Alerta

Índice de suicídio entre adolescentes cresce 24% em nove anos

Pesquisa indica que, entre 2006 e 2015, índice teve aumento de 24% entre jovens; OMS trabalha em escala global para redução das taxas

Dom, 28/04/19 - 03h00

É sem muitos traços de nostalgia que Júlia*, 24, recorda seu adolescer. Desde bem jovem, ela percebia que havia algo de diferente em si. Aos 15, já tinha clareza de que sua saúde mental estava fragilizada. Mas, sem encontrar espaço de escuta, não conseguia se abrir para ninguém. Colegas se empolgavam com planos de uma carreira, novos amores e festas; ela, simplesmente, preferia não sair de casa ou mesmo do quarto. E, enquanto as colegas se empenhavam na organização da tradicional festa de debutante, Júlia tentava tirar a própria vida pela primeira vez. Mesmo chegando a atitudes extremas, com situações de automutilação e abandono escolar, só quatro anos depois do fatídico episódio é que a adolescente foi orientada a buscar ajuda profissional.

Ao impactante depoimento de Júlia, somam-se outros ouvidos pelo Pampulha que, juntos, fornecem um mosaico que aponta para uma triste estatística: a crescente taxa de suicídio entre adolescentes no Brasil. Estudos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indicam que, entre 2006 e 2015, esse índice teve aumento acumulado de 24%. Um cenário que levou o Ministério da Saúde a divulgar, em 2017, pela primeira vez, um “Boletim Epidemiológico de Tentativas de Suicídios e Suicídios Consumados no Brasil”. Entre outros fatos, evidencia-se que, entre 15 a 29 anos, a taxa é maior entre os homens, correspondendo a nove mortes por 100 mil habitantes; entre as mulheres, o índice é de 2,4 por 100 mil. 

De maneira geral, em todo o mundo, o suicídio acomete mais de 800 mil pessoas por ano, sendo a segunda maior causa de morte no planeta entre pessoas entre 15 e 29 anos, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) – a primeira é a violência. Números que, aliás, devem ser maiores, já que há indícios de subnotificação – para cada registro oficial, existem pelo menos quatro tentativas não registradas. Segundo a OMS, as tentativas devem ser cerca de 20 vezes mais frequentes do que o ato consumado. A situação é tão grave que a entidade determinou, como um imperativo global, a redução das taxas de suicídio em 10% até 2020.

Mas, mesmo que tantos dados nos levem a crer que estamos diante de um evidente problema de saúde pública, o tema permanece cercado de tabus e preconceitos – inclusive, entre profissionais da saúde. É o que sustenta o estudante de enfermagem Lauro*, 21. Em 2017, diante da forte cobrança dos primeiros anos na universidade, a que se somavam um maior distanciamento de amigos do ensino médio e, ainda, a incompreensão de sua família sobre a sua sexualidade, viu-se com crises ansiosas. “Eu sentia vontade de viver, sentia vontade de sair da cama, mas não conseguia”, recorda. Foi quando começou a idealizar a própria morte.

Lauro só foi buscar ajuda em 2018. “Uma amiga e um professor me ajudaram a identificar o problema, mas só quando eu não conseguia me aguentar mais é que fui buscar apoio em um posto de atendimento”, expõe, reconhecendo de pronto a importância de ter sido apoiado por uma pessoa adulta. “Saúde mental é um assunto sobre o qual ninguém fala! A presença de uma pessoa empática, para quem está sofrendo, é essencial”, examina. 

O atendimento médico, porém, foi marcado por displicência. “Quando expliquei o que estava sentido, a médica apenas perguntou qual medicamento eu queria”, lembra. A história só mudou – “da água para o vinho” – quando ele comentou ser estudante da área da saúde. Mesmo assim, saiu apenas com a receita para a compra de um antidepressivo, sem orientação de buscar ajuda psicológica. Hoje, o estudante é categórico em dizer: “Existe vida pós-depressão”. Ao mesmo tempo, lamenta que, apesar da formação, ainda existam profissionais que se deixem levar por preconceitos. “É algo que vemos pelo jeito de olhar”. 

Para que tabus não mais afetem o atendimento aos pacientes, a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informa que realiza “ações na perspectiva de capacitar os profissionais da rede, desde 2015, com o olhar ampliado sobre as questões que envolvem a saúde mental” – entre eles, o Encontro Mineiro de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes, que teve sua última edição em 2016.

Fatores de risco. De acordo com a pesquisa da Unifesp, que indicou aumento dos índices de suicídio entre adolescentes, a desigualdade social e o desemprego são determinantes sociais relevantes para esse tema. A constatação é especialmente preocupante, observando que há, no país, 4,6 milhões de desalentados (isto é, pessoas que desistiram de procurar trabalho) e 3 milhões sem emprego há mais de dois anos, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os jovens, 23% não trabalham nem estudam, de acordo com indicadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

“Atualmente, o suicídio é compreendido como um transtorno multidimensional, resultado de interações complexas entre fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais e ambientais. O aumento de desemprego e da desigualdade social produz um ambiente social de risco”, explica o psiquiatra Elson Asevedo, que conduziu a pesquisa ao lado de Jair Mari e Denisse Jaen-Varas. Mas, para ele, “vários outros fatores modificáveis podem ser abordados como estratégias em um programa multisetorial de prevenção”.

“Em relação à sociedade e ao sistema de saúde, é possível aumentar o acesso da população a serviços de saúde mental, garantindo que as pessoas em sofrimento possam receber o tratamento necessário”, aponta Asevedo, acrescentando, ainda, que a legislação poderia, por exemplo, dificultar o acesso a meios letais para o suicídio, como armas e pesticidas. A mídia, através de diretrizes, pode buscar reduzir relatos que sensacionalizam tal ato – o que gera “efeito cópia”. Por fim, “ações comunitárias que reduzem discriminação, campanhas e políticas para redução do uso de álcool e outras drogas também são medidas efetivas na redução das taxas de suicídio”, informa.

O psiquiatra frisa que o ambiente escolar é estratégico para a implantação de uma abordagem de prevenção. “Crianças e adolescentes passam mais tempo na escola do que em qualquer outra estrutura institucional. Falar abertamente sobre questões de saúde mental nas escolas é um passo importante para reduzir estigma e facilitar acesso aos cuidados necessários”, comenta. E, além de levar esse debate para as salas de aula, “precisamos capacitar os educadores a reconhecer os sinais de risco para suicídio e dar o suporte inicial necessário para jovens em risco. Também devemos fortalecer os laços entre escola e família, orientando e alertando os pais sobre os sinais de risco”, diz.

É importante estar atento aos sinais 

Entender as razões que têm causado sensível aumento nos índices de suicídio entre adolescentes é algo que está posto em debate. “Os números epidemiológicos são significativos e nos direcionam para a busca da compreensão desse fenômeno recente e alarmante”, sinaliza Luciana Nogueira Carvalho, especialista em psicologia e psiquiatria para crianças e adolescentes, comentando que, com 30 anos de atendimento clínico, vem observando o aumento no atendimento de pessoas jovens. “Antes era algo raro, agora é constante”, indica. A psiquiatra Soraya Hissa ratifica a percepção de uma crescente demanda: só no último fim de semana, foram três atendimentos a adolescentes que tentaram se matar. Outro exemplo cabal desse fenômeno foi o registro recorde de ligações ao Centro de Valorização da Vida (CVV), em 2017, que superou a marca de 2 milhões de atendimentos, em todas as faixas etárias, o dobro de 2016.

Para a profissional, “no novo mundo virtual em que estamos todos inseridos, o cenário é de uma adolescência entristecida, solitária, pouco resiliente e com baixa capacidade de suportar a frustração”. Opinião compartilhada também pela psicóloga Mariana Tavares, que foi coordenadora das comissões de psicologia clínica e psicologia nas emergências do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais. “É um fator que pode levar a pouca socialização, perda da percepção do próprio corpo, das relações fora da rede. Há uma lacuna, uma falta da experiência vivida”, diz, completando que é preciso “recriar ambientes de socialização, seja na rua, em casa, na igreja...”.

Lembrando que a ideação suicida não é uma condição da pessoa deprimida – isto é, nem todo aquele diagnosticado com depressão vai tentar suicídio, e nem toda tentativa está relacionada a quadro depressivo –, Mariana avalia que a adolescência é, em si, um período difícil, conturbado e de mudanças. Por isso, é fundamental que os adultos busquem estar próximos, o que aumentaria as chances de perceber quando uma transformação vai deixar de ser algo apenas esperado. Luciana defende, ainda, que pais e professores sejam treinados a identificar sinais, que podem ser variados. 

“Tanto o aumento da irritabilidade como o seu contrário, a apatia, podem ser sintomas depressivos. A tristeza e a solidão frequentes, as crises de choro, a perda de interesse por atividades antes prazerosas, a diminuição do sono ou a sonolência excessiva, as alterações de apetite, as culpabilizações excessivas e a baixa autoestima são sintomas depressivos constantes”, enumera. “A família percebe que algo está acontecendo porque o comportamento do jovem se modifica visivelmente. Quanto à escola, os primeiros sintomas depressivos se caracterizam pelo isolamento e pela perda de rendimento acadêmico”, completa a psiquiatra.

E, percebendo sinais de ideação suicida, o passo fundamental é evitar a negação do sofrimento. “Chamar de chato, de aborrecente, dizer que tem tudo na vida, nada disso ajuda”, avisa Mariana. “O segundo passo é ouvir, com empatia. Não é fácil escutar e, por isso, o terceiro passo é não ficar sozinho com o problema: ajude esse adolescente a buscar ajuda!”, finaliza.

Diante do auxílio de um profissional, é importante compreender que, em alguns casos, o uso de medicação pode ser recomendado. “É difícil dizer para um pai, para uma mãe, que seu filho vai precisar usar antidepressivos. Sabemos que ainda há resistência, mas esse é um receio que precisa ser superado”, aponta Soraya Hissa. Além disso, é fundamental que se compreenda o tratamento como um processo, que pode ser longo. “Os medicamentos, por si só, não resolvem esse problema de saúde mental. Por isso, a terapia é necessária. É onde o adolescente pode contar, sem medo de ser censurado, tudo o que acontece com ele e dentro dele”, diz.

Buscando ajuda

CVV. O Centro de Valorização da Vida promove apoio emocional e de prevenção do suicídio, com atendimento gratuito e sob sigilo a todos que querem e precisam conversar. Telefone 188, email e chat 24 horas todos os dias.

Clínica Social de Psicoterapia. Atendimento clínico a preços populares. Av. Álvares Cabral, 1134, Lourdes, (31) 3291-4527. De seg. a sex., de 8h às 12h e 13h às 18h.

Raps. Rede de Atendimentos Psicológicos Sociais. Retorna contato após cadastro no site sapientiacordis.org/raps

Instituto Mineiro de Gestalt-Terapia. Atendimento clínico social, a preços acessíveis. R. Padre Severino, 103, São Pedro, (31) 99311-0365. De seg. a sex., das 8h às 21h.

SPA. O Serviço de Psicologia Aplicada é uma clínica-escola da UFMG com atendimentos acessíveis à população. Contato: (31) 3409-5070, spa@fafich.ufmg.br.

Processo pode ser silencioso

Hoje coordenador de comunicação em uma grande organização educacional, Pedro*, 33, certamente é visto como alguém que tem uma carreira de sucesso. Todavia, ainda se sente afetado pelo conturbado período de sua adolescência. Com 14 anos, ele já entendia, de forma cristalina, que sentia-se atraído por meninos. A homossexualidade, desde o início, não foi um problema para ele. Seguro do que queria para si, era incapaz de se imaginar simulando relacionamentos heterossexuais. Bem resolvido consigo, entretanto, ele temia pelo preconceito a que estaria sujeito. E passou a ser acometido por pensamentos suicidas. 

“Era um período em que precisava pensar em vestibular, carreira, e fui tomado de temor pelo futuro”, recorda. Assim, decidiu suprimir sua sexualidade até a conclusão do ensino médio e, imaginando que depois disso seria impossível, passou a planejar a própria morte. A ideação suicida o acompanhou por quatro anos. “Em dezembro de 2003, fiz vestibular, e os dois meses seguintes foram os mais difíceis – era quando meu plano chegaria ao fim”, diz, citando que, à época, não imaginava que tivesse qualquer tipo de problema relacionado à sua saúde mental – e por isso não pensava em buscar ajuda. A história de Pedro mudou ao entrar para a universidade. Dois anos depois, “dei um passo importante, ‘saí do armário’ para meus amigos – e esse foi o maior indicador que havia superado aquela fase difícil”.

Pedro só foi frequentar terapia depois de adulto. É lá que ainda busca compreender melhor o seu complicado adolescer. Seu relato funciona como alerta duplo: olhando para trás, ele observa que emitia apenas um sinal de que precisava de ajuda: a queda abrupta de seu rendimento escolar. Os “sintomas”, portanto, nem sempre são claros; além disso, fica explicitado como a supressão da orientação sexual tem efeitos maléficos à saúde mental. Jovens LGBTs, aliás, são apontados, em diversas pesquisas, como grupo de risco. Em 2009, o periódico científico “Journal of Youth and Adolescence”, por exemplo, apontou que entre estudantes com entre 13 a 19 anos, 30% dos membros da comunidade queer já haviam relatado ideação suicida, contra 6% entre os heterossexuais e não-transexuais.

Fatores de risco, depressão e gênero

Artigo de 2013 das psicólogas Luiza de Lima Braga e Débora Dalbosco Dell’Aglio, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, aponta fatores de risco para o suicídio entre jovens. Confira:

Risco. Nas Américas, habitantes de zonas urbanas e jovens de 15 a 24 anos são grupos de maior risco de suicídio.

Depressão. A maioria dos estudos sobre suicídio menciona a depressão como um dos principais fatores de risco em todas as faixas etárias.

Constante. Motivações para o suicídio, como história de suicídio na família, presença de transtornos mentais, exposição à violência, abuso de álcool e drogas, bullying e conflitos na família tendem a ser constantes em adolescentes de diferentes culturas.

Gênero. Embora o número de mulheres que tentam suicídio seja maior – o que pode se relacionar ao maior índice de depressão desse grupo –, o de homens que consumam o ato é superior – o que pode estar ligado aos papéis atribuídos à masculinidade, que envolvem a competitividade, a impulsividade e o maior acesso a tecnologias letais.

Solidão. Adolescentes que não têm com quem dividir experiências e tristezas têm maior probabilidade de desenvolver problemas emocionais, comportamentais e afetivos.

Bullying. As chances de desenvolver ideação suicida aumentam em dez vezes para jovens envolvidos em bullying, sejam agressores, vítimas ou simultaneamente vítimas e agressores.

Desafios. Durante a adolescência, pensamentos de morte podem aparecer devido às dificuldades na lida com demandas sociais, contextuais e situacionais que a pessoa está vivendo.

Gravidez. Associada a pouco apoio e baixa autoestima, a gravidez na adolescência pode ser fator de risco.

Contágio. O “comportamento de imitação” pode ocorrer tanto por conhecer alguém que cometeu suicídio como pela veiculação de notícias de pessoas famosas que cometeram o ato.

 

* Nomes fictícios

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