Literatura

Jacques Fux lança seu novo romance 'Nobel'

Escrito mineiro estabelece uma espécie de tetralogia

PUBLICADO EM 09/04/18 - 03h00

Após sua estreia com “Antiterapias”, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura em 2013, o belo-horizontino Jacques Fux apresentou “Brochadas: Confissões Sexuais de um Jovem Escritor” (2015) e “Meshugá: Um Romance Sobre a Loucura” (2016). Agora ele traz a público “Nobel”, que será lançado nesta terça (10) no encontro promovido pelo Sempre um Papo, no auditório da Cemig.

Na ocasião, o escritor vai participar de uma conversa com o público, que poderá saber mais detalhes de seu processo criativo. Quem acompanha o trabalho de Jacques vai encontrar no novo título afinidades com seus textos anteriores. A começar pela voz do personagem, que, desta vez, apresenta um discurso repleto de polêmicas durante a cerimônia de recebimento do prêmio Nobel – algo ainda inédito entre os autores brasileiros.

“Esses quatro livros fazem parte de um mesmo projeto literário. Eu brinco que eles se conectam justamente por meio da voz desse narrador que, desde o ‘Antiterapias’, já menciona o interesse em ganhar o Nobel. Depois, em ‘Brochadas’, esse narrador passa por problemas sexuais e psiquiátricos. Em ‘Meshugá’, ele entra na cabeça de vários personagens (entre eles, o cineasta, ator e escritor Woody Allen) e, em ‘Nobel’, ele se torna um deles. De certa forma, ele se revela ali”, resume Jacques.

Diante de seus pares, o narrador dispara uma metralhadora de infâmias, trazendo à tona intrigas, disputas amorosas e episódios muitas vezes perturbadores ligados à trajetória de vários escritores, como Mario Vargas Llosa, Jorge Luis Borges, Fernando Pessoa e Günter Grass. Declarações racistas de Borges e Pessoa, por exemplo, são recordadas, abrindo espaço para a pergunta: todo artista é alguém à frente de seu tempo?

“O livro coloca o dedo na ferida. Nós vemos grandes escritores, como Rudyard Kipling e Fernando Pessoa, que escreveram coisas maravilhosas, mas não conseguiram sair do seu tempo. Continuaram sendo racistas, como Borges também. Por mais que o contexto histórico e social tornasse mais difícil romper com essas amarras, talvez seja essa a função do escritor, e, assim, ele pode tornar visível o que os outros não são capazes de enxergar”, observa Jacques, que, em seguida, pontua o diálogo com textos de Michel Foucault e de Borges sobre a infâmia em sua ficção.

“Nós podemos pensar também em uma relação com a psicanálise, que afirma que nós somos justamente o que escondemos. Aquilo que está escondido é o que fornece nossa maior pulsão. O livro traz, por exemplo, o caso do escritor alemão Günter Grass, que ganhou o Nobel e só depois se descobriu que ele fez parte da juventude nazista. Até que ponto isso foi ou não algo que o constituiu é uma das polêmicas do livro. E nesse o que não falta é polêmica”, completa o escritor.

Provocação. Em seu ímpeto de trazer verdades, o personagem ataca todos os escritores chamando de mentirosos, falsários, e dessa provocação não escapa ninguém, nem mesmo a jornalista e escritora russa Svetlana Alexijevich, laureada com o Nobel em 2015. Respingos dessa verborragia, contudo, não deixam de recair sobre ele mesmo.

“Ele se contradiz e se refuta o tempo inteiro. Enfim, a figura do escritor talvez seja mais próxima dessa figura polêmica, conturbada, perdida, mas que faz dessa angústia uma matéria criadora. Não é que mostrando a ferida dos outros ele está se elevando, ao contrário: ele está se colocando no meio de toda essa balbúrdia”, afirma Jacques.

“Plagiadores” são basicamente todos os escritores que entram na mira do narrador. Ele, inclusive, reivindica a autoria um dos poemas de Kipling. Ironias à parte, Jacques reflete que tal perspectiva tem muito a ver com a literatura contemporânea.

“Isso não quer dizer que ela se apropria dos textos da forma como o narrador eleva. Ele diz também que textos de Borges são dele e que se senta no colo de (Samuel) Beckett como uma marionete. Mas a literatura contemporânea é esse abraço que nós podemos dar nos clássicos, que estão nos nossos ombros nos empurrando. Acho que nunca será possível falar de memória sem abordar ‘Em Busca do Tempo Perdido’, de Marcel Proust. De certa forma, o que o sueco Karl Ove Knausgård faz, de uma maneira muito bem feita, é um projeto memorialista tal qual Proust fez no início do século XX. Mia Couto também já falou que ele procura fazer algo muito próximo do que Guimarães Rosa fez. Então, esses caras estão sempre prestando homenagens a seus predecessores. E acho que não devemos olhar para esse legado sob uma ótica negativa, mas devemos abraçá-lo e incorporar”, conclui Jacques.

Agenda

o quê. Jacques Fux lança “Nobel”, no Sempre um Papo

quando. Terça (10), às 19h30

onde. Auditório da Cemig (rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho)

quanto. Entrada gratuita

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