Cinema

Almodóvar apresenta 'Dor e Glória', seu filme mais intimista

Produção do cineasta espanhol que estreia nesta quinta (13) no país pode surpreender o mais fiel espectador

Qui, 13/06/19 - 03h00

Pedro Almodóvar faz 70 anos em setembro. O cineasta espanhol, que criou tantos enredos absurdos, geniais e autorais, sabe que nem sempre é preciso chocar para surpreender. “Dor e Glória”, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (13), é uma obra singular na filmografia de Almodóvar. Quem está acostumado ao estilo dele vai passar o filme todo esperando por uma situação inusitada ou algo que leve os personagens a sair dos lugares que ocupam. Só que nada acontece. Quer dizer, tudo acontece, mas dentro do ordinário – ao menos para um enredo de Almodóvar.

“Dor e Glória” é, em parte, autobiográfico. Ele também pode ser considerado parte de uma “trilogia”, junto com “A Lei do Desejo”(1987) e “A Má Educação” (2004), todos com foco no cinema e na sexualidade. Na nova produção, o cineasta parte de suas próprias vivências, sensações e desejos para contar a história de Salvador Mallo, um cineasta que sofre com a chegada da idade, a solidão (cavada por ele mesmo), as dores que o acometem e a depressão decorrente delas.

O ator preferido

Salvador, por acreditar não mais ser a pessoa que era, isola-se em seu mundo, até que um convite o faz encarar a vida que, afinal, ainda não se encerrou. Ao visitar seu passado – a relação com a sua mãe, o primeiro desejo, o grande amor –, ele passa a encarar o presente de outra forma. O protagonista é Antonio Banderas, claro. Ator presente em todas as obras do início da carreira de Almodóvar, ele está em filmes como “A Lei do Desejo” (1987), “Ata-Me” (1990) e o icônico “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, de 1988.

Diz Salvador, a certa altura do filme, ao resgatar uma pintura perdida e endereçada a ele, que não é preciso perseguir tramas sensacionais e histórias mirabolantes, pois a obra chegou bem a seu destinatário. Está tudo certo, e não é preciso nada a mais. Esse é o espírito de “Dor e Glória”. Almodóvar cria algumas situações que levam o espectador a crer que algo muito dramático vai acontecer: Salvador ficará à beira da morte; ou será enganado e roubado; ou sofrerá uma overdose, um abuso sexual… E por aí vai. O espanhol também joga com os clichês e faz o público ficar apreensivo ao se deparar com uma situação em que tudo leva a cenas que podem ter soluções muito fáceis. Mas, ufa! O filme é de Almodóvar, e, claro, não há lugar-comum em sua obra.

No enredo, quando uma cinemateca decide exibir “Sabor”, o primeiro filme de Salvador, 32 anos após seu lançamento, o cineasta começa a ver que a maturidade lhe traz tranquilidade, o que não significa falta de criatividade ou incapacidade de ser grande. O reencontro com o protagonista do filme, Alberto (Asier Etxeandia), com quem ele não falava desde a realização do longa, desencadeia uma série de acontecimentos que levarão o cineasta a adotar outra postura diante da vida. Ao encontrar Alberto, eles usam juntos heroína, substância que acalma as dores de Salvador e o leva à infância.

Mais um vez, Penelope. Garoto pobre e criado somente por sua mãe, Jacinta – Penelope Cruz, sempre ótima quando dirigida por Almodóvar –, Salvador frequentou, contrariado, o seminário. “Não quero ser padre”, repetia à exaustão o garoto. Porém, naquela época, não somente na Espanha, o seminário era uma opção de educação de qualidade para meninos pobres. A mãe de Salvador sempre minimizou a realidade dura da família, e a personagem, que na velhice é vivida por Julieta Serrano, trava com Salvador um diálogo que Almodóvar nunca teve com sua mãe, mas gostaria de tê-lo vivido.

Penelope Cruz também está no filme não por acaso. A atriz, desde 1997, com “Carne Trêmula”, tem figurado nas obras do cineasta, com enorme sucesso. Duas das maiores obras de Almodóvar, “Tudo sobre Minha Mãe” (1999) e “Volver” (2006), contam com a bela. Cecilia Roth, outra atriz que já trabalhou algumas vezes com o espanhol, faz uma pequena participação em “Dor e Glória”. Com Julieta Serrano e Carmem Maura, ela esteve em “Pepe, Luci e Bom”, de 1980, primeiro filme comercial de Almodóvar, feito quase voluntariamente e com muito pouco recurso.

Voltando à trama, o reencontro com Alberto e com a infância traz a Salvador outra boa surpresa. Seu antigo namorado, Federico (Leonardo Sbaraglia, em ótima atuação), aparece para uma visita. Não há arrependimentos, ninguém precisa ser perdoado. Salvador percebe que a imagem que via ao olhar para o espelho estava distorcida. Sua atitude, sua postura, seu peso mudam. Banderas passa essa sensação ao espectador com talento.

Com essas idas e vindas de presente e passado, o público tem uma visão de Salvador e de Almodóvar, cuja genialidade é indiscutível. O espanhol chega aos 70 com um filme que se volta para o sentimentalismo sem pieguice, que fala da velhice com maturidade e traz um desfecho que não deixa dúvidas de que a idade não limita a criação.

Longa parceria

Almodóvar diz que Salvador Mallo, de “Dor e Glória”, é o melhor papel de Antonio Banderas desde “Ata-Me”, filme de 1990. Não há como discordar do cineasta, que resgatou Banderas de Hollywood em 2011 para fazer o noir “A Pele que Habito”. Nesses anos de parceria, Almodóvar é o único diretor que conseguiu fazer o ator se afastar do estereótipo do “amante latino”. Confira os filmes que resultaram desse encontro desde os anos 80, com ambos em início de carreira.

“LABIRINTO DE PAIXÕES” (1982)

Segundo filme de Almodóvar, em que Banderas faz uma pequena participação. O enredo traz questões sexuais e distúrbios psiquiátricos, dois temas que são recorrentes na obra do diretor.

“MATADOR” (1986)

O filme é considerado por Almodóvar sua obra mais fraca e, certamente, é o mais sombrio. Banderas aqui ainda é coadjuvante.

“A LEI DO DESEJO” (1987)

Primeiro papel de destaque de Banderas, neste filme que causou barulho ao abordar a homossexualidade de maneira bastante explícita, além de trazer questões como a mudança de gênero e a Aids, ainda um tabu no cinema na época.

“MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS” (1989)

Filme icônico de Almodóvar por seu enredo, sua estética e seu elenco, que inclui Banderas no meio das atrizes Carmem Maura, Julieta Serrano e Rossy de Palma.

“ATA-ME” (1990)

Com Victoria Abril, este filme marcou a carreira de Banderas, que interpreta maravilhosamente um jovem psicopata que sequestra uma atriz para fazer com que ela se apaixone por ele.

“A PELE QUE HABITO” (2011)

Protagonizado por Banderas, este filme noir de Almodóvar utiliza elementos de horror ao contar a história de um cirurgião plástico obcecado por fazer pele artificial para recuperar a beleza da mulher, que foi queimada. Cruel, ele testa seus produtos em um jovem.

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