sua irmã gritou: 

- Minha irmã! Meu Deus! 

Os carros iam e vinham, a sinfonia dos motores dava seu tom. O prelúdio da tragédia foi anunciado. Mas não, hoje não, pensei: 

-Hoje vocês podem confiar em mim. 

Disparei atrás dela embrenhando-me na rodovia. O primeiro carro passou bem perto dela: ela errou, eu desviei. O segundo carro freou e mudou de faixa. Ela errou, eu desviei. Na terceira faixa vinha o que poderiam ser seu fim. 

Vi que ela direcionou seu corpo na certeza de bater de frente. Sua decisão havia sido tomada. Faltava apenas a minha: e decidi. Tirei, escondida no pó, guardada com dor, aquela criança que também chorou calado, como ela sempre chora. Pulei, defendi, não o gol, mas a vida daquela mulher. 

O vento soprou em minhas costas. Vi a morte tocar meus ombros fazendo-me um indesejado convite. Neguei e disse: 

- Hoje não, querida amiga, talvez noutro momento. 

O retrovisor do veículo raspou em meus ombros e caímos no chão no acostamento da rodovia. O mundo fez silêncio. Eu a alcancei, chorei. Ou melhor, nós choramos. 

Sua súplica suada e melada em meus ouvidos era como o pedido por um abraço, que lhe dei. No desespero, ela me deu um presente: uma mordida no antebraço que fez meu sangue escorrer. Talvez fosse ela se agarrando ao último fio da vida. Toquei sua pele, aproximei-me do seu ouvido e disse como quem diz para alguém conhecido: 

- Você está comigo! 

Internamente pensei: 

- O goleiro não mais precisa chorar calado. A criança não mais precisa esconder a sua dor. Eu também sangro. Eu também sofro. Eu também vivo. 

(7) comentários

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DJ 2:53 PM Jul 16, 2019
Parece até trecho de um livro, parabéns. E pode escrever um livro que eu compro...
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Gustavo 9:12 AM Jul 16, 2019
SENSACIONAL a atitude e o relato! MÁXIMO respeito pelos integrantes desta relevante corporação! Que DEUS sempre os abençoe!
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Idiota pagador de impostos 8:39 AM Jul 16, 2019
Parabéns ao bombeiro, esse sim um VERDADEIRO HERÓI... Quanto ao título da notícia, merece mais destaque, afinal o soldado não evitou que a mulher fosse atropelada... ele LITERALMENTE EVITOU QUE A MULHER COMETESSE SUICÍDIO... E ELE EVITOU OUTROS ACIDENTES QUE PODERIAM TER ACONTECIDO...
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Ocitelta 8:38 AM Jul 16, 2019
Da mesma forma que há tanta indignidade no mundo, há também muita beleza, lealdade, coragem, determinação e bons exemplos a serem seguidos. Parabens ao bombeiro.
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Sergio Fonseca Osorio 9:22 PM Jul 15, 2019
Pouca coisa me emociona. Chorei com esse relato... eu acho que é essa a função dos heróis: fazer gente descrente como eu acreditar em algo e se emocionar. Parabéns herói bombeiro!
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Iara Martins de Andrade Marini 6:28 PM Jul 15, 2019
Gratidão a este bombeiro! Atento, solidário e corajoso, além de fazer um relato poético de seu drama!
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AUDILEIA ALVES DA PAIXAO 5:37 PM Jul 15, 2019
Parabéns ao bombeiro que ,quando quiser, será um escritor, quiçá um cronista para descrever com palavras a perfeição dos sentimentos.
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